Spotlight: o valor do jornalismo

abril 12, 2019
Spotlight é um filme que nos recorda o cinema de verdade. O importante é a história, e são os atores que, servis a ela, acabam brilhando e dando vida ao longa.

Aqui há uma história, e todo mundo vai descobrir. Os tapetes que há muito tempo não são levantados se transformam em grandes depósitos de pó. Spotlight é um filme fantástico porque, em sua forma de narrar, mantém seu compromisso com o cinema, mas também com a profissão que retrata, o jornalismo, e com os fatos aos quais dá vida nas telonas.

O tapete que sacode a redação do Boston Globe é daqueles que, com suas cores brilhantes, parecem imaculados. Falamos da Igreja como instituição. Uma Igreja com enorme influência na comunidade (Massachussets, Boston, 2002) na qual os fatos se desenvolvem. É um elemento condutor da comunidade, com um papel tão importante no social que muitos pensam que é melhor desviar o olhar quando, sob seu controle, se cometem delitos, incluindo abusos sexuais de crianças.

“Uma imprensa livre mantém controladas as instituições poderosas”.
-Spotlight-

Reconhecido pela crítica

É complicado destacar o melhor de Spotlight, um filme que funciona tão bem como conjunto. Os atores estão à altura, o roteiro é limpo, os planos bem cortados e as cenas se sucedem com fluidez, sem que existam no meio histórias secundárias que ofusquem o fio condutor. O filme é sincero com o espectador desde o primeiro momento e mantém esse compromisso até o final.

Spotlight recebeu o Oscar de melhor filme de 2015, ganhando de longas tão poderosos quanto O Regresso, Ponte dos Espiões e o impactante O Quarto de Jack. Também foi reconhecido por seu roteiro, vencendo obras tão originais quanto Divertida Mente. Prêmios que não dizem tudo, mas que nos mostram que estamos diante de um filme que merece uma chance.

“Se você é uma criança pobre, de uma família pobre, e um padre presta atenção em você, você se sente muito especial. Como dizer não a Deus?”.
-Spotlight-

O ponto de partida

Uma equipe de investigação tem liberdade para trabalhar dentro da estrutura do prestigioso The Boston Globe. Essa equipe é composta por um diretor (Michael Keaton) liderando Mark Ruffalo, Rachel McAdams e Brian d’Arcy James. Também estão envolvidos um assistente de editor (John Slattery dando vida a Ben Bradlee Jr.) e um novo editor (Liev Schreiber interpretando Marty Baron).

Será exatamente o recém-chegado Baron quem vai dirigir a atenção do grupo aos abusos sexuais que estão ocorrendo na Igreja com o conhecimento de religiosos que ocupam postos elevados na hierarquia. A partir daí, as câmeras se voltam àquelas pessoas que poderiam ter feito alguma coisa mas não fizeram, que se mantiveram em silêncio ou contribuíram para que nada mudasse.

Numa perspectiva psicológica, um detalhe chama a atenção. O filme é um exemplo de como, em muitas ocasiões, é um elemento externo que acende o pavio para que tudo mude. Por exemplo, nas situações de abuso, esse elemento costuma ser uma experiência próxima. No caso do filme, a mudança chega com o novo editor: uma pessoa que cresceu longe dos postos de comando que a Igreja tem nessa comunidade.

Cena do filme Spotlight

Spotlight, um filme que mudou o curso da história

“Diferentemente do que ocorre na Espanha, no caso Spotlight nos Estados Unidos os bispos reúnem e publicam as informações. De fato, o relatório Pensilvânia contou com a colaboração das seis dioceses envolvidas”.
-eldiario.es-

Se buscarmos um número, descobriremos que no mundo todo são quase 100.000 as vítimas reconhecidas de pedofilia clerical. Isso sem levar em consideração todos os casos nos quais existe uma dúvida razoável ou aqueles que nem sequer foram revelados. O mais difícil disso tudo talvez seja o silêncio, a cumplicidade e a permissividade que ocorrem em muitos casos: o medo da própria Igreja de prestar contas de seus próprios pecados, de se reconhecer como humana quando a maior parte da sociedade já a reconhece como tal.

Já avançamos muito, talvez tenhamos perfurado a camada mais grossa, mas ainda há muitos casos a se descobrir. E não por revanchismo ou falta de fé. O objetivo é que esses casos não voltem a se repetir, que as vítimas se sintam respaldadas e apoiadas em relação ao agressor, que nenhuma instituição pense que pode ganhar mais escondendo ou encobrindo do que denunciando o que está errado e favorecendo a aplicação da lei.