O valor da temperança como chave para o bem-estar psicológico

A temperança é uma virtude humana fundamental. Ela nos permite ficar calmos e focados em dias tempestuosos. Envolve colocar os pensamentos, emoções e comportamentos a nosso favor em qualquer circunstância e contexto.
O valor da temperança como chave para o bem-estar psicológico
Valeria Sabater

Escrito e verificado por a psicóloga Valeria Sabater em 15 Novembro, 2021.

Última atualização: 15 Novembro, 2021

Existem virtudes e forças humanas que todos devemos desenvolver. A temperança, entendida como a capacidade de autocontrole e autorregulação de si mesmo diante dos acontecimentos da vida, é um ponto cardeal do bem-estar. É aquela bússola interna que nos guia para encontrar a calma no meio da tempestade, aquele pilar psicológico que nos permite administrar o estresse, o medo e a angústia.

São Tomás de Aquino dizia que a temperança é uma disposição da mente que detém os impulsos. Para Aristóteles, grande analista da alma, era o componente que deveria acompanhar a inteligência. Essa dimensão, às vezes esquecida pelo mundo da psicologia, mas amplamente explorada pela filosofia, contém ferramentas humanas valiosas que vale a pena promover.

Em tempos de constantes mudanças, incertezas e pressões, é bom ter essa amarração interna. Ficar calmo vai além de ser moderado ou conter certas reações. É, acima de tudo, uma perspectiva, uma abordagem do bem-estar tão interessante quanto válida.

“Não há diferença entre conhecimento e temperança; porque quem sabe o que é bom e o abraça, quem sabe o que é mau e o evita, é culto e temperante.”
-Sócrates-

Meditar para desenvolver a temperança

O que é a temperança psicológica?

A temperança é um campo de interesse muito recente na psicologia. Os primeiros a falar desta dimensão foram Martin Seligman e Christopher Peterson em 2004. Ela estava em seu clássico Manual de Virtudes e Forças de Caráter, onde eles a incluíram em um conjunto de seis virtudes.

Antes de mais nada, destaca-se a abordagem que Aristóteles trouxe ao associar esta dimensão à prudência, à justiça e à coragem, traços de caráter que compunham a demonstração inevitável da inteligência da pessoa. Da mesma forma, deve-se notar que os filósofos medievais viam a temperança como a genitrix virtutum (a mãe de todas as virtudes).

O significado deste termo é mais importante do que pensamos. Afinal, a pessoa temperante demonstra um talento irrefreável para lidar com a complexidade da vida. Isso é algo que todos nós gostaríamos de alcançar. É ser capaz de enfrentar as coisas com calma, mas mantendo a perspicácia. É controlar o impulso, mas sem perder a sensibilidade.

Sabendo de tudo isso, entendemos por que a psicologia exibe um interesse particular por esta área neste momento. Desenvolvê-la pode ser a chave para o nosso bem-estar diário. Vejamos alguns motivos.

A temperança como mediadora nos nossos relacionamentos

Há poucas semanas, a revista Frontiers in Psychology publicou uma pesquisa realizada por cinco universidades de grande prestígio internacional. O objetivo? Mostrar que o desenvolvimento da temperança nas pessoas deve ser mais uma área de intervenção psicológica.

Um de seus benefícios é sermos capazes de desenvolver melhores habilidades nos relacionamentos sociais e emocionais. A temperança é uma virtude humana composta por uma série de componentes específicos:

  • A capacidade de perdoar. A pessoa temperante é aquela que sabe apagar rancores por meio do perdão para seguir em frente de forma serena, livre de ódios, ressentimentos e estilhaços internos.
  • A humildade. Sim, a abordagem humilde é aquela que não usa truques para se relacionar. Segundo o autor deste estudo, Dr. Whortington, a humildade é aquele óleo que unta nossas relações sociais e as facilita. Ser humilde traz harmonia para todos os vínculos.

Se a temperança é mediadora nos nossos relacionamentos, isso também se deve ao exercício da paciência. Essa atitude de viver o aqui e agora, direcionando o olhar e o coração para o que é relevante em cada circunstância, é a chave do bem-estar.

Dominar a arte da paciência também nos permitiria amortecer o peso do estresse e a coceira do “Eu quero agora”, permitindo-nos fluir de forma mais recompensadora em nossos relacionamentos.

A mente temperante, a abordagem guiada pelo autocontrole

Por que o autocontrole é tão importante para o bem-estar psicológico? Por várias razões. A primeira e mais óbvia, para não nos arrependermos de tudo o que fazemos. A segunda, para vivermos em harmonia em nosso meio e em cada situação, adaptando-nos melhor a cada circunstância.

Vamos pensar sobre isso. A pessoa com uma temperança adequada é aquela que consegue regular suas emoções e impulsos para promover comportamentos mais eficazes. É capaz de disciplinar a mente para conquistar com sucesso qualquer objetivo proposto. Quem não gostaria de algo assim?

Mulher com uma luz na mente

Temperança, a melhor aliada da inteligência

Embora a temperança fizesse parte daquele manual de virtudes humanas definido por Seligman (expoente da psicologia positiva), essa dimensão também está integrada em outra abordagem: a Segunda Onda da psicologia positiva.

Trata-se de uma perspectiva iniciada pelos psicólogos Itai Ivtzan, Tim Lomas e Kate Hefferon que lança uma nova abordagem, uma nova visão para nos lembrar de algo óbvio. A vida tem partes muito obscuras, e nem sempre podemos fugir delas. Às vezes, somos obrigados a passar por túneis escuros e por caminhos sinuosos.

A temperança é uma ótima companheira naqueles dias sombrios. É a melhor aliada da inteligência porque lhe dá serenidade, perspetiva e calma. Mesura para decidir melhor. Clareza para ver bem as coisas. Luz para se guiar sem pressa. Autocontrole para controlar impulsos, emoções e frustrações.

Vamos começar hoje a desenvolvê-la para fazer da temperança a nossa melhor virtude.

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  • Bollinger, R. A. (2018). Reflections on and future directions in humility and forgiveness research. Res. Hum. Dev. 15, 88–93. doi: 10.1080/15427609.2017.1411745
  • Collins, D., McAnnally-Linz, R., and Rosa, R. C. (2020). The Joy of Humility: The Beginning and End of Virtues. United States: Baylor University Press.
  • Ivtzan, I., Lomas, T., Hefferon, K., and Worth, P. (2016). Second Wave Positive Psychology: Embracing the Dark Side of Life. United Kingdom: Routledge.
  • Worthington EL Jr and van Zyl LE (2021) The Future of Evidence-Based Temperance Interventions. Front. Psychol. 12:707598