Terapia de Fairburn para a bulimia nervosa

13 Março, 2021
Atualmente, o tratamento mais validado empiricamente para tratar a bulimia nervosa é a terapia comportamental cognitiva de Fairburn. É superior à farmacoterapia e outros tratamentos, por isso é a mais utilizada.

A terapia de Fairburn é uma intervenção psicológica especialmente concebida para o tratamento da bulimia nervosa. A bulimia é um transtorno alimentar caracterizado por episódios frequentes de compulsão alimentar nos quais a pessoa perde o controle.

Esses excessos são seguidos por comportamentos compensatórios. Geralmente são vômitos autoinduzidos ou o uso de laxantes. Isso ocorre em resposta à imensa ansiedade que a pessoa com bulimia sente ao comer compulsivamente. Sentindo-se extremamente culpada ou envergonhada, ela força o vômito com a intenção de reparar o ocorrido.

Atualmente, um dos tratamentos mais eficazes e, portanto, mais amplamente utilizados na prática clínica é a terapia cognitivo-comportamental de Fairburn.

Nessa abordagem, o tratamento é feito de forma individualizada e a duração é em torno de cinco meses. É semiestruturado, orientado para o problema e focado principalmente no presente e no futuro, ao invés do passado.

A terapia de Fairburn consiste em três fases diferentes que iremos explicar com mais detalhes. Os objetivos prioritários são que a paciente ganhe controle sobre a sua dieta, que as cognições sobre peso, silhueta e imagem corporal sejam modificadas e que as mudanças sejam mantidas ao longo do tempo.

A responsabilidade pela mudança é sempre do paciente, por isso lhe é atribuído um papel ativo. O terapeuta tem o papel de motivar, apoiar e fornecer informações e orientações.

Jovem triste na terapia

Estágios da terapia de Fairburn para a bulimia nervosa

Estágio 1

Tem duração aproximada de 8 semanas e é realizado com entrevistas semanais, exceto nos casos em que há um grande descontrole nas orientações alimentares, nos quais vale a pena dedicar mais de uma sessão.

O primeiro passo é fazer um histórico pessoal do paciente e identificar os principais pontos de interesse para formular o tratamento. Posteriormente, iremos explicar o modelo cognitivo da bulimia nervosa.

Este modelo mostra o círculo vicioso que ocorre neste transtorno. Haveria um fator crucial que seria a idealização do peso e da forma corporal que levaria o paciente a fazer dietas hipocalóricas.

O fato de fazer dietas facilita a compulsão alimentar, visto que logicamente o paciente sente mais fome do que o normal. Depois dos excessos, chega a culpa, a vergonha e outras emoções negativas, levando ao vômito induzido. Depois de um tempo, essa liberação de emoções negativas a curto prazo predisporia a voltar à dieta e a recomeçar.

O fator cognitivo

O fator cognitivo, ou seja, basear a autoestima na imagem corporal, é considerado a chave do transtorno. O distúrbio cognitivo típico da bulimia nervosa tem dois aspectos principais: insatisfação com a forma do corpo e ideias supervalorizadas sobre peso e forma. Este último é encontrado em todos os casos de bulimia.

Nesta primeira etapa também será necessário que a paciente monitore a sua alimentação, ou seja, registre tudo o que come em um diário. A ideia do autorregistro é tornar a pessoa mais consciente de seu problema, bem como identificar os gatilhos dos excessos.

Os registros devem ser analisados ​​cuidadosamente a cada sessão e é necessário que a paciente se conecte com o que ela estava fazendo um pouco antes dos excessos e quais pensamentos estavam passando pela sua mente naquele momento.

Por outro lado, é conveniente que a pessoa comece a se pesar apenas uma vez por semana. Alguns pacientes não se pesam nunca como um comportamento de evitação, e outros o fazem 5 ou 6 vezes por semana como um método de tranquilização.

Por isso, seria conveniente se pesar apenas uma vez e, além disso, o peso e os pensamentos sobre o peso devem ser anotados no diário para posteriormente discuti-los na sessão.

Outras estratégias que são realizadas nesta fase inicial envolvem informação e psicoeducação sobre os padrões alimentares, comportamentos compensatórios como o uso de laxantes ou diuréticos e os efeitos adversos das dietas.

Além disso, é prescrito um padrão regular de refeição, em que a paciente deve comer 5 refeições por dia em quantidades moderadas. Desta forma, evitamos a fome e podemos prevenir mais facilmente a compulsão alimentar.

Finalmente, a paciente é treinada para realizar um controle de estímulos. Esta é uma técnica amplamente utilizada a partir de uma perspectiva comportamental como meio de autocontrole.

Algumas das orientações que são aconselhadas são: não realizar nenhuma atividade enquanto se alimenta, comer sempre no mesmo lugar, deixar comida no prato, limitar a exposição a alimentos “perigosos”, etc.

Estágio 2

É uma fase mais focada na parte cognitiva, então a reestruturação será a técnica utilizada. A duração também é de 8 semanas com uma sessão semanal. Aqui, a prioridade é a eliminação da dieta. Como ela facilita os excessos, é essencial que você pare de fazê-la.

Além disso, é recomendável começar a ingerir os alimentos que são evitados. Esses alimentos evitados são classificados de acordo com o grau de rejeição em 4 grupos de dificuldade crescente. Cada semana, o terapeuta diz ao paciente para comer um daqueles alimentos proibidos, começando pelo grupo mais fácil.

Depois de implementar essas técnicas, começamos com a terapia cognitiva propriamente dita. Como a paciente do primeiro estágio já identificou os pensamentos negativos, agora é a hora de lhe mostrar as diferentes distorções cognitivas existentes e analisar com quais ela mais se identifica.

Uma vez realizada essa etapa, ela aprende a manter um diálogo socrático consigo mesma. Por meio de perguntas, a paciente descobre que os pensamentos são totalmente irrealistas ou exagerados e que deve modificá-los.

Consulta com psicólogo

Para identificar os pensamentos e ter a oportunidade de trabalhá-los, o terapeuta pode propor diferentes experimentos comportamentais ou enviar tarefas para casa, como olhar no espelho, usar roupas justas, etc. A partir dessas tarefas, a paciente anota o que passa na sua mente, traz para a sessão e analisa a veracidade, coerência e comodidade de pensar assim.

Finalmente, nesta fase também é preciso realizar um treinamento em resolução de problemas, através do qual o paciente aprende que existem certas circunstâncias vitais que não têm uma solução clara e que talvez seja conveniente analisar passo a passo as alternativas que podemos escolher e implementar uma estratégia específica.

Estágio 3 da terapia de Fairburn

Esta última fase da terapia de Fairburn é realizada em 3 sessões quinzenais. O objetivo é prevenir recaídas. No final do tratamento, os pacientes se sentem muito melhor, mas a maioria ainda apresenta alguns sintomas. Nesse sentido, a paciente é treinada para diferenciar entre um excesso e recaída.

Um excesso é um pequeno “deslize” e faz parte do processo. Devemos normalizá-lo e seguir em frente. No entanto, uma recaída é voltar ao ponto de partida. Isso é o que deve ser evitado e controlado. É necessário que, nesta última etapa, a paciente tenha um plano estratégico pessoal e escrito do que fará caso identifique uma recaída.

Atualmente, a terapia de Fairburn é um dos tratamentos mais comprovados empiricamente para a bulimia nervosa. Além disso, não é apenas usado na bulimia, mas em seu formato transdiagnóstico também demonstrou eficácia em outros transtornos, como o transtorno da compulsão alimentar periódica.

  • Faribum, C, G. (1985). Cognitive-behaviural treatment for bulimia. Handbook psychotherapy por anorexia nervosa and bulimia (pp 160-192). New York: Guildford Press