Sincronia interpessoal: com um abraço seu a dor desaparece e a vida recomeça

· julho 21, 2017

Um abraço é uma dança de conexões fascinante. É o laço dos amantes que fundem suas peles para acariciar o coração, é o refúgio de dois amigos que reafirmam sua cumplicidade e também é o lar da criança que precisa crescer em companhia e segurança. Colado, muito colado ao peito da mãe, ao pescoço do pai, onde dorme e sonha, unido, muito unido, a essas pessoas que são suas raízes.

Os terapeutas afirmam que poucas coisas dizem mais sobre nós mesmos do que o modo como nos abraçamos. Há abraços rápidos, abraços eternos e abraços desajeitados, aqueles em que nenhum dos dois sabe muito bem onde colocar as mãos, onde apoiar a bochecha.

São tantas as emoções que emanam desses corpos relaxados ou tensos, dessas costas rígidas ou curvadas, onde cada movimento, cada gesto e cada postura permite ler o nível de timidez de algum dos protagonistas; assim como a insegurança, a intimidação ou o nível de paixão.

“Estar com você ou não estar é a medida do meu tempo.”
-Borges-

No entanto, tanto se somos verdadeiros doutores na arte dos abraços como se costumamos evitar esses momentos com o mesmo desconforto de Sherlock Holmes nas histórias de Arthur Conan Doyle, há um dado que sem dúvidas se mostra muito interessante. Uma pesquisa publicada na revista “Neuroscience News” demonstrou como um simples abraço e essa mágica proximidade por parte de alguém que significa tanto pode reduzir, por exemplo, o impacto da dor.

Os responsáveis por esse trabalho, a doutora Simone Shamay-Tsoory e o professor Irit Weissman-Fogel, o denominam “sincronia interpessoal”, um termo apaixonante que convém guardar na nossa memória porque vamos ouvir e ler muitas coisas relacionadas a esse tema nos próximos anos.

Leoa abraçando seu filhote

Basta um abraço para nos sincronizarmos com as pessoas que amamos

Às vezes nos esquecemos, mas a pele é o maior “órgão” do nosso corpo. É um tecido fascinante. Essas três camadas de células que constituem a epiderme, a derme e a hipoderme atuam como barreira protetora, elas se regeneram todo mês e enviam a cada instante centenas, milhares de informações ao nosso cérebro.

Além disso, como curiosidade, cabe destacar aqui que a ponta dos nossos dedos, a planta dos pés e nossos lábios foram projetados para absorver informações mais refinadas, mais delicadas e mais sensíveis do ambiente à nossa volta.

Dizer, portanto, que um abraço é uma verdadeira união de sentidos entre os seres humanos não é nenhum exagero, porque nesse gesto social e afetivo tão comum entre as pessoas, existe na realidade um significado muito mais profundo do que imaginamos.

Não apenas recolhemos e oferecemos uma informação específica. Eu abraço você e você me abraça para demonstrar carinho, segurança, confiança, amor ou amizade. Além disso, assim como nos foi mostrado na Universidade de Haifa, em Israel, os abraços ativam o funcionamento do que hoje conhecemos com sincronia interpessoal.

Para entender melhor esse interessante conceito, devemos observar com um microscópio de potência ilimitada e deixar de lado tudo o que nos foi explicado até hoje sobre o que é a comunicação. Porque um abraço na verdade é muito mais que linguagem não verbal: é um ato de conexão e de sincronia.

Quando falamos sobre proximidade e amor entre as pessoas, existe uma esfera que nos transcende, um tecido de partículas invisíveis que nos conectam, que nos envolvem até constituir um verdadeiro cordão umbilical para nos reafirmar com nosso grupo social…para cuidar de nós mesmos.

Casal abraçado

Assim, o que as pesquisas desse grupos de cientistas demonstraram, após estudar 22 casais ao longo de 32 anos, é que todas as vezes que se abraçavam, os ritmos cardíacos e respiratórios se sincronizavam, assim como as ondas cerebrais das duas pessoas envolvidas nesse ato. Entramos, por assim dizer, em uma mesma frequência, em um estado de calma, no qual o emocional regula o biológico, no qual a sincronização fisiológica consegue diminuir a dor física, o sofrimento, o estresse, o medo, o cansaço…

“Quanto mais empatia houver entre o casal, mais forte vai ser o efeito analgésico em caso de dor. Quanto maior for a intimidade entre os dois membros dessa relação, mais intensa vai ser a sincronização fisiológica dos dois.”

-Pavel Goldstein, pesquisador da dor na laboratório de Neurociência Cognitiva e Afetiva na Universidade de Boulde, Colorado-

Eu cuido de você, você cuida de mim

A sincronia interpessoal não aparece apenas no seio do relacionamento de um casal. Quando um bebê chega ao mundo, por exemplo, seu cérebro ainda não está completamente amadurecido. Os nove meses na barriga da mãe não são suficientes para se desenvolver completamente, apenas para interagir com o meio que o rodeia. É então quando deve ser colocado em prática o que se conhece como exterogestação, uma segunda gestação fora do útero que se desenvolve sobre a pele dos pais, nesse refúgio perfeito que são os braços dos progenitores, dos cuidadores.

“A sabedoria popular diz que cada vez que abraçamos de verdade alguém, ganhamos mais um dia de vida.”
-Paulo Coelho-

É exatamente nesse momento que acontece outro tipo de conexão biológica fascinante: a sincronia térmica. Quando um bebê sente frio, a temperatura do peito da mamãe pode subir até dois graus; se o bebê sente calor, ocorre o oposto. O contato direto com a pele da mãe contribui, portanto, para a criação desse refúgio onde é possível sincronizar várias necessidades biológicas, onde dissolver os medos, oferecer calor e favorecer o amadurecimento cerebral da criança.

Mãe abraçando seu filho

Para concluir, algo que devemos ter sempre em mente é que o contato físico, sejam carinhos ou abraços, contribui para a nossa sobrevivência, para o nosso bem-estar. A sincronia interpessoal nos ensina que essa proximidade pele com pele nos coloca em uma mesma frequência física, emocional e até energética, momento em que podemos enviar um poder verdadeiro e fascinante do qual frequentemente nos descuidamos. Nesse momento, o amor e o carinho reduzem o sofrimento, o frio, o estresse, as preocupações, as dúvidas… e até a dor.