Sally Horner, a triste história da Lolita de Nabokov

· outubro 26, 2018

Sally Horner tinha 12 anos quando foi sequestrada por Frank LaSalle, um conhecido pedófilo que acabara de sair da prisão. Ele a manteve em cativeiro por 21 meses até que ela conseguiu fugir e chamar sua família.

Essa história, sombria e tingida de maneira ainda mais trágica, foi a que inspirou Vladimir Nabokov a escrever uma das obras mais conhecidas da literatura: Lolita (1955).

Costuma-se dizer que poucos livros apresentam tantas contradições. A qualidade literária é inegável, assim como a atmosfera enquadrada em uma viagem impossível entre um homem de meia-idade e uma menina, onde somos testemunhas do lado mais decadente, mais frívolo, obscuro e vazio de valores da sociedade americana.

Seu protagonista, Humbert Humbert (palavra que brinca com o termo “ombre” em francês, e que significa sombra), é apresentado como um personagem com o qual é difícil se identificar.

Falamos de alguém que já fugiu da Europa por abusar de uma menina e que levará Lolita para esse mesmo universo de sombras, com o objetivo de satisfazer seu fascínio pelo que ele chama de “nínfulas”, jovens adolescentes.

O livro de Nabokov não se esconde, não camufla nada. Na verdade, o próprio autor também não queria isso. Com Humbert, ele tentou mostrar ao mundo o perfil do pervertido mais clássico, alguém que, em um dado momento, não hesita em matar.

A dureza da história é inegável e desconfortável. A controvérsia permeia todos os detalhes e todas as páginas. Ainda assim, é fácil se render a essa prosa, a essa atmosfera e a essa história que mostra nada mais que um pedófilo que sequestra uma menina de 12 anos.

Um fato que infelizmente, foi inspirado em personagens reais.

“Um sentimental pode ser um animal perfeito em seu tempo livre. Uma pessoa sensível nunca será cruel “.
-Vladimir Navokov-

Sally Horner

A história da verdadeira Lolita, Sally Horner

Frank LaSalle era um mecânico de 52 anos conhecido pela polícia por abusar de meninas entre 12 e 14 anos de idade. Ele tinha acabado de sair da prisão quando decidiu se estabelecer em Nova Jersey e reconstruir sua vida.

No entanto, não é fácil para esse tipo de perfil manter preso o caçador que ignora seus instintos. Assim, no início de março de 1948, LaSalle retornou ao seu território de caça depois de ficar obcecado por uma menina, Sally Horner.

Filha de uma mãe viúva, era comum vê-la sair da escola com as amigas como toda pré-adolescente que nada teme sobre o mundo, que confia e ainda está despertando para a vida. Em nenhum momento ela percebeu que alguém a estava perseguindo diariamente.

LaSalle a seguiu até que encontrou a oportunidade de satisfazer seus desejos e cair mais uma vez no crime. Sally acabara de roubar um caderno de 5 centavos de uma loja. Fazia parte de uma prova de suas amigas de escola para que ela pudesse se juntar ao seu grupo. Uma brincadeira infantil que ela nunca esqueceria.

Frank LaSalle chegou até ela, assim que ela saiu da loja, dizendo que era do FBI. Se ela quisesse que sua mãe não soubesse o que ela acabara de fazer, deveria acompanhá-lo. Sally, assustada e arrependida, concordou. Ambos pegaram um ônibus e ali tudo começou.

Passaram cerca de dois anos viajando pelo país: Atlantic City, Baltimore, Dallas, Califórnia… Uma jornada que os levou de hotel em hotel, de motel de estrada a campings, sempre se fazendo passar por pai e filha.

Resgate e depois tragédia

Ninguém suspeitou de nada. Ninguém percebeu aquele pai obsessivo que nunca deixava sua filha sozinha. Ninguém, até que o hóspede de um hotel, intrigado pela atitude assustada e triste da menina, conseguiu separá-la por um momento de LaSalle para perguntar se ela estava bem. Sally desmaiou e lhe pediu ajuda: ela só queria ligar para casa.

A polícia logo chegou e devolveu a criança para sua casa com a mãe, momento em que a menina conseguiu relatar todo o drama vivido, os abusos sexuais, a humilhação, o medo. Frank LaSalle foi condenado a 35 anos de prisão por um juiz que o definiu como um “leproso imoral”.

No entanto, a coisa mais triste aconteceu dois anos depois. Sally Horner morreu em um acidente de carro ao bater em um veículo agrícola. Frank LaSalle levaria 16 anos para morrer, na prisão, de onde dizem que enviava um buquê todas as semanas para o túmulo da menina.

Sally Horner

Nabokov e a viagem de um pedófilo

Todos esses dados e detalhes estão coletados no livro The Real Lolita: the kidnapping of Sally Horner, da jornalista Sarah Weinman. Trata-se de uma detalhada e longa investigação, na qual encontramos paralelos notáveis ​​entre Sally e a Lolita de Vladimir Nabokov.

O mais impressionante é o absurdo daquela viagem entre um pedófilo e uma menina, uma filha adolescente de uma viúva.

O livro foi publicado com um propósito claro: contribuir para a justiça. Justiça para a própria Sally Horner e para todos os meninos e meninas que foram raptados por pedófilos. Histórias comoventes que ocupam as notícias de nossa mídia por um curto período de tempo.

Da mesma forma, a autora também fala sobre a obra Nabokoviana, onde personagens adultos interessados ​​em meninas são recorrentes.

Além disso, devemos lembrar também que quando Nabokov terminou Lolita, não encontrou nenhuma editora nos Estados Unidos disposta a publicá-lo. Era um livro desconfortável, nada correto. Foi uma editora francesa especializada em conteúdo pornográfico que o lançou.

Também surgiram problemas nas filmagens do longa de Stanley Kubrik. Gary Grant, por exemplo, se recusou a participar de um projeto semelhante quando lhe propuseram interpretar Humbert Humbert. Até o próprio James Mason se arrependeu tempos depois de tê-lo feito.

Lolita de Nabokov

Hoje em dia, as novas edições de Lolita evitam mostrar uma adolescente que, de alguma forma, parece ser culpada pelo seu próprio destino.

Agora já encontramos capas que não mostram aquela femme fatale, aquela jovem provocante com óculos de sol em forma de coração. Agora vemos uma jovem manipulada, uma menina com uma sombra, vítima de um pedófilo como foi a pequena Sally Horner.