Os traços psicológicos do fascista, segundo Umberto Eco

· abril 16, 2019
Os traços psicológicos do fascista não estão presentes apenas naqueles que se definem como radicais, mas também em inúmeros grupos e pessoas que aparentemente defendem outros tipos de valores, mas se comportam de forma totalitária.

Umberto Eco foi um dos pensadores que mais se aprofundou de vários fenômenos culturais, entre eles como o poder molda as mentes das sociedades. Uma de suas reflexões foi orientada a estabelecer os traços psicológicos do fascista, com base no fato de que a literatura a respeito disso era vasta.

O assunto é realmente muito importante porque, atualmente, existem pessoas e setores que defendem valores aparentemente muito razoáveis, mas que basicamente carregam os traços psicológicos do fascista. Estes são realmente muito prejudiciais para as pessoas e as sociedades, uma vez que promovem relações sociais desiguais e perversas.

Eco fez uma análise cuidadosa e chegou à conclusão de que o fascismo era, na verdade, uma postura um tanto hipócrita e inconsistente, que se infiltrava nas mentes das pessoas de maneira astuta. Umberto Eco apontou que existem 13 traços psicológicos do fascista. Falamos sobre eles a seguir.

“O Ur-Fascismo pode voltar com as aparências mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o dedo sobre cada uma de suas novas formas, todo dia, em todas as partes do mundo”.
-Umberto Eco-

Os três cultos do fascismo

Segundo Umberto Eco, existem três formas de cultos presentes nos traços psicológicos do fascista. O primeiro deles é o culto à tradição, que é acompanhado de referências ao conhecimento arcaico. Eles convidam a recuperar conhecimentos ou postulados que já foram superados. Foi o que aconteceu, por exemplo, com algumas abordagens New Age, que falam de “alquimia” em seu sentido arcaico.

O segundo culto praticado pelos fascistas é o culto ao heroísmo e à morte. Exaltam muito as ações ousadas e inculcam a ideia de que a morte é pouca coisa diante desses atos heróicos. Colocam mais ênfase em justificar a morte do que dar sentido à vida.

Da mesma forma, os fascistas cultuam a ação pela ação. Por isso, promovem a ideia de que a reflexão é uma perda de tempo. De seu ponto de vista, os intelectuais são covardes, assim como os artistas, a menos que suas obras promovam esse chamado à ação.

Os três cultos do fascismo

Rejeições e exclusões

Os fascistas rejeitam os valores sociais consolidados com a modernidade e o Iluminismo. Eles pensam que as coisas são brancas ou pretas, portanto, não devem ser discutidas ou abordadas com um senso crítico. O que é, é. E ponto. Não há nada a discutir.

Derivado do exposto acima, o fascismo também rejeita o pensamento crítico. O desacordo é traição e aquele que pensa de maneira diferente é um dissidente que deve ser silenciado. Um dos traços psicológicos do fascista seria a intolerância ao diferente.

Isso é, também, medo da diferença. O diferente é o inimigo. Eles alimentam esse medo pelo inimigo, atribuindo-lhe características exageradas e que o colocam do lado do mau, do desumano ou do subumano. Quem não pensa como eles nem sequer deve ser chamado de “pessoa”. Também têm inveja das realizações ou virtudes daqueles que não fazem parte de seu grupo. Você acha isso exagerado? Não é isso que alguns torcedores de futebol fazem?

Medos e desculpas

Outros dos traços psicológicos mais evidentes do fascista são o nacionalismo e a xenofobia. Este tipo de apologia e rejeição não se manifesta apenas em relação ao país de origem, mas também em relação à identidade de um determinado grupo ou setor. Eles enfatizam excessivamente o positivo de seu coletivo e rejeitam prejudicialmente o estrangeiro.

O fascismo também é elitista. Desprezam os pobres ou os necessitados, a quem eles consideram seres de segunda classe. A riqueza, em sua opinião, também define o valor de um ser humano. Eles rejeitam todas as formas de fraqueza, assim como qualquer manifestação que possa ser interpretada como um sintoma de vulnerabilidade.

Da mesma forma, os fascistas se valem da questão de gênero para fazer fortes discriminações. Antigamente havia um predomínio do machismo, mas atualmente essa intolerância também é observada em alguns setores do movimento feminista e do movimento LGBT.

Outros traços psicológicos do fascista

Umberto Eco chama a atenção para o fato de que o principal alvo das ideias fascistas é a classe média. Trata-se de um setor socioeconômico que é dinâmico, pois sua posição não está totalmente definida. Por isso, é mais permeável à manipulação.

Outro traço presente no fascismo é a exaltação da guerra. Eles são antipacifistas, embora não se declarem assim. Acreditam que o melhor jeito de resolver as contradições é por meio da violência, “ir direto ao assunto”, “resolver de uma vez por todas”.

Traços psicológicos do fascista

Finalmente, há outro traço psicológico do fascista que é muito sutil e interessante. Envolve o que Umberto Eco chama de “novilíngua”. Consiste em um uso extremamente elementar e pobre da linguagem, pois somente através dessa pobreza é possível neutralizar o pensamento complexo e crítico.

É bom pensar sobre o que ou quem tem estes traços psicológicos do fascista. É muito importante para todos nós nos protegermos dessas linhas de pensamento totalitário, que tanto causaram danos no passado e que continuam presentes atualmente.

  • Bornhauser, N., & Lorca, D. (2019). Notas para una caracterización del fascismo. Ideas y valores, 68(169), 61-81.