Eu sou apenas eu quando estou sozinho

· novembro 16, 2016

Miguel Hernández escreveu em um dos seus sonetos mais famosos, intitulado “Para cuando me vez tengo compuesto”, uma das suas frases mais conhecidas: “Eu sou apenas eu quando estou sozinho”. Não poderia vir de outra mente uma frase tão simples e fascinante ao mesmo tempo, senão da de um escritor ávido por transmitir a melancolia e a beleza da solidão que o embriagava.

As coisas simples, mas melancólicas, costumam repor o espírito do mais cético, do que já se cansou de tudo e de todos. Eu encontrei nesta frase uma das maiores verdades que já li e que experimentaria sempre. Creio que Miguel Hernández se referia em seu soneto à sensação de ser melhor com a companhia do seu amor e de se sentir ele próprio, mas uma versão pior, quando estava sozinho.

Seja como for, deixar que os leitores tenham liberdade para interpretar um poema da forma que mais lhes reconforte é um dos maiores prazeres de um escritor. Embora seja uma frase breve e com palavras curtas, esboça uma ideia com vários objetivos. O prazer íntimo, inigualável e autêntico que muitas pessoas encontram quando estão sozinhas.

Sou solitário, não estou sozinho

As pessoas que aproveitam a sua solidão costumam ser generosas com as pessoas que as rodeiam. Elas sabem que a companhia não implica mandatos nem exigências. As pessoas que usufruem da solidão costumam pedir menos explicações, mas também são mais exigentes com suas companhias. Da mesma forma que não pedem o que sabem que não podem exigir, elas sugerem que os outros façam esse trabalho pessoal que se reflete igualmente nas suas demandas.

Nunca existe uma solidão não escolhida, só existem solidões necessárias quando as companhias já não compensam. Não há sensação pior do que se sentir sozinho quando se está rodeado de pessoas. Você verte parte do seu conteúdo de forma forçada, e depois só sobra um mal-estar residual, pegajoso e incômodo.

Eu sempre preferi estar sozinho do que me sentir sozinho estando rodeado de pessoas. As pessoas dizem, comentam e eu concordo com essa ideia. Me parece uma sensação extremamente desagradável. Sou daqueles que pensam que a cada dia novo contamos com uma bateria limitada de energia, se não soubermos gastá-la com quem merece, acabaremos por não conseguir fazer nada quando realmente quisermos ou precisarmos.

Por isso digo que sou sozinho, não que estou sozinho. Sou sozinho de muitas maneiras, mas não estou sozinho de nenhuma delas. Estou rodeado da minha presença e companhia, e este sentimento não me parece censurável.

Me parece inacreditável encontrar sequer uma única pessoa entre milhões com a qual compartilhar o reflexo que talvez, por vezes, a minha solidão tenha distorcido. Adoro me rodear de pessoas que não me fazem estar sozinho, porque com elas sou sozinho, autêntico, acompanhado e enriquecido.

Eu sou sozinho quando estou sozinho, mesmo que não me suporte nem na minha solidão

Às vezes me levanto de mau humor ou estou triste, como o resto dos mortais. Normalmente nos dizem que devemos buscar companhia como a primeira opção antes de viver o tédio ou a tristeza com nós mesmos. Em muitas ocasiões eu segui este conselho que me recomendaram, mas acabou sendo pouco satisfatório.

Acredito que ninguém deveria se sentir culpado por querer ficar sozinho quando está triste. Há muita gente triste pagando pelos erros dos outros, por acreditar que estão melhores se estiverem acompanhados, fugindo da “terrível” solidão.

Para eles dá na mesma atacar, gritar, agredir, insultar ou mentir. Eles acreditam que a vida e as relações consistem nisso, que é o “sal” da vida. Em troca, outras pessoas preferem ser mais sem sal, mas mais “temperados” no tratamento, quando apropriado.

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Não se deve confundir o sentimento de desfrutar o máximo da sua solidão com evitar o contato com os outros. Não somos nem esquizoides, nem paranoicos, nem insociáveis. Simplesmente assumimos o que a vida sempre nos repetiu, captamos a mensagem: preferimos uma companhia que nos faça sentir ainda mais felizes, mas não precisamos dela para estarmos felizes.

Somos o que muita gente considera raro, exigente ou infantil. Continuamos reagindo com inocência diante das contradições do mundo e não gostamos de ser os primeiros a fazer tudo o que supostamente se deve fazer nesta vida. Não vamos atrás, vamos observando, para quando chegar a nossa vez fazermos tudo certo, sem imposições. Sem a necessidade de se sentir atado ou vigiado.

Eu não sou mais eu quando estou sozinho, porque ninguém me entende como eu me entendo, e ninguém gosta tanto de mim como eu mesmo. Eu, sozinho, não me sinto a pior versão de mim mesmo, mas às vezes só eu entendo as minhas penas. Quando, na minha solidão, me encontro com alguém, não peço que as suporte. Esse é o delicioso prazer de poder estar sozinho, ser sozinho e escolher estar sozinho quando quiser.