Quando a solidão é um cerco que você não consegue romper

· agosto 18, 2017

Cada um tem a sua própria opinião sobre a solidão, uma opinião que também pode variar em função do momento em que a consulta for realizada. Há quem a exalte e admita que é uma realidade que cedo ou tarde, e em diferentes circunstâncias, todos teremos que enfrentar. Outros a temem e fazem o que for necessário para evitá-la. Muitos também aprendem a balancear: não se sentem mal quando estão sozinhos, mas sabem acompanhar e se deixar acompanhar.

Este artigo é dedicado às pessoas que se sentem invariavelmente sozinhas e sofrem por isso. Trata desses casos em que a solidão se transformou em uma autentica prisão, por mais invisível que esta seja aos olhos dos outros. A vida as levou a um ponto em que não há amigos, não existe família, somente vínculos funcionais e ocasionais. Contudo, se você está nesta situação é provável que não saiba o que fazer para encontrar pessoas com as quais se sinta cúmplice e nas quais você possa confiar.

“Preste atenção: um coração solitário não é um coração.”
-Antonio Machado-

Infelizmente o caso que descrevemos não é excepcional. Ao contrário, existe uma verdadeira epidemia de solidão percorrendo o mundo. E ela tende a avançar. Tanto defenderam o individualismo que no fim das contas construímos uma realidade onde o isolamento pessoal é cada vez mais comum. São milhões e milhões de pessoas no mundo que se sentem cronicamente sozinhas. É uma condição que não respeita idade, nacionalidade ou condição social.

A solidão crônica, uma dor surda

Não se sabe exatamente em que momento começou a se firmar a ideia de que a “independência” absoluta é um bem desejável. Repetem constantemente que não devemos depender de ninguém. Melhor é se você conseguir resolver sozinho qualquer dificuldade que você tiver. O ideal é você viver sozinho, cultivar sua própria horta, ter seu próprio negócio e não precisar de ninguém. De fato, muita intimidade ou proximidade começaram a ser vistas como ameaças, sendo confundidas com a dependência. Vamos fugir desta palavra, da nossa natureza, porque no fundo, de alguma forma, todos somos dependentes.

Solidão

O resultado é este mundo que temos hoje, no qual a companhia começou a ser vendida. Existem vários sites em diferentes países que oferecem serviços de acompanhamento, não apenas sexual, mas também pessoal. Hoje em dia é possível alugar os serviços de alguém que venha conversar um pouco, ou que vá junto com você ao cinema. Se a oferta existe, é porque há demanda. E se existe demanda é porque há uma carência que antes se combatia de forma natural.

Os efeitos da solidão nem sempre são tão perceptíveis. Ela deixa uma pegada na mente e no corpo, mas as vezes essa marca não aparece imediatamente. Um desses efeitos, bastante perigoso, é a mudança que vai acontecendo no cérebro. Quando a gente fica muito tempo sozinho, sem perceber, começa a ver o rosto das pessoas como uma ameaça.

Isto é realmente uma tragédia. Significa que quanto mais sozinho você estiver, mais sozinho se sentirá. E não é porque você esteja escolhendo assim, mas porque a sua própria fisiologia e anatomia vão sendo alteradas. É aí que o cerco se fecha. É então quando a gente começa a correr o risco de adoecer física e/ ou mentalmente.

Quebrar o cerco da solidão

Como podemos perceber, a gravidade é que quem está sozinho e permanece assim por um bom tempo depois encontra resistências internas para sair da sua solidão. Não são razões no sentido estrito da palavra, mas sim pretextos. “Não tem ninguém que valha a pena”, dizem. Ou “No fim das contas, todos morremos sozinhos”, adicionam. Mas não falam desses momentos onde o temor os invade, ou onde a tristeza ganha a batalha. De alguma forma, se resignaram ao que aceitaram mas não tentaram mudar.

Como lidar com a solidão

A solidão crônica adoece. Existem muitas pesquisas que comprovam isso. Sabe-se que o sistema imunológico fica inflamado e ressentido. Existe uma correlação clara entre solidão e morte precoce. Em geral, as pessoas sozinhas adoecem mais e são mais frágeis.

A solidão não se supera com mais contatos nas redes sociais. Inclusive, muitas pessoas não vivem sozinhas, mas se sentem sozinhas. O aspecto mais relevante aqui não é tanto a quantidade de pessoas com as quais você tem contato, mas a qualidade dos vínculos que você estabelece. Aprender a ser um bom amigo e a fazer bons amigos é um gesto de sobrevivência e de amor próprio. Todo relacionamento humano precisa ter uma amizade sincera, mesmo que proporcionalmente seja mais elevado em alguns relacionamentos do que em outros.

O ser humano é um animal social. A solidão crônica vai contra a natureza e não é fruto nem da necessidade, nem do desejo genuíno. Se você se sente sozinho, se não consegue criar laços com os outros, alguma coisa está falhando. O problema pode estar na forma como você foi educado, ou em alguma dificuldade subjetiva que você não conseguiu resolver. Talvez simplesmente se deva a que você não desenvolveu habilidades sociais e não sabe por onde começar. Seja qual for o caso, o fato é: se a sua solidão é crônica, você precisa ajuda. Procure-a, não há vergonha nisso.

Solidão