Salvar vidas pode ser um crime?

fevereiro 23, 2020

Salvar vidas pode ser um crime? E ver pessoas precisando de ajuda e decidir não ajudar? Três bombeiros sevilhanos da Proemaid foram julgados em Lesbos por salvar centenas de pessoas na Grécia. As leis, tão necessárias e ajustadas na maioria dos casos, tornam-se obsoletas ou desumanizadas em períodos convulsivos e mudanças.

As leis, às quais todos nós devemos respeitar, às vezes seguem por um caminho e as pessoas vão por outro. É o caso desses três bombeiros que foram julgados por salvar a vida daqueles que poderiam perdê-la em barcos à deriva.

Felizmente, quando as leis não protegem os direitos humanos, existem pessoas e associações dedicadas a defendê-los. Assim, associações como Proemaid e Open Arms resgatam do mar aqueles que tentam chegar a Europa fugindo da guerra, perseguição ou pobreza. A punição deveria ser direcionada a quem não salva a vida de quem cai na água.

Atualmente, os bombeiros que foram acusados ​​de tráfico de pessoas enquanto realizavam tarefas de resgate de refugiados como voluntários de uma ONG dizem que estão “felizes” e “aliviados” após terem sido libertados. “A sentença mostra que salvar vidas não é um crime”, disse um deles após a decisão do tribunal.

“A humanidade alcança mais poder a cada dia; não mais felicidade”.
– Yuval Noah Harari –

Bombeiro salvando homem refugiado

Suprimir os direitos humanos por egoísmo

Tudo volta. Hoje são outros, ontem fomos nós, amanhã ninguém sabe. Não podemos viver em um mundo que apenas olha para o seu umbigo, porque embora hoje estejamos bem, não sabemos que situação teremos que enfrentar amanhã.

Se criarmos um mundo em que não há compaixão, não há empatia e não há justiça, mais cedo ou mais tarde ‘pagaremos o preço’, como cidadãos e possivelmente como nação.

Sob as máfias dedicadas ao tráfico de pessoas se esconde uma falta de sensibilidade da sociedade. Embora seja mais do que evidente que devemos lutar contra essas máfias que desumanizam as pessoas, tratando-as como números, o lugar para combatê-las não deve ser o mar.

Por isso, a luta contra essas máfias deve ocorrer nos pontos de partida e chegada. O campo de batalha deve estar no continente. Vidas inocentes correm risco no mar, fugindo da barbárie.

“Os países mais desenvolvidos estão levando o mundo ao desastre, enquanto as pessoas consideradas até agora primitivas estão tentando salvar o planeta inteiro. A menos que os países ricos aprendam com os povos indígenas, estaremos condenados à destruição.
– Noam Chomsky –

Refugiados resgatados

Salvar vidas: no mar, cada segundo conta

Albert Einstein dizia que o problema do homem não estava na bomba atômica, mas em seu coração. No caso das associações que contribuem internacionalmente para o trabalho de resgate de mulheres e homens, meninos e meninas em circunstâncias extremas, os seus corações não poderiam ser maiores. Para essas pessoas, é melhor agir expondo-se ao arrependimento do que se arrepender de não ter feito nada.

A decisão de Lesbos esclarece e confirma que essas associações não merecem uma criminalização por salvar vidas, aquelas que atualmente são consideradas meros objetos, neste e em outros casos semelhantes. É, sem dúvida, um trabalho humanitário que deve ser isentado de responsabilidades criminais, como assegura a Diretiva Europeia de Facilitação.

Essa decisão não se refere apenas a esses três bombeiros sevilhanos, mas a todas as pessoas que ajudam a salvar vidas no Mediterrâneo. Não podemos julgar as pessoas que ajudam. Tentaram criminalizar a solidariedade, criminalizar a ajuda humanitária, mas a sentença final mostrou que salvar vidas não é um crime.

“Somos apenas uma raça evoluída de macacos em um planeta menor do que uma estrela normal. No entanto, podemos compreender o universo. Isso nos transforma em algo muito especial”.

Imagens cortesia de www.fitovazquez.es

  • Del Ramo, J. L., & Humanes, M. L. (2016). Análisis de contenido de la representación fotográfica de la crisis de los refugiados sirios y su incidencia en el framing visualScire22(2).
  • Dummett, M. A. (2004). Sobre inmigración y refugiados. Cátedra.
  • Müller, E. (2015). Alemania facilita la llegada de refugiados sirios a su territorio. El Pais, 26.