Síndrome de Calimero: reclamar como uma forma de ser e se relacionar

09 Julho, 2020
A síndrome de Calimero se refere às pessoas que não param de reclamar de tudo de ruim que está acontecendo em suas vidas. No entanto, por trás da maioria delas, há uma dor mais profunda.
 

O que é a síndrome de Calimero? Todos nós conhecemos pessoas que não apenas expressam suas reclamações, mas vivem imersas nelas. Nada lhes parece certo e tudo as incomoda. Certamente, depois de ler essas linhas, você terá alguém em mente.

O psicanalista Saverio Tomasella fala sobre isso em seu livro A Síndrome de Calimero. Nele, ele se refere àqueles pintinhos mal-humorados com a metade da casca do seu ovo quebrada na cabeça. Embora ele use uma pincelada cômica em suas explicações, o seu conteúdo é real.

Para o autor, o motivo de todas as reclamações está enquadrado em um contexto. Uma situação socioeconômica muito difícil, juntamente com uma história de vida muito dura, é o gatilho para tantas reclamações. De fato, ele afirma que por trás delas geralmente há um sofrimento real, uma queixa emocional que tem sido negligenciada repetidamente.

Agora, embora esse costume ser o motivo, o convívio com essas pessoas pode ser muito difícil para os demais. A sua tendência em ver o lado ruim de tudo envolve um pessimismo irredutível.

No entanto, também existem pessoas cujas reclamações são enquadradas dentro de uma constante necessidade de atenção que pode ser difícil de lidar.

Mulher irritada
 

A síndrome de Calimero

A síndrome de Calimero é um fenômeno contemporâneo em uma sociedade à beira da implosão. Segundo Tomasella, “as injustiças são cada vez mais evidentes. Há um paralelo a ser feito com o mundo que precedeu a Revolução de 1789”.

Os privilégios concedidos a alguns e os abusos cometidos são numerosos. Assim, essa rigidez na sociedade faz com que muitas pessoas se sintam injustiçadas e tenham a necessidade de reclamar.

Queixas que escondem algo pior

Na maioria das vezes, aqueles que se queixam muito experimentaram verdadeiras injustiças e temem ser vítimas novamente. Por exemplo, alguns “calimeros” podem ter sofrido uma profunda vergonha, humilhação, rejeição e abandono.

Um trauma grave de genealogia (problemas de herança, ruína, exílio, migrações econômicas) também pode marcar uma criança, que estará no papel de porta-voz e reclamará significativamente no lugar de sua família. Portanto, as queixas geralmente cobrem questões muito mais profundas do que pensamos.

Obviamente, em vez de falar de uma preocupação muito íntima, a queixa é direcionada a questões superficiais, como atrasos nos trens ou um café muito quente. Dessa maneira, uma expressão oculta de dor ou vergonha está relacionada a algo benigno e cotidiano que pode ser expresso de forma livre e pública, sem consequências sociais ou emocionais.

No entanto, não deixam de ser reclamações que, quando repetidas diversas vezes, acabam com a paciência dos outros.

 

Quando a queixa se torna uma maneira de ser e de se relacionar

Se a queixa é pontual, pode ser positiva porque atrai a atenção. Pode ser uma maneira de mudar uma situação quando há um problema no trabalho, em um relacionamento, na família. No entanto, existem pessoas que sentem pena de si mesmas repetidamente.

Uma pessoa se torna um “calimero” quando faz das reclamações um monólogo e um esquema geral para se relacionar com os outros.

Na maioria dessas pessoas, há uma necessidade de ser ouvida para que os demais reconheçam o seu sofrimento. Em outras, existe uma forma de preguiça que consiste em deixar a situação se eternizar para continuar reclamando. E, finalmente, há uma minoria que simplesmente busca atrair atenção.

É melhor não zombar da queixa

Uma criança, um adolescente ou até mesmo um adulto que não tenha sido ouvido quando sofreu uma injustiça certamente iniciará um processo de repetição da sua queixa. O que acontece é que, quando a dor e a queixa são ridicularizadas, ocorre uma nova injustiça.

Se você zombar de uma pessoa que expressa o seu sofrimento, corre o risco de reforçar a sua propensão de reclamar.

As queixas como exaustão e um pedido de ajuda

Há quem se queixe o tempo todo para ser a estrela e se encontre em uma constante teatralização. É uma maneira de dominar os outros e a situação. Eles também podem ser chamados de “calimeros”, mas na realidade, a sua casca não está quebrada. Portanto, precisamos ser inteligentes para detectá-los.

 

No entanto, na maioria das pessoas que reclamam muito há algo que está verdadeiramente quebrado e destruído. Elas também não sabem como seguir em frente ou como se reconstruir. Por esse motivo, devemos ser pacientes com elas, porque na realidade elas não querem nos prejudicar, embora possam nos cansar.

Essa atitude geralmente resulta de uma lesão na infância que não foi percebida pela família. Basicamente, essas pessoas não dizem “cuide de mim”, mas “me escute”. Presas em suas queixas, elas precisam ser ouvidas para mostrar o quanto estão sofrendo.

Filho sendo consolado pelo pai

Síndrome de Calimero: existe uma solução para as reclamações

A empatia é necessária porque muitos sofreram uma injustiça real e objetiva. Assim, se a pessoa se sentir respeitada e ouvida, poderá seguir em frente.

Para aqueles que não querem explorar o seu passado e mergulhar na história da família, podem começar fazendo atividade física regular ou meditação, o que os ajudará a reduzir a tensão. Assim, pouco a pouco, poderão se preparar para um trabalho terapêutico.

É possível transformar as queixas em uma expressão emocional, bem como alterar contingências que as reforcem e impeçam os afetados de avançar. Portanto, é preciso ouvir a história por trás da reclamação, aprofundar-se e ir além.