Terapia do luto: como enfrentar o adeus

· maio 9, 2018

A morte e perda de alguém querido é um processo muito duro pelo qual já passamos ou passaremos em algum momento. É verdade que nem todas as pessoas contam com os mesmos recursos ou ferramentas para enfrentá-la, porém, em algumas ocasiões este processo se torna crônico e se converte em um problema sério. Nestes casos, a terapia do luto pode nos ajudar.

Estima-se que isso ocorra entre 10-20% das vezes em que se atravessa um luto. Para estes casos existem diferentes técnicas, respaldadas por diferentes estudos, que podem ajudar a superar este estado no qual todos podem ficar “prisioneiros”. Entre elas, vamos falar da lamentação dirigida. Por outro lado, e antes de mais nada, vamos tentar diferenciar um luto normal de um luto patológico, e vamos fazê-lo motivados por uma pergunta: até que ponto tanto sofrimento é normal?

Luto normal e luto patológico

O luto é um conjunto de reações a nível físico, emocional e social, que se desencadeia depois de uma perda significativa: em nosso caso, a morte de um ser querido. Os sintomas podem oscilar no nível de intensidade e duração, em alguns casos chegando a se prolongar durante toda a vida. Em qualquer caso, lembre-se de que, a princípio, trata-se de uma reação adaptativa.

O luto, a tristeza e a ansiedade são os sentimentos mais comuns, nessa mesma ordem, além do medo e da solidão. Também podem aparecer sentimentos de culpa e redução do interesse por tudo que rodeia a pessoa. O normal é que estes sintomas desapareçam em um prazo que oscila entre os seis meses a um ano.

Mulher chorando com as mãos no rosto

Quando as reações emocionais são muito mais intensas, dificultam o seguimento da vida diária e duram mais de um ano, podemos falar de luto patológico. Nestes casos também aparecem sintomas pouco comuns, como podem ser as alucinações (visões ou vozes do falecido) ou as ideias suicidas. Este processo costuma se complicar, além disso, por outros comportamentos como o isolamento social, o descuido pessoal ou o consumo de substâncias. É neste caso que é bom procurar a terapia do luto para que os profissionais possam ajudar.

A terapia do luto: estratégias terapêuticas

No tratamento do luto patológico são utilizadas tanto terapias individuais quanto terapias em grupo. Inclusive, já foi comprovado que em alguns casos é muito útil usar ambas. Trata-se de potencializar os recursos individuais de cada pessoa, mas também de oferecer o apoio social necessário para acabar com o isolamento.

Em qualquer caso, o objetivo principal da terapia do luto não é esquecer o falecido, e sim transformar o processo para que a lembrança da pessoa não cause um bloqueio. As metas fundamentais desta terapia seriam, portanto, as seguintes:

  • Facilitar a expressão de sentimentos e experiências em relação à pessoa falecida. Em muitos casos, a pessoa guardou silêncio e não colocou em palavras o que sentia ou pensava, dificultando a superação da morte.
  • Dialogar sobre as circunstâncias que levaram à morte. Muitas vezes, dependendo do tipo de morte que ocorreu (suicídio, atentado terrorista, etc), o luto se torna mais doloroso. Falar sobre isso facilitará a assimilação e a aceitação.
  • Centrar a terapia na solução de problemas cotidianos e readaptação à vida diária normal. Através de pequenos passos diários são obtidos grandes resultados.
  • Projetar o paciente até o futuro, fazendo com que gradualmente volte a incorporar atividades gratificantes em sua rotina. Isso fará com que o paciente sinta que, apesar de tudo, ainda existem coisas que podem fazê-lo se sentir bem.

A lamentação dirigida como terapia do luto

Esta terapia é utilizada em pessoas que estão passando por um luto psicológico com comportamento de esquiva, bloqueio emocional e re-experimentação em forma de pesadelos ou pensamentos invasivos. Neste sentido, cabe indicar o papel que pode ter a lamentação dirigida. Consiste em expor a pessoa a lembranças que se relacionam com o falecido, especialmente a experiências compartilhadas.

Por exemplo, costuma-se utilizar a leitura de cartas ou a apresentação de um álbum de fotos. Trata-se, em todo caso, de romper com a inibição emocional disruptiva. O mecanismo subjacente que faz com que este tipo de terapia funcione é o enfraquecimento da resposta emocional condicionada (tristeza) mediante a apresentação repetida de estímulos que geram a mesma resposta. Ou seja, fazemos com que o paciente se exponha ao que lhe gera tristeza repetidas vezes até que a emoção, diante da apresentação frequente, se reduza em intensidade.

Esta exposição repetida também pode ser conduzida por comportamentos gratificantes, que foram deixados de lado porque lembravam a pessoa falecida. Por exemplo: ir ao cinema, viajar, sair para jantar, etc. Nestes casos, também servirá como mecanismo subjacente da terapia a própria gratificação da atividade.

Mulher enfrentando luto

Indicadores de recuperação depois do luto patológico

Como podemos saber que a terapia de luto funcionou? Quais comportamentos determinam a recuperação depois do luto patológico? A seguir listamos uma série de indicadores ou sinais que nos permitem diferenciar tal recuperação:

  • A pessoa recobrou as constantes biológicas com relação ao apetite e o sono.
  • Reaparece a expressão verbal dos sentimentos e as expressões afetivas, como os sorrisos ou os abraços. 
  • O sujeito já se envolve em comportamentos gratificantes, retoma sua vida social e inclusive participa em atividades de voluntariado para ajudar os outros.
  • A lembrança do falecido já se integra como parte da história pessoal sem desencadear excessivas emoções negativas. São evocadas experiências positivas vividas com a pessoa que já não está.
  • Desfruta-se da vida cotidiana e são estabelecidas metas futuras.

O luto é um processo normal que requer uma preparação pessoal que nem sempre é fácil de ser realizada. Em qualquer caso, conhecer o luto patológico e algumas das soluções terapêuticas pode nos ajudar a identificar e enfrentar o último adeus, além de nos motivar a buscar a ajuda de um profissional no caso de precisar dela.