Teoria dos traços de personalidade de Allport - A Mente é Maravilhosa

A teoria dos traços de personalidade de Allport

junho 16, 2018 em Psicologia 0 Compartilhados
Teoria dos traços de personalidade de Allport

Gordon Allport (1897 – 1967) foi um respeitado e influente estudioso norte-americano que trabalhou no campo da psicologia. Allport, filho de pai médico e mãe professora, era o caçula de quatro irmãos. Isso se traduziu em um grande interesse em compreender a motivação humana, os impulsos e a personalidade, o que o levou a desenvolver a teoria dos traços de personalidade.

Depois de obter sua licenciatura na Universidade de Harvard, Allport fez uma viagem a Viena, na Áustria, onde conheceu Sigmund Freud, o que terminaria por influenciar de certo modo sua carreira e suas contribuições para a psicologia americana.

Após essa experiência, Allport regressou a Harvard para obter seu doutorado em psicologia. Durante sua carreira, que ocorre na primeira metade do séc. XX, fez importantes contribuições para a psicologia. Entre as mais destacadas podemos citar o desenvolvimento de suas ideias sobre os traços pessoais, que chamou de disposições pessoais.

Segundo Allport, esses traços são influenciados por nossas experiências originadas na infância, nosso ambiente atual e a interação entre ambos. Na época de Allport, a ideia era de que os traços da personalidade podiam ser formados pelas forças passadas e atuais. Allport acreditava que a personalidade era composta por três tipos de traços: cardinal, central e secundário.

Traços de personalidade

Allport conhece Freud

Allport narrou a história de sua visita a Freud em seu ensaio autobiográficoPadrão e Crescimento da Personalidade”. Para quebrar o gelo ao conhecer Freud, Allport contou que havia conhecido um menino durante a viagem de trem para Viena. O garoto não quis se sentar ao lado de um passageiro que estava sujo, apesar das palavras tranquilizadoras de sua mãe. Allport sugeriu que talvez o garoto tivesse essa fobia por causa de sua mãe, uma mulher muito asseada e aparentemente bastante dominante. Depois de observar Allport por alguns minutos, Freud peguntou: “Por acaso esse garoto era você?”

Allport constatou a intenção de Freud de reduzir essa pequena porção de interação observada a um episódio inconsciente de sua própria infância. Isso serviu para que ele lembrasse que a psicanálise tende a se aprofundar tanto no passado quanto no inconsciente, passando nesse processo por cima dos supostos aspectos mais importantes, conscientes e imediatos da experiência.

Apesar de Allport nunca ter negado que as variáveis inconscientes e históricas pudessem desempenhar um papel relevante como motivadoras de determinados comportamentos, seu trabalho sempre enfatizaria as motivações conscientes e relacionadas com o contexto atual.

Teoria dos traços de personalidade de Allport

Em 1936, o psicólogo Gordon Allport descobriu que um único dicionário de inglês continha mais de 4.000 palavras que descreviam diferentes traços de personalidade. A teoria dos traços de personalidade de Allport os classificou em três níveis.

Traços cardinais

Entre algumas figuras históricas que demostraram possuir um forte traço cardinal estão Abraham Lincoln, por sua honestidade, o Marquês de Sade pelo sadismo e Joana D’Arc por seu ato de heroísmo. As pessoas com tais personalidades podem se tornar tão conhecidas por esses traços que seus nomes geralmente estão associados a essas qualidades. Allport sugeriu que os traços cardinais são raros e tendem a se desenvolver com o passar dos anos.

Quando estão presentes, os traços cardinais moldam a pessoa, no sentido que elas têm de si mesmas, sua composição emocional, suas atitudes e seu comportamento. Isso é tão claro que podemos inclusive chegar a identificá-las historicamente por eles, como no caso do Marquês de Sade.

Traços centrais

Os traços centrais são as características gerais que formam os fundamentos básicos da personalidade. Esses traços, ainda que não sejam tão dominantes quanto os traços cardinais, seriam as principais características que podem ser usadas para descrever um indivíduo. Falamos sobre traços presentes e importantes, porém, não absolutamente dominantes.

Segundo a teoria dos traços de personalidade de Allport, cada pessoa tem entre 5 e 10 traços centrais, que estão presentes em diversos graus em cada um. Incluem traços comuns, de inteligência, de timidez, de honestidade, e seriam condicionantes principais na maioria de nossos comportamentos.

Traços secundários

Os traços secundários são os traços que às vezes se relacionam com atitudes ou preferências, ou seja, as disposições que são significativamente menos generalizadas e menos relevantes. Aparecem frequentemente em determinadas situações ou em circunstâncias específicas.

Por exemplo, um indivíduo cujo traço cardinal seja a assertividade pode demonstrar sinais de submissão quando a policia o detém por excesso de velocidade. Este é somente um traço situacional que pode ou não aparecer em outros encontros interpessoais.

Segundo Allport, esses traços secundários são bastante difíceis de detectar porque são estimulados por uma escala menor de estímulos equivalentes.

Colegas de trabalho conversando

Pesquisa de Allport sobre os traços de personalidade

A teoria dos traços de personalidade de Allport não se baseia diretamente na investigação experimental, e esse é o seu maior calcanhar de Aquiles. De fato, publicou pouca pesquisa para apoiar sua teoria. Contudo, em sua primeira publicação, juntamente com seu irmão, o psicólogo social Floyd Allport, examinou 55 estudantes universitários homens, se baseando em suas características centrais. Após a investigação, concluíram que os traços eram mensuráveis na maioria dos estudantes. O objetivo principal dessa pesquisa era desenvolver uma escala como forma de “medir” a personalidade.

Outra iniciativa curiosa de Gordon Allport foi a de analisar uma série de cartas de uma mulher chamada Jenny Gove Masterson. As 301 cartas que Jenny escreveu durante os últimos onze anos de sua vida dirigidas a um casal amigo foram adquiridas por Allport e analisadas. Depois ele pediu, em um exercício, que 36 pessoas caracterizassem Jenny em função dos traços que seriam capazes de identificar nessas cartas.

Para seu estudo, Allport concluiu que os traços não existem de maneira independente. Além disso, em um dado momento os comportamentos que motivam dois determinados traços podem chegar a entrar em conflito, de modo que, pela hierarquia, um se imporá sobre o outro.

Apesar de vários teóricos estarem de acordo no sentido de que as pessoas podem ser descritas pelos seus traços de personalidade, ainda existe um debate sobre o número de traços básicos que compõem a personalidade do ser humano. Por exemplo, Raymond Cattell reduziu o número de traços observáveis de 4.000 a 171, e posteriormente a 16, combinando certas características e eliminando os traços mais singulares ou difíceis de definir. Por outro lado, o psicólogo britânico Hans Eysenck desenvolveu um modelo de personalidade baseado em apenas três.

Entretanto, a pesquisa de Allport e sua teoria dos traços de personalidade são consideradas obras pioneiras no campo da personalidade. Ele se baseou em dados estatísticos e objetivos, ao invés de experiência pessoal. Também recebeu certas críticas como, por exemplo, o fato de que ela não abordaria o estado do indivíduo ou a forma como ele pode se comportar de maneira temporária.

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