A síndrome da mamãe galinha

· maio 14, 2016

A maioria das mães quer o melhor para os seus filhos. Apenas em casos excepcionais, que geralmente estão atrelados a graves patologias, isso não se aplica. O problema é que muitas mães confundem o que é o melhor para os seus filhos com as suas próprias necessidades.

É muito frequente que as mães sintam-se invadidas de medo pelo destino dos seus filhos. Como não ter medo num mundo onde há perigos, que vão desde uma queda e seu respectivo machucado, até situações impensáveis como sequestro, ou a morte por algum vírus recém descoberto?

O problema em si não é o medo, mas sim a estratégia para enfrentá-lo. Uma mãe medrosa pode transformar seus medos em uma prudência razoável, mas também pode sucumbir a eles e converter-se em uma “mamãe galinha”.

A “mamãe galinha”

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Na forma coloquial, “mamãe galinha” refere-se a todas as mães que querem manter suas “crias” debaixo das suas asas, “enroladinhos”, como se diz numa canção infantil. Buscam estender um manto protetor que os isolem de todos os riscos e perigos que podem ocorrer no mundo.

Sua intenção consciente é perfeitamente compreensível: o que querem evitar é que suas crianças passem por experiências desagradáveis ou até traumáticas. Não querem vê-las expostas a situações duras, que podem até afetá-las física e emocionalmente.

Essas mães sentem que seus filhos são seres extremamente frágeis. Claro que, em grande parte, toda criança é, por ainda não terem atingido seu desenvolvimento físico e psicológico por completo e são, portanto, vulneráveis a vários riscos. A “mamãe galinha” quer garantir que nenhum desses riscos alcance seus filhos.

Uma das técnicas que essas mães utilizam é advertir constantemente seus filhos dos perigos do mundo. “Se chegar perto da fogão você pode se queimar”. “Cuidado ao jogar bola, você pode cair e quebrar um osso”. “Não saia na rua, pois tem gente que rouba crianças”.

Assim, ainda que sua intenção seja muito boa, eventualmente elas terminam elaborando um catálogo de terror para seus filhos. Os ensinam a andar pelo mundo em função do medo. Bom, isso de “andar pelo mundo” é um ditado, porque em última análise, elas os influenciam a não se moverem, já que toda situação envolve um risco.

Quando as crianças vão crescendo e reivindicando espaços cada vez mais amplos para atuar no mundo, as “mamães galinha” tornam-se controladoras e acusadoras. Estabelecem mecanismos para ter os filhos sob sua vigilância permanente e veem suas tentativas de autonomia como uma agressão dirigida a elas.

Os filhos da “mamãe galinha”

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A “mamãe galinha” acredita que o que deseja é a felicidade dos seus filhos. Elas têm um conceito de “felicidade” que é a ausência de contratempos. Pensam que se conseguirem levar seus filhos até a idade adulta sem que eles tenham conhecido o sofrimento, terão feito um grande papel.

O contraditório desse assunto é que os filhos desse tipo de mãe ao final acabam vivendo exatamente o oposto. Sofrem um excesso de tensão emocional derivada da ansiedade que suas mães sentem, que estão alertando o tempo todo, imaginando as piores situações e, portanto, enchendo-os de medo.

Por isso não conseguem aproveitar quase nada. Quando são muito pequenos não querem contrariar sua mãe e por isso acabam convertendo suas advertências em mandatos que devem ser seguidos ao pé da letra. Se a relação não é boa ou as demandas maternas chegam a ser excessivas, ocorre justamente o contrário, o filho desafia constantemente os perigos como uma maneira de pedir a sua independência.

Tanto a criança mais passiva por obediência, quanto a mais inquieta por desafios, terminam atraindo novos problemas. Dá trabalho confiar neles mesmos e no mundo. Não conseguem se adaptar criativamente às situações de dificuldade e desenvolvem sua exploração do mundo com fortes sentimentos de inquietação. É muito frequente que essas crianças se convertam em adolescentes difíceis com o passar dos anos.

Assim, escreve-se uma história na qual ninguém sai ganhando. Tanto a mãe quanto o filho vão desenvolver um padrão de relacionamento que se alterna entre a extrema independência e episódios de ruptura abrupta. A culpa estará no centro de tudo e nenhum dos envolvidos terá paz.

As “mamães galinha” também se chamam “galinha” por seu apego obstinado ao medo. Subestimam as capacidades dos seus filhos e projetam neles seu próprio sentimento de impotência. Não entendem que cada ser humano tem uma vida própria e que essa vida inclui dificuldades, problemas e situações de risco e de perigo que todos nós devemos aprender a lidar.

De fato, o que nos torna adultos é ter aprendido a superar dificuldades, erros e problemas. Isso é o que nos dá confiança no que somos e no que podemos fazer. Essa é a diferença entre um adulto “pintinho” e um adulto saudável e forte.

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Imagens cortesia de Emma Bloco.