Por que é tão difícil definir o amor?

junho 6, 2020
Quantas vezes tentamos definir o amor e quantas são as oportunidades nas quais a definição carece de "sustância"! Marcelo Ceberio, doutor em psicologia, fala sobre o amor a seguir.

O amor, como conceito abstrato, é muito difícil de definir: poetas, psicólogos e até neurocientistas tentaram colocar um selo distintivo e assertivo na sua definição, mas sempre fica a sensação de que não é possível definir o termo em sua totalidade.

A verdade é que o amor pode ser definido através da ação, o que mostra que o amor possui uma definição absolutamente subjetiva. Vamos nos aprofundar neste tema a seguir.

O amor no outono

Definir o amor, as famílias e os casais

A família pode ser considerada a célula nuclear da sociedade e uma matriz de trocas na qual são estabelecidas crenças centrais, estruturas de significados, funções, identidade, etc. Assim, se constitui como um dos pilares principais da vida psíquica das pessoas.

A posteriori, no processo de individualização – do somos ao ser individual – todo este conjunto de conceitualizações, algumas delas traduzidas em mandatos de origem, ficam em cada um de seus membros, que irão reproduzi-las – por oposição ou adesão – em outros grupos, relacionamentos ou famílias.

Por outro lado, no casal, a família será sempre a matriz e o padrão de referência para cada um de seus integrantes. São eles que provêm de um sentimento de identidade independente que está mediado pelo sentimento de pertencimento.

A partir desta perspectiva, um casal pode ser definido como um sistema formado por duas pessoas, vindas de dois sistemas que foram formados, por sua vez, por quatro sistemas que, por sua vez, foram constituídos por oito sistemas, e assim em uma progressão geométrica ad infinitum.

Assim, um casal pode ser definido como duas pessoas de sexo igual ou diferente procedentes de duas famílias de origem que instauram um vínculo com projeto e objetivos comuns de se desenvolverem em equipe e oferecer o apoio e a motivação necessários em um espaço próprio que exclui os outros.

Além disso, seus membros se relacionam com o entorno como casal e conservam, por sua vez, os espaços individuais de relação consigo mesmos e de relação social.

Um casal é interdependente: uma fração é compartilhada e dependente e outra fração cuida dos espaços de autonomia.

A consolidação do casal

Esta descrição define claramente as fronteiras da consolidação de um casal, às quais caberia agregar que ambos os cônjuges são portadores de pautas, normas, culturas, funções, códigos, mandatos, valores, crenças, significados, rituais, estilos de processar emoções e informações, etc.

É isso que cada um dos integrantes traz em sua bagagem, e que está disposto, com maior ou menor resistência, a trocar e negociar.

Da sinergia de todos estes componentes que cada um traz para a relação, surgirá um casal. Ou seja, da mesma maneira que no processo de individualização familiar passamos do somos ao ser, na construção do casal vamos do ser ao somos.

O que cada um traz para a relação (propriedades e atributos) forma um casal com identidade própria: a identidade de casal.

Embora um integrante possa ter algumas de suas propriedades em comum com seu companheiro, em geral existe uma complementariedade: “você tem o que eu não tenho, eu tenho o que você não tem”. É nesta matriz emocional que se encontra a essência do vínculo.

No entanto, estas mesmas diferenças podem ser categorizadas como antagonismos e fontes de reclamações entre os parceiros com o passar do tempo. Alguém pode, por exemplo, exigir características que nunca estiveram presentes.

Trata-se de um fenômeno procedente dos crescimentos individuais e do casal, um movimento negativo que leva a discussões e que pode dar vez a desqualificações, agressões e diferentes tipos de defesas nas quais um dos cônjuges é desacreditado pelo outro. No entanto, onde está o amor em tudo isso?

Casal brigado

Apaixonar-se

Uma das características distintivas dos casais humanos em relação a outros “casais” de animais é o amor. Muitos autores tentaram definir o amor. Românticos, poetas, cientistas, artistas, terapeutas mergulharam nesta tarefa, usando seus modelos para chegar a diferentes descrições.

É verdade que, assim como a maioria dos termos abstratos, o amor é muito difícil de explicar, e ainda mais quando apelamos a recursos racionais ou que competem à lógica.

Tentar traduzir o amor com significações racionais e tratá-lo de forma totalmente lógica pode nos mergulhar em complicações. O biólogo Humberto Maturana destaca que “o amor não tem fundamento racional, não se baseia em um cálculo de vantagens e benefícios, não é bom, não é uma virtude, nem um dom divino, é simplesmente o domínio dos comportamentos que constituem o outro como um legítimo outro em convivência com um”.

O amor é um sentimento que emerge poderoso das entranhas do sistema límbico. Não passa pelo hemisfério esquerdo, racional e lógico, embora muitos tentem avaliar quais foram as características, particularidades ou atitudes pelas quais uma pessoa se apaixonou por outra.

É, então, que pensamos no amor, mas pensamos quando ele já se instaurou. Ou quando duvidamos dele. Quando não estamos convencidos de que o que sentimos é amor.

O parceiro apaixonado sente e transforma esse sentir em ações consequentes e coerentes. E o amor é isso, um sentimento. Diferentemente da emoção, que é intempestiva, o sentimento envolve variáveis emocionais, cognitivas e pragmáticas e um fator fundamental: o tempo, que é o encarregado de exercer as três variáveis anteriores.

Embora, em algumas ocasiões, o amor se confunda com outras emoções, estar apaixonado não é estar preso, enlaçado, aprisionado ou enganchado. Estas são falsas concepções do amor, são sentimentos e emoções que confundem e que têm sua origem em vínculos psicopatológicos e disfuncionais.

No amor sempre há uma cota de paixão, mas a paixão não é obsessão. A paixão motiva, a obsessão esgota; a paixão promove paixão, a obsessão asfixia; a paixão entusiasma, a obsessão enlouquece; a paixão atrai e a obsessão provoca rejeição.

Basicamente, portanto, afirmamos que o amor não é uma palavra, e sim um ato. Ou seja, o amor não tem uma definição precisa, mas é definido no seio da pragmática por meio de ações envolvendo interações.

Um ser humano traduz em gestos, movimentos, ações, palavras ou frases – orais ou escritas – a necessidade de transmitir ao outro esse afeto profundo.

Uma transmissão que possui a secreta expectativa de reciprocidade amorosa, de complementariedade relacional, que desperta no protagonista o saber de que não está sozinho nessa empreitada (amar sem ser amado é uma das causas mais comuns do desespero).

Além disso, esta transmissão busca a crença de uma segurança. Uma segurança utópica, já que a busca pela segurança amorosa faz com que se descuide do presente do amor em prol de reafirmar o futuro hipotecando-o.

Esse descuido possui consequências lamentáveis quando o olhar preocupado se volta para mais adiante, e não para o agora e o durante.

Quem encanta quem

Quando duas pessoas se encontram e surge um desejo amoroso entre elas, a comunicação verbal se ativa. As palavras fluem em harmonia, embora às vezes o medo da rejeição bloqueie esse livre fluir. As frases se unem quase poeticamente. Até nos menos histriônicos, a sedução impregna as palavras.

Há uma certa cadência no discurso, uma certa tonalidade nas frases. Os gestos se modificam. A mímica é mais sutil e os movimentos ficam mais lentos. Os olhos quase se fecham, a boca se move de forma mais provocativa e os olhares retroalimentam todo esse jogo.

Trata-se de um complexo comunicacional que tenta cativar e seduzir o outro com a finalidade de gerar uma união amorosa.

A gênese de uma boa relação amorosa se encontra, entre outras coisas, em estar com o outro da mesma maneira e com a mesma liberdade de quando estamos com nós mesmos.

Casal apaixonado

Neurobiologicamente, quando duas pessoas se encontram, há fluidos endócrinos e bioquímicos que são secretados.

  • O estômago endurece e fica ansioso, o que aumenta o apetite e se traduz em voracidade. No entanto, em alguns casos ocorre o fenômeno contrário: o estômago se fecha e não deixa a passagem aberta para a ingestão de alimentos.
  • A liberação de adrenalina aumenta, colocando a pessoa em um modo de alerta hipervigilante.
  • Os músculos ficam tensos e a pessoa fica atenta às atitudes do outro, que serão significadas como sinais de atração ou aceitação, indiferença ou rejeição.

Todos estes são alertas que acompanham o desejo amoroso. Alertas que, se forem correspondidos, podem formar um casal.

O crescimento do vínculo, o conhecimento do outro em seus valores, gostos, virtudes e defeitos, gera uma complementariedade que permite um lento avanço rumo à formação de uma família, se este for o desejo do casal.

O estabelecimento da relação possibilita a redução dos níveis de romanticismo (tanto verbais, paraverbais, etc). Não porque o casal está menos apaixonado, mas porque está em uma outra etapa na qual há uma variação qualitativa.

No período romântico, os amantes estão preocupados em serem correspondidos no amor, portanto, fazem coisas que cativem o parceiro e sabem bem quais são os detalhes que seduzem o outro e tentam colocá-los em jogo.

É uma etapa na qual ambos trabalham para assegurar a relação, além das substâncias químicas e instintivas que acompanham o processo.

No entanto, o estabelecimento de uma relação não significa que não é preciso fazer mais nada, muito pelo contrário. Um relacionamento exige um trabalho relacional amoroso que é desenvolvido ao longo de toda a vida.

A vida cotidiana, a rotina, o trabalho, o exercício da parentalidade, os crescimentos evolutivos díspares, entre outros, são atentados contra a estabilidade da relação.

Portanto, o amor precisa ser trabalhado para continuar criando novas definições de amor, que levem a novas ações que gerem um crescimento não apenas do casal, mas do próprio amor.