Correntes de rituais de interação e geração de energia emocional

· outubro 21, 2018

Por que fazer alguma coisa? Por que realizamos algumas ações e não outras? Estas questões de difícil solução encontram uma resposta na energia emocional, pelo menos quando se trata de interações sociais. Isto é, uma das razões pelas quais nos relacionamos com os outros é obter energia emocional. Quanto mais, melhor.

Essa proposta, feita pelo sociólogo Randall Collins, estabelece que toda relação entre pessoas é um ritual de interação. Esses rituais geram energia emocional, especialmente quando determinadas condições são satisfeitas. Por sua vez, a energia emocional nos leva a buscar a repetição do ritual para obter mais energia.

Rituais de interação

Segundo Collins, os rituais são mecanismos que concentram a atenção em uma emoção, de modo a criar uma realidade compartilhada. Essa nova realidade seria temporária, mas serviria para gerar significados e símbolos.

Por exemplo, longe de rituais mais sofisticados, cumprimentar alguém na rua, dizer “Olá, como vai você?”, será um ritual. Este ritual cria uma nova realidade entre as duas pessoas. Mesmo que dure apenas alguns segundos, será suficiente para gerar símbolos e, por fim, energia emocional.

A energia emocional que emerge deste ritual nos levará a continuar cumprimentando essa pessoa toda vez que a virmos. No entanto, se a energia emocional não fosse produzida, esse comportamento deixaria de ocorrer. Portanto, esses rituais de interação estão ligados. A realização de um ritual fará com que ele se repita, desde que gere os resultados esperados.

Casal fazendo atividade física

Ingredientes do ritual

Os rituais de interação têm quatro ingredientes principais ou condições iniciais:

  • Duas ou mais pessoas se encontram fisicamente no mesmo lugar. Desta forma, sua presença corporal os afeta reciprocamente. Isso também implica que os rituais de interação não podem ocorrer no mundo virtual.
  • Existem barreiras excludentes que transmitem aos participantes a distinção entre aqueles que participam e aqueles que não participam. Em outras palavras, aqueles que participam do ritual e aqueles que não participam são claramente diferenciados.
  • Os participantes concentram sua atenção no mesmo objeto e, ao comunicar um ao outro, adquirem uma consciência conjunta de seu foco comum. O objeto em que eles se concentram pode ser uma ação ou um evento.
  • Compartilham o mesmo estado emocional ou vivem a mesma experiência emocional. As emoções e sentimentos são em grupo, todos experimentam o mesmo.

Os dois últimos ingredientes são os mais importantes. Ambos reforçam um ao outro. Os participantes de um serviço religioso assumem uma atitude mais respeitosa e solene, e aqueles que participam de um funeral podem sentir que sua dor é aumentada.

Em uma escala menor, por exemplo, em uma conversa, à medida que a interação se torna mais e mais fascinante, o ritmo e o tom emocional do diálogo capturam os interlocutores. Esse estado de atenção e emoção compartilhadas foi chamado por Durkheim de consciência coletiva.

Os efeitos do ritual e a energia emocional

Conforme os ingredientes são combinados com sucesso e alcançam altos níveis de coincidência no foco de atenção e a emoção compartilhadas, os participantes experimentarão:

  • Solidariedade grupal e sentimento de integração.
  • Energia emocional individual. Esta é uma sensação de confiança, alegria, força, entusiasmo e iniciativa para a ação.
  • Símbolos que representam o grupo: emblemas ou outras representações (ícones, palavras, gestos) que os membros sentem associados a si mesmos como coletividade. As pessoas imbuídas de sentimentos de solidariedade grupal se mostram reverentes com esses símbolos e os defendem da falta de respeito e, mais ainda, dos renegados.
  • Sentimentos de moralidade: a sensação de que se unir ao grupo, respeitando seus símbolos e defendendo ambos dos transgressores, é fazer a coisa certa. A isto se acrescenta uma percepção da impropriedade e da vileza moral inerente de violar a solidariedade grupal ou a de ofender suas representações simbólicas.
Interação em grupo

Portanto, esses rituais de interação com outras pessoas motivarão muitas de nossas ações. A partir dessa perspectiva, interagir com outras pessoas é benéfico, especialmente quando as condições mencionadas são atendidas.

Isso explica por que somos seres sociais e mostra que as redes sociais, apesar de nos colocarem em contato, dificilmente conseguem nos satisfazer. Nesse sentido, o contato cara a cara não pode ser superado por nenhum outro tipo de interação.