Teste de Rorschach, a técnica projetiva para avaliar a personalidade

14 Janeiro, 2021
O teste de Rorschach tem quase cem anos. No entanto, até hoje (apesar das controvérsias quanto à sua validade), continua sendo uma das técnicas de psicodiagnóstico mais interessantes.

O teste de Rorschach é uma das mais conhecidas técnicas de psicodiagnóstico projetivo. Para alguns, é pouco mais do que uma ferramenta pseudocientífica. No entanto, outros psicólogos acreditam que, apesar de ter quase cem anos, esse recurso ainda é muito interessante quando se trata de avaliar certos distúrbios do pensamento e da personalidade.

Falar deste instrumento é se referir quase a um ícone da nossa cultura. É comum vê-lo em uma infinidade de filmes, inspirou alguns quadrinhos, e até Andy Warhol ficou fascinado por aquele baralho de cartas com pontos evocativos e misteriosos. Porém, além dessa trilha de popularidade, deve-se destacar que poucas técnicas no campo da psicologia têm suscitado tanta polêmica e interesse.

Psicólogos como Pieter Drenth, especialista em psicodiagnóstico, lamentam, por exemplo, que o teste de Rorschach ainda esteja presente em muitos de nossos contextos sociais (vamos pensar que é o segundo teste forense mais usado depois do MMPI-2, o Inventário Multifásico de Personalidade de Minnesota).

Por outro lado, deve-se destacar que, de 1999 até a presente data, essa técnica foi revisada e analisada diversas vezes. Em 2013, por exemplo, foi realizado um estudo aprofundado pela psicóloga Joni Mihura, da Universidade de Toledo (EUA), que concluiu que o teste de Rorschach tem alguns pontos fortes e válidos.

No entanto, deve ser aplicado de forma adequada, levando em consideração, por exemplo, que nunca pode ser uma técnica primária para fazer qualquer tipo de diagnóstico. É essencialmente um teste projetivo simples que deve ser usado de forma complementar a outras (e mais válidas) estratégias de coleta de informações psicológicas.

Hermann Rorschach

Quem criou o teste de Rorschach?

Hermann Rorschach foi um jovem psicólogo suíço que entrou em contato com a psicanálise na Clínica da Universidade de Zurique, dirigido por Eugen Bleuler. Seu pai era pintor, então ele sempre teve um contato próximo com o mundo da arte e, segundo ele, este recurso também poderia servir para se aprofundar na psique humana.

Assim, após conhecer o psiquiatra Szymon Hens em 1917 e descobrir seu trabalho a respeito de como as manchas de tinta poderiam servir para explorar a personalidade, Rorschach partiu dessa teoria para desenvolver outra técnica que revolucionaria o mundo clínico.

Ele a chamou de Psychodiagnostik (Psicodiagnóstico), e era um procedimento baseado em desenhos onde a diversidade de figuras percebidas favorecia a ativação de processos inconscientes nos quais, acima de tudo, a personalidade patológica poderia ser explorada. Rorschach estava procurando, principalmente, um teste para detectar a esquizofrenia.

Agora, deve-se notar que Hermann Rorschach não foi capaz de melhorar esta técnica ou ver o efeito que seu teste teria. Ele morreu 9 meses após apresentar seu interessante instrumento de diagnóstico.

“A mente é como um iceberg, ela flutua um sétimo de seu volume na água.”
-Sigmund Freud-

O que é o teste de Rorschach?

Existem vários aspectos que devemos saber sobre o teste de Rorschach. Em primeiro lugar, apesar de ter quase 100 anos, continua a ser usado. Ele foi revisado (e transformado) inúmeras vezes. Na década de 1960, por exemplo, o psicólogo John Exner desenvolveu uma metodologia rigorosa para padronizar o teste e seus resultados. Até hoje, o teste de Rorschach é caracterizado da seguinte forma.

O teste criado por Hermann Rorschach

Descrição

O teste Rorschach consiste em 10 imagens de manchas de tinta. Algumas são em preto e branco, algumas são em branco e cinza e algumas são coloridas.

  • O teste deve ser realizado por um psicólogo ou psiquiatra especializado neste exame.
  • O profissional treinado mostra cada cartão um a um. A pessoa é solicitada a descrever o que vê.
  • A pessoa pode pegar o cartão e visualizá-lo na posição e orientação desejadas.
  • Os pacientes são livres para fazer a interpretação que quiserem. É explicado a eles que não existem respostas certas ou erradas. Trata-se apenas de verbalizar o que a imagem parece, com total liberdade.
  • Eles podem dizer que veem uma coisa, várias coisas diferentes, ou até mesmo nada.
  • Além disso, uma vez que a pessoa deu sua explicação, o profissional pode (e deve) fazer perguntas adicionais. O objetivo é tentar detalhar um pouco mais essas impressões que o entrevistado passou.

Interpretação do teste de Rorschach

Vamos lembrar que Hermann Rorschach projetou este teste para detectar a esquizofrenia. No entanto, foi a partir de 1939 que esse objetivo mudou para se adaptar ao que é agora: um teste de personalidade projetiva, uma espécie de teste psicológico que analisa emoções, motivações e certos pensamentos.

Há, portanto, um aspecto sobre o qual devemos ter clareza. Muito além do que vemos nessas manchas, importa a avaliação feita pelo psicólogo e psiquiatra. Não só o que se viu é analisado. Observam-se as reações, a forma de comunicar, responder, evocar… É um conjunto complexo de estímulos e fatores que o profissional especializado deve analisar.

As formas

  • O mais comum é ver formas de borboletas, mariposas e figuras humanas.
  • A terceira carta finge ser duas figuras humanas entrelaçadas. Aqui a pessoa pode evocar descrições como “pessoas que se amam”, “pessoas que se odeiam”… Tudo depende do seu foco singular.
  • Existem cartões em que as manchas de tinta são vermelhas. Nestes casos, geralmente se manifestam a raiva reprimida, o medo, etc.

Fatores que acompanham a administração do teste

O profissional deve observar e analisar, como mencionamos, múltiplos fatores que acompanham a aplicação dessa técnica. São os seguintes:

  • Tempos de resposta.
  • Comentários não relacionados ao teste.
  • Originalidade ou não das respostas dadas.
  • Comportamento, atitude, disposição.
Mulher sendo avaliada

Quão válido é o teste de Rorschach?

O estudo da Dra. Joni Mihura mencionado no início nos mostra algo importante. O teste de Rorschach não é válido para diagnosticar transtornos de personalidade. Além disso, em 1999, a comunidade clínica pediu que uma moratória fosse aplicada a ele. Foi recomendado que não fosse usado como técnica diagnóstica até que dados mais exaustivos sobre sua validade fossem obtidos.

Até o momento, só mostrou eficácia em um aspecto, que é seu ponto forte: avaliar a psicose. Além desse detalhe, muitas vezes é considerado uma relíquia da psicologia. Agora, para concluir, apenas um aspecto deve ser destacado. Este é mais um teste projetivo. Portanto, apesar de não ser uma ferramenta perfeita, pode ser usada em combinação com outras para coletar informações sobre um paciente.

  • Lilienfeld, SO, Wood, JM, & Garb, HN (2000). El estatus científico de las técnicas proyectivas. La ciencia psicológica en el interés público , 1 (2), 27–66. https://doi.org/10.1111/1529-1006.002
  • Wood, JM, Lilienfeld, SO, Garb, HN y Nezworski, MT (2000). La prueba de Rorschach en el diagnóstico clínico: una revisión crítica, con una mirada hacia atrás en Garfield (1947). Journal of Clinical Psychology , 56 (3), 395–430. https://doi.org/10.1002/(SICI)1097-4679(200003)56:3<395::AID-JCLP15>3.0.CO;2-O