Tiroteios nas escolas: o que existe na mente desses criminosos?

· junho 14, 2018

Os tiroteios nas escolas são um fenômeno bastante triste nos dias de hoje, ainda mais se levarmos em conta sua frequência. Entretanto, somente em 5% dos casos existe algum tipo de transtorno mental da parte dos atiradores. No restante dos perfis dos assassinos podemos observar outros fatores desencadeantes, como o abuso físico ou psicológico, a perda das raízes familiares, o bullying escolar, os antecedentes penais dos pais e, acima de tudo, o fácil acesso às armas de fogo e a cultura associada a elas.

Após o massacre ocorrido no passado 14 de fevereiro na escola Marjory Stoneman Douglas em Parkland, Flórida, o presidente americano Donald Trump tuitou o seguinte: “Havia muitas pistas de que o atirador da Flórida estava mentalmente perturbado. Os vizinhos e seus colegas de classe sabiam de seu comportamento estranho e perigoso. Devemos sempre informar as autoridades dessas coisas e as autoridades devem atuar!”.

Na estrutura social das escolas americanas, os estímulos violentos relacionados com a cultura das armas ou o racismo são fenômenos bastante comuns.

Apesar do criminoso Nikolas Cruz se encaixar em um perfil de risco – aluno expulso e marginalizado que exibia de forma frequente sua admiração pelas armas – existe algo bem mais profundo nesse fenômeno. Algo mais arraigado e obscuro que vai muito além da saúde mental e que implica todos os organismos sociais da própria sociedade americana. Vejamos abaixo mais atentamente.

Nikolas Cruz

Tiroteios nas escolas, o problema de uma sociedade

Nikolas Cruz, de 19 anos, tirou a vida de 17 colegas da escola, deixando ainda uma dezena de feridos. Seu nome se soma a uma enorme lista de indivíduos que, armados de frustração, raiva e desprezo, perpetraram um plano baseado em tiros e sangue, onde apontam e disparam sem piedade em alunos e professores de suas escolas, levados pela sua fascinação pelas armas como única resposta a seus problemas.

Agora, por mais chocante que pareça, não passamos um mês sem que haja algum tiroteio ou confronto relacionado a armas de fogo nas escolas americanas. E mais, desde 2012, quando Adam Lanza matou 20 pessoas (crianças de 7 anos e seus professores), ocorreram 239 tiroteios nas escolas. O resultado são 438 feridos e 138 mortos nos últimos seis anos. Políticos, associações e personalidades que são contra o uso de armas de fogo não deixam de insistir em um fato bastante concreto: as matanças têm aumentado ano após ano. Não é uma situação casual, não é uma coincidência, nem mesmo uma epidemia de transtornos mentaisO que está ocorrendo nos Estados Unidos com esses tiroteios nas escolas é o resultado da falta de ação de uma sociedade. As pessoas que os cometem não só contam com a oportunidade, mas também contam com os meios.

Não se trata somente de debater sobre a necessidade ou não de proibir o uso regular de armas, que por si só já é relevante. Também é prioritário nos aprofundarmos no que motiva esses jovens a recorrer a esses rifles ou mesmo fuzis como forma de canalizar sua raiva ou seus problemas.

Rua escolar com policias

O perfil dos assassinos dos tiroteios nas escolas

O massacre de 20 de abril de 1999 no Instituto Secundário de Columbine levou a crer que se pensaria mais seriamente na questão. Foi uma tomada de consciência diante de uma realidade que colocava em evidência a violência existente nos Estados Unidos. O país considerou criar novas medidas nos centros escolares, fazer simulações para aprender a reagir diante dessas situações, e implicou também que os serviços secretos levassem mais a sério esse tipo de massacre e suas motivações.

Assim, no ano 2000 foi elaborado um perfil psicológico para tentar entender um pouco mais da estrutura mental desses jovens assassinos. Estas seriam as principais características:

  • Os ataques são minuciosamente premeditados. Não são atos casuais nem resultados de um momento de alienação mental.
  • Por volta de 80% dessas pessoas sofreram abuso em suas escolas. Acumulam um histórico de maus-tratos, assédio e elevado desgaste emocional gerado por seu próprio entorno e de seus colegas.
  • Uma alta porcentagem vem de famílias desestruturadas, nas quais pai ou mãe possuem antecedentes criminais.
  • Cerca de 95% dos assassinatos são cometidos por pessoas sem qualquer tipo de problemas mentais. Doenças mentais, como a esquizofrenia, não costumam estar associadas a esses casos de violência.
  • Em 100% dos casos existe uma fascinação direta pelas armas. Os assassinos geralmente demonstram isso abertamente, para seus colegas ou mesmo nas redes sociais.
  • A violência para esses jovens, alguns deles ainda crianças, não é algo casual ou repentino. Na realidade é como um processo complexo, lento porém impactante, que vai sendo construído em suas mentes com o passar do tempo.
  • Assim, os estímulos de caráter violento que possam rodeá-los, combinados com o estresse do ambiente em que estão inseridos e os pensamentos distorcidos, tendem a construir neles uma armadura mental desumanizada. Essa frieza emocional faz com que a pessoa veja o assassinato como uma via de escape gratificante e inclusive justificável.
Adolescente triste

Qual seria a solução para os tiroteios nas escolas?

Um senador republicano se apressou em sugerir que a solução para os tiroteios nas escolas seria bastante simples. Bastaria fornecer armas aos “homens bons” para que façam frente a esses jovens “malvados” que procuram fazer mal aos seus colegas de classe. Bom, armar (supostamente) os “homens bons” não conseguiria mais que alimentar esse círculo de violência. Com isso demonstraríamos uma vez mais que o melhor modo de solucionar um conflito seria através do uso das armas.

A cultura da violência alimenta a própria violência. O outro vírus é o desleixo institucional, a falta de cuidados na educação e na área social, e um país que faz do uso das armas a essência de sua identidade. Este, evidentemente, não é o caminho. Assim, algo que a comunidade médica e educativa destaca é a necessidade de implementar nos centros educativos uma maior atenção psicológica a seus alunos, para poder atender, pressentir e prevenir esse tipo de situações.

A ajuda de psicólogos e assistentes sociais poderia atender muito melhor a esses jovens, que de um modo ou de outro, costumam dar sinais de aviso, pistas para que possam ser atendidos o quanto antes, para evitar mais desses tiroteios nas escolas, que, lembremos, acontecem praticamente todos os meses.