Trabalhar com as mãos é bom para o cérebro

setembro 1, 2019
Tocar, sentir, moldar, tricotar, cuidar do jardim, pintar, etc. Todas essas tarefas manuais geram um grande bem-estar para o cérebro. Somos recompensados com endorfinas, reduzindo o estresse e, inclusive, a ansiedade.

Trabalhar com as mãos é uma forma de fortalecer a nossa saúde psicológica. Modelar, tecer, transformar, esculpir, plantar, costurar, pintar, etc. Todas essas tarefas se mostram ótimas atividades para estimular o cérebro.

São, além disso, uma maneira sensacional de aliviar o estresse, melhorar a plasticidade neuronal, otimizar a destreza, assim como a concentração e, inclusive, a tranquilidade mental.

A conexão entre mão e cérebro representa, para o ser humano, um vínculo essencial que age como retroalimentação para favorecer nosso desenvolvimento neuronal. Esta é uma realidade que é conhecida há décadas na antropologia e na psicologia.

Por isso, por exemplo, existe a necessidade de estimular as crianças a brincar com jogos manuais e fazer tarefas que promovam a motricidade fina para contribuir, dessa forma, com o seu desenvolvimento cerebral.

No entanto, algo que a maioria de nós percebe é que a chegada da vida adulta muitas vezes nos leva a deixar para trás a magia dessas atividades manuais. A não ser que façam parte do nosso trabalho, costumamos dispensá-las. Ferramentas como o celular ou o computador estão substituindo, até mesmo, a escrita à mão.

Na hora de fazer exercícios, por exemplo, focamos a atividade em nosso corpo, mas nos esquecemos das mãos, de sua mobilidade e, acima de tudo, de seu grande potencial criativo.

O uso criativo das mãos por meio das mais variadas tarefas pode favorecer o nosso humor. Vamos analisar mais informações sobre esse assunto a seguir.

“Os dedos de uma mão: cinco pontos cardeais que apontam para o infinito”.
-Fabrizio Caramagna-

Os benefícios de trabalhar com as mãos

Trabalhar com as mãos: criação e bem-estar psicológico ao seu alcance

De certa maneira, podemos dizer que chegamos a um ponto em nossa sociedade em que a competência manual está sendo desvalorizada.

Os cargos em escritórios, as equipes de trabalho, o marketing, a publicidade, a engenharia, os economistas, as empresas tecnológicas… Todas essas áreas privilegiam outras competências de índole basicamente intelectual.

No entanto, áreas de trabalho essenciais como a construção civil, a agricultura, o conserto de automóveis, a construção de tubulações ou de redes elétricas ainda precisam de um par de mãos hábeis para solucionar os problemas diários, para impedir que as coisas mais básicas comecem a faltar.

Ambas as esferas, a produtividade intelectual e a produtividade manual, continuam sendo essenciais em nosso dia a dia.

No entanto, vale ressaltar que atualmente tem emergido da neuropsicologia uma visão bastante interessante. Essa tendência das últimas décadas de glorificar o trabalho intelectual em detrimento do manual deve diminuir.

Além disso, privar-se de trabalhar com as mãos seria ir contra a natureza humana. Neurocientistas como a Dra. Kelly Lambert, da Universidade de Richmond, nos Estados Unidos, descobriram algo muito interessante: fazer trabalhos manuais reduz o índice de depressão.

Os trabalhos manuais e nosso bem-estar psicológico

A fabricação de ferramentas permitiu que a espécie homo evoluísse até o que somos agora. Esse eixo constituído pelos olhos, as mãos e o cérebro é considerado uma fabulosa ‘constelação’ intelectual e emocional que continua proporcionando múltiplos benefícios em nós.

No entanto, estamos negligenciando esse eixo.

  • Trabalhar com as mãos não significa passar o dia todo em frente a um computador. Nem consertar um encanamento obstruído. É algo mais profundo, algo que requer fortalecer nossas conexões neuronais, promovendo, assim, a plasticidade cerebral.
  • Mas de que maneira? Por meio da criação e da transformação. Deve existir uma série de processos por meio dos quais obtemos um resultado que nos satisfaz. Assim, tarefas como esculpir, modelar, tricotar, desenhar, ou até mesmo plantar uma flor, geram uma transformação material que é revertida no plano emocional.

Pelo menos é isso que a doutora Kelly Lambert explica em seu livro Lifting Depression: A Neuroscientist’s Hands-On Approach to Activating Your Brain’s Healing Power.

Trata-se de buscar um tipo de atividade manual que ative nosso circuito neuronal de recompensa, uma atividade que envolva um certo esforço cognitivo, além de concentração e prazer pelo que somos capazes de realizar.

Os benefícios do tricô

Esforço, criação e satisfação: a neuroquímica que reverte os processos depressivos

Uma coisa da qual devemos ter consciência é que o simples fato de aprender a modelar, esculpir ou tricotar não fará com que nossa depressão desapareça.

Trabalhar com as mãos é um catalisador, um meio de mudar nossa química cerebral, de induzir um estado de bem-estar interno que, somado a outras estratégias como a terapia psicológica, pode dar grandes resultados.

No entanto, vamos observar com mais detalhes o que nosso cérebro ganha quando trabalhamos com as mãos:

  • A fisiologia e a resposta química do cérebro mudam: são liberadas endorfinas e serotonina, e também se reduz o cortisol, hormônio associado ao estresse.
  • As tarefas manuais melhoram a plasticidade neuronal, criando novas conexões. Com isso, combatem o comprometimento cognitivo.
  • Além disso, assim como explicado pelo doutor Robin Hurley, da Universidade de Baylor, Houston, nos Estados Unidos, as tarefas manuais significativas para os pacientes (tocar um instrumento, fazer tarefas artísticas como pintar ou modelar) têm o poder de reverter, inclusive, o estresse crônico. Isso é muito importante porque, dessa forma, a pessoa se sente mais receptiva e relaxada para enfrentar sua depressão.

Para concluir, é importante destacar um último detalhe. Nem todas as tarefas manuais geram benefícios psicológicos. Se trabalharmos em uma fábrica ou em uma linha de montagem, essa tarefa repetitiva dificilmente vai produzir bem-estar.

O objetivo, portanto, é realizar uma atividade que envolva trabalhar com as mãos, mas que também exija o envolvimento da curiosidade, da paixão e do interesse.

Devemos buscar uma tarefa que nos traga satisfação, que nos incentive e relaxe ao mesmo tempo, alcançando o estado de flow sobre o qual o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi fala.

São aqueles estados em que o mundo ao redor para e só nós existimos, nosso eu plenamente sintonizado com o processo criativo. Poucas coisas são mais satisfatórias do que isso.

  • Heuninckx, S., Wenderoth, L., & Swinnen, S. (2008). Systems Neuroplasticity in the Aging Brain: Recruiting Additional Neural Resources for Successful Motor Performance in Elderly Persons. Journal of Neuroscience, 28 (1) 91-99; DOI: https://doi.org/10.1523/JNEUROSCI.3300-07.2008
  • Kays, Jill L., et al. (2012). The Dynamic Brain: Neuroplasticity and Mental Health. The Journal of Nuropsychiatry and Clinical Neurosciences. https://doi.org/10.1176/appi.neuropsych.12050109
  • Lambert, Kelly (2010) Lifting Depression: A Neuroscientist’s Hands-On Approach to Activating Your Brain’s Healing Power. Basic Books.