Ser para você e não para os demais

· setembro 12, 2015

“Se dos nossos desejos tirássemos os que pertencem aos demais, nos sobrariam poucos. O mesmo aconteceria com os nossos medos… inclusive os relacionados a nós mesmos”

No mundo em que vivemos, nos vemos assaltados continuamente por um movimento de superexposição comunicativa e de exaltação sistemática do ego.

Todas as pessoas querem ter grandes teorias a respeito das coisas, qualquer ato de lógica, bondade ou altruísmo aparece nas redes sociais ou em algum portal de internet, como se a bondade e uma atitude cívica devessem ser reconhecidas publicamente, como se uma ação com estas características não pudesse ficar no âmbito privado como um desfrute individual do que a pessoa resolveu fazer.

Aprenda a ser para você.

Muitos profissionais do esporte, da política e da arte mostram-se a cada vez mais interessados em se tornarem “criadores de followers” ou simplesmente, “pessoas de relevância pública”.

Há alguns séculos, entre os gregos, o desejo de imortalidade era baseado em realizar uma ação heroica que sobrevivesse com o passar do tempo. Mas eles estavam interessados na ação em si, e o ego não era alimentado até que se reconhecesse seu valor legítimo por ter desenvolvido uma atividade intelectual ou estratégica que o merecesse.

Hoje, todos estão interessados no reconhecimento público de seus pensamentos, ações ou dos mais normais processos da vida humana (o casamento mais espetacular, a mãe mais carinhosa). Uma infinidade de “amigos” e seguidores acompanha cada detalhe de suas vidas.

“É o tempo de parecer ser, não de ser pelo ser”

Dizem que a felicidade não é real se não for compartilhada, mas ela está sendo compartilhada cada vez com mais gente e, curiosamente, parecemos ter menos vida e estarmos mais afastados das relações cara a cara, do conforto de uma companhia e de uma boa conversa, na qual não se cite continuamente atos heroicos. Uma intimidade calorosa, com segredos do coração, uma intimidade deliciosa que só pode ser compartilhada com poucas pessoas.

Aprenda a ser para você.

Algumas pessoas ficam encantadas com todo este falso pacote de aparências, de ego, de pronunciar as palavras que os outros querem ouvir, e optam por uma arte em desuso: a da insignificância.

Não é uma insignificância forçada, simplesmente certas pessoas chegam a uma fase de suas vidas nas qual estão cansadas de impressionar e de que lhes impressionem, e desejam compartilhar as coisas de verdade.

Escolhem se informar por eles mesmos, cultivar os pequenos detalhes diários que lhes causam satisfação, sem ansiedade ou vontade de estar em outro lugar e em outro tempo. Querem se formar, querem ler, querem ver filmes que não são recomendados até que se saciem, querem ter seus próprios costumes cheios de fineza e firmeza.

Aprenda a ser para você.

Preocupam-se em ser, não em parecer

São pessoas que não costumamos encontrar com frequência, mas quando estamos com elas não precisamos compartilhar o que foi vivido, pois a experiência é tão intensa que não há tempo nem interesse em se mostrar aos demais. A galeria não lhes parece atraente.

Só a olham a cada vez de uma forma mais perspicaz, desconfiando de todo o halo de “perfeição“ que desprendem. Gostam de escutar e de pensar. O prazer da insignificância já está na literatura, através do o genial escritor Milan Kundera, que nos proporcionou inúmeras maravilhas literárias.

Uma vez mais, este autor chama a calma, a leveza do ser, até para tratar dos problemas mais complexos.

Uma leitura recomendada para aqueles que se sentem inundados por tanta informação, sobretudo informação sem relevância em sua própria vida.

Talvez sejam poucos, mas que estes encontrem calma e mais diversão, e que sua vida tenha algo de privado, que sua pessoa não tenha perdido por completo sua essência diante de tanta insistência de contemplar o ego dos demais.

Guarde para você algumas coisas; talvez quando essa relação cara a cara que você tanto espera chegar, ela já não terá magia nem mistério, pois você já ofereceu tudo aos demais e ficou sem nada para compartilhar de verdade. Aprenda a ser para você, e não para mostrar aos outros.