Teoria dos Quadros Relacionais

setembro 29, 2019
De acordo com a Teoria dos Quadros Relacionais, pode-se dizer que existem algumas propriedades da linguagem que favorecem o sofrimento. Uma delas seria, precisamente, a capacidade de acreditarmos literalmente no que nossos pensamentos, emoções e sentimentos dizem e de agir de acordo com eles.

A Teoria dos Quadros Relacionais é uma teoria sobre a linguagem e a cognição que serve como base experimental para a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). A partir da perspectiva da Teoria dos Quadros Relacionais, o comportamento e a linguagem estão intrinsecamente relacionados.

Esse quadro fornece uma explicação funcional de algumas descobertas derivadas da pesquisa cognitiva sobre a linguagem e proporciona a base para o estudo dos fenômenos de uma maneira monista.

É uma teoria que aspira estudar os chamados “processos mentais” de uma forma operacional e experimental.

Conceitos e propriedades

Para entender o que é um quadro relacional, é necessário saber que os seres humanos não aprendem apenas com experiências diretas. As pessoas aprendem também de forma indireta, relacionando estímulos além das suas propriedades físicas.

Esse valor linguístico agregado dos estímulos é o que condicionaria sua capacidade de governar relações e funções.

Mulher preocupada pensando na vida

Propriedades de um quadro relacional

Para vincular e transformar tanto a cognição quanto a linguagem, existem três propriedades:

  • Vinculação mútua. Uma relação entre dois estímulos supõe responder a um em termos do outro e vice-versa. Se, em um determinado contexto, A está diretamente relacionado a B, então existe uma relação derivada entre B e A.
  • Vinculação combinatória. Uma das características definidoras dos quadros refere-se à capacidade de combinar eventos mutuamente. Se A está relacionado de uma forma característica a B, e A estiver relacionado a C, B e C também estariam relacionados.
  • Transformação de funções. Dado um estímulo que tem uma função, se outro estímulo estabelece uma relação com ele nesse contexto, a função de ambos é transformada pela relação. Por exemplo, se alguém nos disser que existe um produto melhor e mais barato que o que costumamos usar, a probabilidade de que o compremos aumenta. Sua função foi transformada pela relação que foi estabelecida.

Pistas contextuais na Teoria dos Quadros Relacionais

As vinculações mútuas, as combinações vinculares múltiplas e as transformações de funções são componentes de um padrão de resposta relacional mais amplo que a Teoria dos Quadros Relacionais (RFT) denomina “quadro relacional”.

O conceito é utilizado para explicar como aprendemos a fazer associações derivadas de relações entre estímulos.

Os quadros relacionais podem ser combinados para gerar regras verbais que governam os comportamentos. Esse processo permite que as pessoas organizem, prevejam e controlem a obtenção de consequências em relação ao contexto. Dessa forma, pode-se antecipar situações futuras sem tê-las vivido.

Chaves contextuais na Teoria da Quadro Relacional

Cada contexto de aprendizagem apresenta múltiplos estímulos com o potencial de adquirir o valor de chaves que governam o desenvolvimento dos quadros relacionais. A RFT distingue dois subtipos de chaves contextuais:

  • Aquelas que governam o tipo de relação especificada (Crel). Os tipos mais notáveis ​​são coordenação, oposição, distinção, comparação, espaciais, temporais, causais, hierárquicos e dêiticos.
  • Como cada estímulo ou evento pode ter múltiplas funções psicológicas, uma segunda classe de chaves contextuais (Cfunc) especificarão quais funções de estímulo serão transformadas (Torneke, 2010).

A Teoria dos Quadros Relacionais como explicação do sofrimento humano

Nesse quadro teórico, pode-se dizer que existem algumas propriedades da linguagem que fazem com que o sofrimento psicológico seja algo muito comum.

Uma delas seria, precisamente, a capacidade de acreditarmos literalmente no que nossos pensamentos, emoções e sentimentos dizem e de agir de acordo com eles.

Assim, se uma pessoa se considera um “lixo” e pensa que “não vale nada”, isso provavelmente limitará muito a sua atitude. Dessa forma, veríamos como muitas pessoas renunciam a objetivos alcançáveis porque pensam que estão fora de alcance.

Tipos de regras verbais na teoria da estrutura relacional

A Teoria dos Quadros Relacionais aprofundou-se nesse fato, explicando os principais tipos de regulação verbal (Luciano e Wilson, 2002):

  • Pliance. Neste tipo de regra, as consequências são alcançadas pelo fato de cumpri-las e são aplicadas pela pessoa que gerou a regra. São comportamentos amplamente determinados pelo que o contexto cultural determina como apropriado. Por exemplo, uma mãe diz: “Se você não comer, vai ficar de castigo”.
  • Tracking. São comportamentos regulados verbalmente que orientam o ser humano à obtenção de reforçadores concretos no contexto. Estão diretamente associados às consequências obtidas com o comportamento. Por exemplo, “Se você comer, deixará de ter fome e se sentirá melhor”. Nesse caso, as consequências dependeriam das características da comida e são independentes de quem declarou a regra.
  • Augmenting. Trata-se de uma transformação de funções que determina que um estímulo verbal, um objeto ou um evento adquira um valor reforçador ou aversivo. É importante destacar que sempre operam em combinação com pliance e tracking.

augmenting é uma regra verbal que altera as propriedades reforçadoras de um estímulo que funciona como consequência, ou seja, aumenta ou diminui a probabilidade de tal estímulo influenciar o comportamento.

Por exemplo, passando por uma sorveteria, alguém diz: “Como um sorvete cairia bem agora!” Quando ouvimos ou lemos essa frase, sentimos, em certa medida, o sabor e o frescor do sorvete, o que aumenta a probabilidade de consumi-lo.

Padrões de comportamento determinados pelas regras verbais

As regulações verbais nos permitem governar nossos comportamentos em função do contexto, mas também podem ter diferentes efeitos adversos:

  • O cumprimento rigoroso de regras Pliance significa que o indivíduo se torna insensível às consequências presentes no entorno. Um exemplo seria: “Você precisa sofrer muito para ser uma boa mãe”. Sua rigidez limitaria o repertório assertivo necessário para defender direitos básicos.
  • As regras Tracking determinam comportamentos orientadas à obtenção de benefícios a curto prazo, mas que limitam o desenvolvimento de comportamentos importantes para o desenvolvimento pessoal“Devo usar drogas para me acalmar”.
  • Os Augmentals operam em coordenação com o cumprimento rigoroso ou contraproducente de regras. Podem especificar funções aversivas para eventos privados – “Não se pode viver com preocupações” – ou funções apetitivas para condições emocionais constantes e inalcançáveis – “Viver feliz é saudável”.
Homem sério pensativo

Contribuições e vantagens da Teoria dos Quadros Relacionais

A Teoria dos Quadros Relacionais levou ao desenvolvimento de um sistema de análise que oferece muitas vantagens:

  • É um enfoque parcimonioso baseado em um número relativamente pequeno de princípios e conceitos básicos para explicar os fenômenos da linguagem e da cognição.
  • Permite realizar um estudo da linguagem humana de acordo com os processos que a compõem, cuja definição é especificada cuidadosamente. 
  • Tem um alcance amplo e oferece explicações plausíveis e novos enfoques empíricos para uma ampla gama de comportamentos humanos complexos.

Os princípios são acessíveis para a observação direta, especialmente em condições de laboratório. Foram aprovados em todos os testes empíricos aos quais foram submetidos.

As aplicações clínicas se mostraram eficazes e muitas aplicações em potencial ainda estão em desenvolvimento.

  • Barnes-Holmes, D., Hayes, S. C. y Dymond, S. (2001). Self and self-directed rules. En S.C. Hayes, D. Barnes-Holmes y B. Roche (Eds.), Relational Frame Theory: A Post-Skinnerian account of human language and cognition (pp.119-139). Nueva York: Plenum Press.
  • Barnes-Holmes, D., Hayes, S. C. y Roche, B. (2001). The (not so) strange death of stimulus equivalence. European Journal of Behaviour Analysis, 1, 35-98.
  • Beck, A., Rush, A.J., Shaw, B.F. y Emery, G. (1979). Cognitive therapy of depression. Nueva York: Guilford Press.