Por que insistimos em tentativas fracassadas de solução?

28 Março, 2020
Quando estamos com um problema, tendemos a aplicar as mesmas soluções várias vezes, mesmo que os resultados não sejam eficazes. Por que fazemos isso? E o mais importante: como parar de agir assim?
 

Os problemas são uma das nossas maiores preocupações. Viver não é uma experiência simples e é atrapalhada pelas dificuldades naturais que surgem no dia a dia. Ainda mais quando as dificuldades se transformam em problemas. Hoje, falaremos especificamente sobre as tentativas fracassadas de solução nas quais insistimos para resolver esses problemas.

Os problemas estagnam e bloqueiam a evolução, além de impedir o crescimento, principalmente quando não são resolvidos. As pessoas acabam convivendo com o problema, e toda a sua ecologia gira ao redor do despotismo que ele exerce.

A transformação da dificuldade em problema e sua perpetuação é o resultado das tentativas fracassadas de solução. A isso, é preciso somar o agravante de que essas tentativas – em si mesmas – também se tornaram um problema. Isso porque quanto mais se tenta resolver, mais do mesmo resultado se obtém e mais o problema original se instaura no sistema.

As tentativas de solução são uma série de ações e interações direcionadas a resolver a dificuldade. Essas ações são os mecanismos típicos aos quais a pessoa recorre quando está diante de um obstáculo.

Em geral, nós, os seres humanos, não exploramos nossa criatividade a serviço das tentativas de solução. Nossos marcos conceituais regidos pela lógica racional (e são muitas as oportunidades em que a lógica resulta ineficaz) abarcam um repertório muito limitado que não favorece a variação em termos qualitativos.

No entanto, nós nos movemos no terreno quantitativo: tendemos a fazer mais do mesmo, apesar de os resultados não apontarem para a direção esperada e acabarem levando ao fracasso. Os seguintes exemplos são amostras disso.

 
  • Apesar de a criança ainda apresentar problemas nos estudos, os pais continuam recorrendo a professores particulares obtendo leves modificações ou nenhuma.
  • A filha não quer comer e a mãe continua pressionando-a com pratos de comida, gerando maior aversão à alimentação.
  • O chefe continua repreendendo diante da ineficácia de um funcionário. Isso provoca maior tensão e nervosismo, o que aumenta sua ineficiência.
  • Os pais dão ordens para o filho não gritar, gritando.

Como vemos, essas maneiras de agir para resolver problemas criam profecias que se autocumprem: falamos tanto de um tema que acabamos construindo-o com as nossas ações.

Por que insistimos em tentativas fracassadas de solução?

Por que repetimos tentativas fracassadas de solução?

Quais são os motivos pelos quais continuamos aplicando a mesma fórmula apesar da sua ineficiência? Por que as tentativas de solução aumentam e são repetidas embora se obtenha o resultado contrário?

As respostas estão na nossa mente, na nossa forma de processar as informações. Assim, os processos e os mecanismos que utilizamos são baseados em:

  • A busca das causas: nosso pensamento se baseia na lógica do porquê linear, causa-efeito, ou seja, sempre que vemos um resultado, tentamos explicar a nós mesmos a razão pela qual ele acontece.
 
  • O princípio explicativo: a tendência de explicar a nós mesmos de maneira unidirecional e simplista.
  • O método analítico: decompomos partes, analisamos cada uma delas e as somamos com a esperança de captar e entender o todo.
  • O pensamento binário: oscila linearmente entre polaridades (branco e preto, alto e baixo, fechado e aberto).
  • A lógica matemática: aplicamos a lógica dedutiva à resolução de problemas emocionais.
  • Realidade objetiva: defender a todo custo a busca e a crença em uma realidade única, externa ao olhar, e acreditar que é possível observá-la com objetividade.
  • A busca pela verdade única: entender que existe apenas uma verdade e que ela deve ser revelada na esperança de resolver o problema.
  • O insight: acreditar que descobrir aquela realidade externa, aquela única verdade, explicá-la e compreendê-la é a possibilidade de resolver o problema.
  • Inércia cognitiva: tendência a aplicar esquemas de pensamento repetitivos e estereotipar processos do tipo efeito dominó cognitivo.

Esses componentes constituem uma forma de abordar os problemas, analisá-los e aplicar fórmulas para resolvê-los.

Todos acabamos por aplicar soluções memorizadas e reiteramos mais do mesmo, enquanto continuamos aplicando esquemas repetitivos. Essa rigidez dos esquemas mentais constitui nosso modelo cognitivo, do qual nos tornamos prisioneiros se não conseguimos exercitar nossa criatividade e ir além dos limites das nossas fronteiras mentais.

O hemisfério esquerdo, racional e lógico é o que predomina na análise da situação para uma provável solução. Ao passo que o esquerdo, criativo e mais emocional, é relegado quando é o momento em que mais deveria ser ativado.

 

Sair do quadrado mental

Esse processo é observado claramente nos problemas de inteligência, como no problema dos nove pontos. Trata-se de um problema simples e difícil de aprender, mas que é um claro exemplo de tentativas fracassadas de solução.

São colocados nove pontos (como indicado na próxima figura) e a instrução é passar por cada um deles sem levantar o lápis e utilizando apenas quatro linhas retas. 

Apresentação do problema dos nove pontos

Quando analisamos a imagem, depois de observar a instrução e olhando os nove pontos, é impossível não ver o quadrado. Isso ocorre devido à a lei de percepção gestáltica da proximidade: uma sucessão de pontos formam uma linha reta.

Então, ficamos presos no quadriculado, o que leva os testes e as tentativas de solução a ficarem presos ao perímetro do quadrado.

No entanto, para conseguir resolver esse problema, é preciso ir além da ilusão desse perímetro. Porque, afinal, ele é exatamente isso: uma ilusão. As linhas que vamos traçar para resolver a proposta devem ultrapassar os limites do quadrado imaginário.

Solução do problema dos noves pontos
 

O quadrado que vemos não é concreto, é uma metáfora da nossa própria quadratura conceitual, nossos esquemas rígidos que não nos permitem sair do nosso modelo de processar a informação.

Para ir além do perímetro do nosso modelo, é preciso ter criatividade. Se fizermos uma associação com a teoria dos dois hemisférios, a quadratura é nosso hemisfério esquerdo, racional, de cálculo matemático. Ao passo que o direito (as linhas que excedem o perímetro) é mais emocional e é o que nos indica o caminho da criatividade.

Nosso cérebro sistematiza não apenas conteúdos, mas também processos, mais especificamente formas de processar as informações. Por outro lado, estamos tão imbuídos na lógica racional que aplicamos fórmulas baseadas nela e nos esquecemos de que os problemas humanos são regidos principalmente pelas emoções.

Com essa base e fazendo jus à frase “O homem é um animal de hábitos”, aplicamos várias vezes a mesma fórmula apesar de obter o resultado contrário ao que desejamos obter. Enquanto isso, questionamos os resultados e não as premissas que nos levam a eles.

Ao pesquisar o motivo da manutenção das tentativas fracassadas de solução, além da sistematização de operações mentais, observa-se que algumas tentativas de solução oferecem um alívio momentâneo.

Por exemplo, uma senhora está angustiada e, naturalmente, buscando o sentido da sua tristeza. Então, ela vê o dia chuvoso e cinzento e o considera a causa de seu mal-estar. Claramente, isso não transforma seu estado, mas essa justificativa momentânea lhe proporciona uma certa tranquilidade.

 
Mulher refletindo sobre problema

Muitos sistemas tentam sem sucesso

As tentativas fracassadas de solução não fazem referência exclusivamente às iniciativas pessoais. Uma pessoa está envolvida em uma série de tentativas pessoais fracassadas e, após passar anos sistematizando o mesmo processo, se tornou mais vulnerável e mais dependente do ambiente à sua volta e recorre a este na busca por respostas que a aproximem da melhoria.

Isso significa que, entre as tentativas malsucedidas, em princípio são observadas tentativas pessoais, que são aquelas que a mesma pessoa faz e repete em prol de uma solução. Entre essas tentativas, estão o que chamo de mantras. Por exemplo: “Isso não vai acontecer comigo, não vai acontecer comigo!”, “Tomara que dê certo, tomara!”.

Também existem tentativas profissionais nas quais se procura diferentes pessoas com conhecimento sobre o assunto para obter ajuda na solução.

E, por fim, há tentativas de pessoas afetivamente próximas (vizinhos, amigos, famílias, etc.) que dão conselhos úteis que, às vezes, são inúteis. Isto é, conselhos que motivam e estimulam a seguir em frente, mas que dão respostas ineficazes ou, ao menos, nos confortam em relação ao que aconteceu.

 

Muitos deles nos motivam como pastores: “Você consegue, você consegue!”. A questão é que, além de não encontrar uma solução, ficamos presos entre a exigência interna para que tudo dê certo e a externa do “você consegue”. E essa situação gera tanta ansiedade que não beneficia a resolução do problema.

Se continuarmos nessa inércia, pouco vamos conseguir resolver. Vamos ver se essa metáfora esclarece o tema: estamos na metade de um jogo de futebol, sentimos que vamos perder a partida, abaixamos a cabeça e vemos a bola rolando ao longe. Essa é uma fórmula negativa. O que devemos fazer?

A recomendação é a seguinte: manter a bola nos pés, dominá-la, parar um pouco e levantar a cabeça para saber qual direção seguir. Se você continuar agindo assim, poderá passá-la para jogadores mais experientes, ou chutar em direção ao gol… Qualquer opção é válida, menos insistir na ineficácia.