Ruth Benedict e sua busca incansável pelos padrões de cultura

junho 13, 2020
Ruth Benedict foi uma das grandes antropólogas do século XX nos Estados Unidos. Discípula de Franz Boas e professora da Universidade de Columbia, ela foi uma das cientistas sociais que buscaram explicar a complexa relação entre o indivíduo e a sociedade através do estudo da personalidade e da cultura.

Ruth Fulton Benedict (Nova York, 1887-1948) foi uma escritora e antropóloga norte-americana. Iniciou sua vida profissional escrevendo poesia, mas logo descobriu a antropologia. Durante seu tempo de estudante, se tornou amiga da antropóloga Margaret Mead. No entanto, seu mentor e professor foi Franz Boas. As discípulas de Boas foram as responsáveis por difundir ideias relativistas na disciplina antropológica. Além disso, os estudos de Ruth Benedict construíram pontes entre a psicologia e a antropologia, já que pertenciam à corrente hoje conhecida como cultura e personalidade.

Considerando o tempo em que ela viveu, a vida de Benedict não foi uma das mais comuns, uma vez que o mundo da pesquisa era exclusivamente composto por homens. No final do século XIX e até o início do século XX, o acesso aos estudos universitários era algo, na maioria das vezes, relegado aos homens.

Por esse motivo, Ruth Benedict se tornou uma figura fundamental do século passado, não apenas por suas contribuições à antropologia, mas pela natureza excepcional da sua existência: era mulher e de origem humilde. Ao longo deste artigo, descobriremos suas contribuições e conheceremos sua vida e obra.

Primeiros passos no mundo acadêmico e descoberta da antropologia

A vida de Ruth Benedict e sua carreira acadêmica romperam os padrões estabelecidos para as mulheres em seu tempo. O pai de Ruth era cirurgião, e faleceu quando ela e a irmã ainda eram jovens. A família mudou-se da cidade para o campo para morar com os avós de Ruth. Sua mãe se dedicou a lecionar, mas a situação financeira da família não era totalmente estável.

Ruth e sua irmã eram muito boas alunas e, graças a isso, obtiveram bolsas de estudos que lhes permitiram obter uma formação superior. Apesar da sua situação, Ruth Benedict conseguiu entrar na universidade e se formou em 1909 pela Vassar College, com especialização em literatura inglesa. Posteriormente, ela se dedicou a ser professora do ensino médio por três anos.

Quando ela tinha cerca de 30 anos, se matriculou na Universidade de Columbia para estudar Filosofia e Antropologia. Suas motivações eram dar um significado social e intelectual à sua vida, além da literatura. Lá, ela conheceu os grandes antropólogos norte-americanos da época: Franz Boas, Robert Lowie e Alfred Kroeber.

“O que realmente une os homens é a sua cultura, as ideias e normas que eles têm em comum”.
-Ruth Benedict-

Ruth Benedict e suas contribuições para a antropologia

Ruth realizou seu primeiro trabalho de campo no verão de 1922 entre os serranos, uma etnia que reside em duas reservas indígenas no sul da Califórnia. Na época, estava sob a direção de Alfred Kroeber. Suas primeiras aulas de antropologia foram ministradas juntamente com Franz Boas a um grupo de universitários entre 1922 e 1923. No ano seguinte, mudou-se para Columbia, onde começou trabalhando como assistente para, finalmente, exercer a função de docente a partir de 1930.

O início da carreira de Ruth Benedict representa o empoderamento progressivo das mulheres na América do Norte no início do século XX. Ela trabalhava fora de casa, realizava inúmeros trabalhos de campo em todo o país e editava revistas científicas, entre outras atividades. Um exemplo de empoderamento que, infelizmente, não era a norma em seu tempo.

Ruth Benedict e suas contribuições para a antropologia

Sua tese de doutorado foi publicada em 1934 sob o título: Padrões de Cultura. Essa obra é considerada um clássico da antropologia atualmente. Todas as ideias que Benedict expõe nela continuam em vigor até hoje, sendo amplamente aceitas, embora na época contassem, além disso, com o fator novidade.

Em Padrões de Cultura, ela propõe que as culturas concedem um maior privilégio a certas personalidades e rejeitam outras, formando determinados padrões de cultura. Portanto, esses padrões de cultura influenciam diretamente a formação da personalidade de cada membro de uma sociedade.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Ruth Benedict descobriu uma nova área de estudo para a sua época. Ela aplicou o pensamento antropológico ao estudo das sociedades contemporâneas e modernas por meio de entrevistas e documentos escritos, e não tanto pelo trabalho de campo.

Durante esse período de conflitos, Ruth Benedict usou seus conhecimentos e experiências para estudar, à distância, as sociedades da Romênia, do Sião, da Alemanha e da Holanda. Quase no final da guerra, ela se interessou pelo Japão e, assim, nasceu um livro intitulado O Crisântemo e a Espada, texto que hoje também é considerado um clássico. Nele, ela analisa os padrões mais característicos da cultura japonesa da época.

Essas experiências de praticar a antropologia à distância levaram à criação de um manual sobre o assunto: The Study of Culture at a Distance. Na primavera de 1947, ela foi responsável por um projeto de larga escala sobre as culturas contemporâneas da França, Alemanha, Polônia, Rússia e China.

Devido à sua carreira original e livre sem restrições, em 1946 Ruth Benedict se tornou presidente da Associação Americana de Antropologia (AAA), instituição de grande poder dentro da disciplina antropológica.

Vida e obra de Ruth Benedict

A busca de Ruth Benedict pelos padrões de cultura

Em seu livro Padrões de Cultura, Ruth Benedict enfatiza que o que é realmente importante na formação do comportamento individual é a cultura, e não os aspectos biológicos. Portanto, as diferenças comportamentais entre as várias sociedades se devem à sua cultura, que forma diferentes modelos. Para demonstrar isso, ela comparou três culturas diferentes entre si:

  • Zuñi (Novo México): cultura que, para a autora, se caracterizava por uma ampla tolerância.
  • Dobu (ilha do arquipélago de Entrecasteaux, Nova Guiné): cultura na qual se mantinham relações sociais em que predominava a hostilidade, com um valor normativo.
  • Kwakiutl (Ilha de Vancouver): cultura que possuía um senso patológico de prestígio social, sendo a coisa mais importante na vida cotidiana.

Após descrever detalhadamente cada uma das três culturas, Ruth Benedict refletiu sobre várias questões teóricas, como a cultura como objeto de estudo da antropologia, a importância da diversidade cultural e a complexa relação entre indivíduo e coletivo, isto é, entre a personalidade de cada membro e os padrões da cultura dentro de uma sociedade.

“Uma cultura, como o indivíduo, é um modelo mais ou menos consistente de pensamento e ação”.
-Ruth Benedict-

Benedict conclui que as culturas são configurações de crenças, atitudes, conhecimentos e emoções que caracterizam uma sociedade. Isso não é uma mera acumulação, mas um conjunto inter-relacionado que forma padrões de cultura particulares.

Benedict foi uma mulher à frente de seu tempo, que manteve relações amorosas com mulheres e viveu do que mais gostava. Seus estudos são válidos até hoje. Além disso, ao ver a ameaça do nazismo, ela tentou contribuir para enfrentá-la a partir da educação.

Educar e entender a grande diversidade de culturas é uma ferramenta poderosa para enfrentar o racismo.

  • Bohannan, Paul & Glazer, Mark (2007): Antropología, lecturas. Madrid: McGraw-Hill.