Ronald David Laing, um pesquisador da esquizofrenia

setembro 12, 2019
Laing foi um psiquiatra reconhecido por seu trabalho com pacientes esquizofrênicos. Para ele, os pacientes que sofriam dessa doença se comportavam de maneira diferente dependendo do ambiente em que viviam.

Ronald David Laing foi um psiquiatra britânico conhecido por sua abordagem alternativa para o tratamento da esquizofrenia. Ele foi, além disso, o fundador de uma corrente que se tornou conhecida como antipsiquiatria nos anos 1960 e 1970.

Assim como muitos outros psicólogos e cientistas sociais, Laing trabalhou e pesquisou na famosa Clínica Tavistock. Anos mais tarde, passou a fazer parte da equipe do Instituto Tavistock, na área de pesquisa.

O Instituto Tavistock foi responsável por conceder o financiamento necessário para que Laing realizasse suas pesquisas mais importantes.

Seu trabalho teve foco no estudo da esquizofrenia e do ambiente de tratamento dos pacientes esquizofrênicos. Laing propôs a teoria de que os pacientes se comportavam de maneira diferente dependendo do ambiente em que viviam.

A seguir, vamos revelar mais detalhes sobre a vida de Ronald David Laing e suas pesquisas relacionadas à esquizofrenia.

Mulher com esquizofrenia

Infância de Ronald Laing

Laing nasceu em 7 de outubro de 1927 em Govanhill, Glasgow, Escócia. Ele nasceu em uma família de classe trabalhadora, sendo o único filho de David McNair Laing e Amelia Laing.

Até 1945, frequentou a escola primária para meninos Hutcheson, em Glasgow, onde se destacou por ser um excelente aluno e possuir uma habilidade musical excepcional. Obteve seu diploma na Academia Real de Música em 1944 e se associou ao Colegio Real de Música em abril de 1945.

Durante esse tempo, foi um ávido estudioso da filosofia. Alguns dos autores que mais chamaram sua atenção foram Freud, Marx, Nietzsche e, especialmente, Kierkegaard. Posteriormente, estudou medicina e psiquiatria e obteve um doutorado em medicina na Universidade de Glasgow em 1951.

A vocação pela psiquiatria

Entre os anos 1951 e 1953, ele foi recrutado como psiquiatra pelo Corpo Médico do Exército Real. Foi enviado para a Unidade Psiquiátrica do Exército Britânico, Netley, próximo a Southampton, e depois ao Hospital Militar em Catterick, Yorkshire.

No final de 1953, deixou o exército e começou a trabalhar como docente na Universidade de Glasgow. Durante esse período, foi ao Gartnavel Royal Mental Hospital com o objetivo de completar seu treinamento psiquiátrico.

Neste hospital, estabeleceu um local de tratamento experimental: a “Sala de Rumpus”, na qual os pacientes esquizofrênicos passavam um tempo em um quarto confortável.

Tanto os funcionários quanto os pacientes usavam roupas normais. Além disso, os pacientes podiam dedicar tempo a atividades como cozinhar e praticar atividades artísticas.

As atividades cotidianas tinham como meta garantir que os pacientes pudessem responder aos funcionários e aos demais em um ambiente social, em vez de institucional.

Todos os pacientes mostraram uma notável melhora no comportamento como resultado desse tratamento inovador. Em janeiro de 1956, ele recebeu sua qualificação como psiquiatra.

Consolidação profissional de Laing

No fim de 1956, ele foi nomeado registrador sênior na Clínica Tavistock de Londres. Dirigiu a pesquisa neste instituto até 1960.

A clínica Tavistock era formada por médicos que estudavam pacientes da armada inglesa, e seu principal objetivo era identificar as sequelas que a guerra deixava em um indivíduo.

Pouco depois, o Instituto Tavistock foi criado como uma organização não governamental sem fins lucrativos. Financiado pela Fundação Rockefeller, o Instituto Tavistock desenvolvia pesquisas em ciências sociais e psicologia aplicada à educação, à pesquisa e ao desenvolvimento profissional.

Assim, Laing trabalhou para o Instituto Tavistock durante quase 30 anos. Em 1958, começou a pesquisa que o levaria a sua obra Sanidade, Loucura e a Família, que foi publicada em 1964.

Também começou a fazer uma série de seminários que envolviam diversas pessoas, que acabaram por se tornar importantes colaboradores. Foi o caso de Aaron Esterson e David Cooper.

Obras e reconhecimento de Laing

Sua obra O Eu Dividido foi publicada pelo editorial Tavistock em 1960. O livro recebeu críticas favoráveis, embora, após seu lançamento, as vendas não tenham acompanhado seu sucesso. Pouco tempo depois, ele publicou o livro O Eu e os Outros.

Laing se qualificou como psicanalista e estabeleceu uma prática privada em Londres. Começou a fazer experimentos com as drogas, especialmente com o LSD.

Em 1962, foi nomeado Diretor Clínico da Clínica Langham em Londres e, a partir desse momento, começou a ganhar uma certa popularidade.

Nos anos seguintes, escreveu a maioria dos artigos que depois foram compilados no livro A Política da Experiência e a Ave do Paraíso. Também publicou Razão e Violência em coautoria com David Cooper, outro pesquisador associado ao Instituto Tavistock.

O projeto Kingsley Hall

Em 1965, Laing embarcou no projeto de Kingsley Hall junto com Aaron Esterson, David Cooper e outros pesquisadores da época. O projeto durou até 1970.

Em resumo, o Kingsley Hall consistia em instaurar uma comunidade experimental, não hierárquica, na qual os pacientes com esquizofrenia receberiam um espaço para trabalhar a sua psicose sem recorrer a drogas ou outras terapias, como os eletrochoques ou a cirurgia.

A inspiração veio dos projetos Rumpus Room de Laing e da experiência de seus colaboradores. Outros projetos, como a Villa 21 de Cooper, se mostraram fundamentais para o desenvolvimento do Kingsley Hall.

Assim, se desenvolvia uma comunidade para pacientes esquizofrênicos sem distinções entre funcionários e pacientes, ou seja, baseada nas relações sociais.

Como consequência do sucesso do Kingsley Hall, Laing fez uma turnê dando palestras pelos Estados Unidos, o que lhe permitiu entrar em contato com outros psicanalistas de renome.

Em 1967, ele participou do Congresso de Dialética da Libertação, destinado a unir a política de esquerda e a psicanálise. Ali, fez um discurso que tinha o título de O Óbvio. Mais tarde, o mesmo foi publicado em uma antologia que reunia os discursos desse congresso.

Vida pessoal

Em 1952, Laing se casou com sua namorada, Anne Hearne. No mesmo ano, nasceu sua primeira filha, que recebeu o nome de Fiona. O casamento ainda deu origem a outros filhos: Susan, Karen, Paul, Adrian.

Depois de se separar de Anne, Laing teve como companheira Jutta Werner, com quem teve mais três filhos. Posteriormente, teria mais dois filhos de mães diferentes.

No ano de 1971, com o Kingsley Hall fechado, Laing decidiu que era o momento oportuno para tirar um ano sabático no Sri Lanka e na Índia. Durante essa viagem, ele se dedicou à meditação budista teravédica.

Preparando-se para sua viagem, fechou sua prática privada, a mesma na qual havia realizado sessões de terapia com LSD durante os anos 1960. Não ficou claro se suas pesquisas com LSD foram retomadas quando voltou da Índia.

Em 23 de agosto de 1989, Laing faleceu enquanto jogava tênis. De acordo com os relatórios médicos, ele sofreu um ataque do coração.

Sri Lanka

O legado de Ronald David Laing para a esquizofrenia

Ao longo de grande parte de sua carreia, Laing esteve interessando nas causas subjacentes da esquizofrenia e mostrou uma clara oposição aos tratamentos que, naquela época, eram utilizados para tratar esses pacientes.

Assim, Laing tentou buscar alternativas à hospitalização e à terapia de eletrochoque que eram comuns naquele momento da história.

“Deveríamos nos dedicar a desaprender grande parte do que foi aprendido e a aprender o que não nos foi ensinado”.
-R. D. Laing-

Laing teorizou que a insegurança ontológica (a insegurança sobre a existência de si) provoca uma reação defensiva. Essa reação, por sua vez, faz com que o eu se divida em componentes separados, gerando, assim, os sintomas psicóticos característicos da esquizofrenia.

Em sua obra Sanidade, Loucura e a Família, publicou uma série de casos de pessoas cujas doenças mentais eram, segundo Laing, influenciadas por suas relações familiares. Essa abordagem gerou muita agitação na época.

Embora a abordagem inicial de Ronald David Laing em relação à esquizofrenia tenha sido bastante controversa, ele retificou algumas de suas posições nos anos seguintes.

  • Laing, R. D. (1969). El cuestionamiento de la familia. Paidós.
  • Laing, R. D. (1988). Las cosas de la vida: un ensayo sobre los sentimientos, la realidad y la fantasía. Editorial Crítica, Grupo Editorial Grijalbo.
  • Herrera Zavaleta, J. L. (2009). Filosofía y contracultura.