Sentir-se sozinho no relacionamento: frieza emocional que cria distâncias

outubro 18, 2019
A solidão experimentada mesmo estando acompanhado é devastadora e contraditória. Essa realidade tem sérias consequências, porque não há nada mais doloroso do que a indiferença, do que o vazio emocional da pessoa que amamos.

Sentir-se sozinho no relacionamento é experimentar um dos sofrimentos mais profundos e, ao mesmo tempo, agudos. Dói não saber o motivo dessa frieza emocional.

É estranho ter ao nosso lado a pessoa que amamos e, no entanto, não senti-la. Poucas solidões são mais problemáticas (além de comuns) do que aquelas que ocorrem em um lar compartilhado.

Gustavo Adolfo Bécquer disse com muita razão que a solidão é muito bonita, sempre que temos alguém a quem expressá-la.

No entanto, por mais impressionante que pareça, existem muitas situações em que um grande número de pessoas com uma vida social estável ao seu redor se percebem sozinhas e desconectadas de seu entorno. Algo assim não gera apenas sofrimento psicológico, mas também problemas de saúde.

O assunto não é novo. Sentir-se sozinho no relacionamento é algo que sempre existiu. No entanto, atualmente, e graças a estudos sobre a solidão da população, estamos descobrindo mais dados sobre essa anatomia do sofrimento que aparece em quase todas as idades.

Este quadro pode estar presente em relacionamentos de casais jovens e é comum principalmente em adultos de idade avançada.

“Se você tem medo da solidão, não se case”.
-Anton Chekhov-

Casal brigado

Por que alguém pode se sentir sozinho no relacionamento?

Existem dramas que não precisam de palavras, agressões ou tragédias visíveis ​​para que o sofrimento apareça. Na verdade, as maiores tristezas surgem no silêncio do dia a dia, pouco a pouco e naquela vida cotidiana onde uma pessoa que antes jurava amor eterno se afasta e apresenta, sem querer, uma frieza emocional.

Algo assim, na realidade, não surge de uma semana para outra. Esse distanciamento psicológico (que nem sempre é físico) aparece de maneiras quase insuspeitas. É deixar de dar importância aos costumes ou rituais anteriores, é esquecer detalhes, é ouvir o outro mas não escutar o que diz, é deixar-se levar pela rotina e não sentir vontade de fazer coisas diferentes juntos…

Esses tipos de situações têm um impacto sério. Perceber como o parceiro parece estar mentalmente situado em outro lugar não é apenas doloroso, é também a origem de muitos outros problemas.

Especialistas como o Dr. Aaron Ben-Ze’ev, filósofo, psicólogo e especialista em relações afetivas, apontam o seguinte:

  • Devemos diferenciar o fato de estar sozinho do fenômeno da solidão. Estar sozinho é não ter ninguém conosco, de forma que estamos diante de uma realidade física. Por outro lado, a solidão é um fator psicológico cada vez mais comum e experimentado principalmente por pessoas que vivem em casal.
  • Esse tipo de solidão costuma estabelecer as bases para transtornos depressivos e de ansiedade. O sofrimento é máximo e, de acordo com estudos como o realizado pela Universidade de Manchester (Reino Unido) pelo Dr. Greg Miller, a solidão como fenômeno psicológico é tão perigosa para a saúde quanto o tabaco ou o sedentarismo.

Vejamos a seguir quais razões podem estar por trás do fato de se sentir sozinho em um relacionamento.

Sentir-se sozinho no relacionamento

O desamor e o medo de agir

Às vezes, o desamor parece um vento frio cuja fonte não identificamos. De repente, e sem a necessidade de que algo aconteça, tudo perde seu brilho, seu significado e sua transcendência. As emoções não são mais as mesmas e é inútil forçá-las ou fazer com que vejam o que não sentimos mais.

A falta de amor nem sempre precisa de uma razão concreta para que surja, ele simplesmente aparece e, quando o faz, pode ser igualmente desanimadora para os dois membros do casal.

No entanto, quando estamos plenamente conscientes de que não amamos mais o outro, devemos agir e esclarecer nossos sentimentos. Os enganos (e autoenganos) que permanecem ao longo do tempo têm sérias consequências. Uma delas é fazer o outro sofrer ao perceber a evidente frieza emocional.

A rotina que nos pega

Sentir-se sozinho no relacionamento é mais provável quando o peso da rotina é maior. Há momentos em que simplesmente nos deixamos levar. O trabalho, as obrigações, os filhos… Tudo cai em um ritmo mecânico no qual não há espaço para o afeto, para nos olharmos nos olhos e nos encontrarmos novamente.

No final, até as conversas são rotineiras, o que corrói o amor e a intimidade. Contra isso, nós mesmos podemos tentar introduzir mudanças ou solicitar ajuda profissional. A passividade raramente soluciona o problema.

E se a origem do sentimento de solidão for você?

Há uma terceira dimensão a ser considerada no fato de sentir-se sozinho em um relacionamento. Às vezes, chega um momento em nossas vidas em que surge um vazio sem explicação. Nessa lacuna existencial, se misturam a insatisfação, a falta de um significado e até o medo de mudar o que nos rodeia.

Esse tipo de situação é mais comum do que pensamos. Há pessoas que se sentem sozinhas no relacionamento porque não são mais as mesmas; nelas, marca presença a frustração por não terem o que querem.

Nesses casos, não há culpados, e embora acreditemos que é o outro é que mudou e não é mais capaz de nos dar o que precisamos, na realidade talvez sejamos nós.

Às vezes somos nós que evoluímos, crescemos em perspectivas a ponto de mudar gostos, necessidades ou motivações (outra projeção profissional, maior independência, novas conexões sociais e pessoais, etc.).

Caminho ao entardecer

Para concluir, a solidão em um relacionamento é tão recorrente quanto mortal para muitos deles. Primeiro, porque é origem de sofrimento e de problemas psicológicos e de saúde. Segundo, porque ninguém deve ou merece experimentar esse tipo de dor que deixa tantas sequelas.

Portanto, investiguemos a causa por trás dessa situação. Conversemos com nossos parceiros e levantemos soluções, sendo honestos, respeitosos e responsáveis.

  • Miller, G. (2011). Why loneliness is hazardous to your health. Science331(6014), 138–140. https://doi.org/10.1126/science.331.6014.138
  • Renzetti, E. (2014). Life of solitude. The Globe and Mail, 23.11.13