Transtorno de despersonalização: quem sou eu realmente?

· março 24, 2018

 “Meus pensamentos não parecem ser meus”, “Quem sou eu?”, “Eu não me reconheço no espelho”. Esse tipo de pensamento ocorre com frequência em pessoas com transtorno de despersonalização, mas também em pessoas que estão passando por momentos de grande ansiedade.

A busca da própria identidade e do nosso lugar no mundo é uma constante. Todos nós já nos perguntamos quem somos, de onde viemos e para onde vamos. É algo normal. No entanto, no transtorno de despersonalização ocorre com muito mais frequência e intensidade.

Transtorno de despersonalização

O que é a despersonalização?

O transtorno de despersonalização se caracteriza por episódios persistentes ou recorrentes de despersonalização, desrealização ou ambos. Contudo, o que é a despersonalização? Os episódios de despersonalização são momentos nos quais surge uma sensação de irrealidade, de estranheza ou distanciamento de si mesmo em geral.

A pessoa com despersonalização pode se sentir independente de todo o seu ser (por exemplo, “eu não sou ninguém”, “não tenho nada de mim”). A pessoa também pode se sentir subjetivamente separada de aspectos do eu. Isso pode incluir os sentimentos (por exemplo, baixa emocionalidade: “eu sei que tenho sentimentos, mas não consigo sentir”).

Sentir-se separado do eu também inclui sentir uma separação dos próprios pensamentos, de partes do corpo, do corpo todo ou de sensações (por exemplo, o tato, a autopercepção, a fome, a sede, a libido). Também é comum que a noção de realidade diminua.

Por exemplo, a pessoa experimenta uma sensação robótica, como de um robô, que carece de controle para a própria fala ou os movimentos. A experiência de despersonalização às vezes pode ser de um eu dividido, com uma parte de observador e outra de participante. Isso se conhece como “experiência fora do corpo” quando ocorre na sua forma mais extrema.

O sintoma unitário de “despersonalização” é composto de vários fatores. Esses fatores incluem experiências corporais anômalas (por exemplo, a irrealidade do eu a alterações da percepção), dormência física ou emocional e distorções do tempo com memória subjetiva anômala.

Mulher sentindo dores

O que é a desrealização?

Os episódios de desrealização se caracterizam por uma sensação de irrealidade ou distanciamento ou de não estar familiarizado com o mundo. A pessoa pode se sentir como em um sonho ou uma bolha, como se existisse um véu ou uma parede de cristal entre ela e o mundo que a rodeia.

O meio pode ser visto como artificial, sem cor ou sem vida. A desrealização é acompanhada normalmente por distorções visuais subjetivas. Estas podem ser visão embaçada, acuidade visual aumentada, campo visual ampliado ou reduzido, bidimensional ou plano, exagero da tridimensionalidade… Também podem ocorrer alterações na distância ou tamanho dos objetos (por exemplo, macropsia ou micropsia).

A macropsia consiste em ver os objetos de um tamanho maior do que realmente são. A micropsia, por sua vez, consiste no oposto, ou seja, vemos os objetos menores do que realmente são.

A desrealização também da origem a distorções auditivas, silenciando ou acentuando as vozes ou os sons. Para realizar o diagnóstico desse transtorno é preciso a existência de um mal-estar clinicamente significativo ou um comprometimento no âmbito social, profissional ou em outras áreas importantes.

É preciso deixar claro que, para que se diagnostique esse transtorno, as alterações citadas anteriormente não podem ser fruto do consumo de drogas, medicamentos ou de uma doença (como a epilepsia). Essas alterações também não devem ser um critério de esquizofrenia, transtorno de pânico, depressão maior, transtorno de estresse agudo ou transtorno do estresse pós-traumático.

Quais outras características as pessoas com transtorno de despersonalização/desrealização apresentam?

As pessoas com transtorno de despersonalização/desrealização podem ter dificuldades para descrever seus sintomas e podem pensar que estão loucas ou ficando loucas. Outra experiência frequente é o medo de sofrer uma lesão cerebral irreversível.

Um sintoma comum é a alteração subjetiva da noção de tempo (por exemplo, muito rápido, muito lento), assim como uma dificuldade também subjetiva para se lembrar vividamente das memórias do passado e para ser dono das mesmas.

Os sintomas corporais tênues, como a saturação, o formigamento ou a sensação de desmaio também são frequentes. Essas pessoas podem sentir uma preocupação obsessiva com o fato de se realmente existem ou se controlam suas percepções para determinar se são reais.

Além disso, não é raro encontrar nas pessoas que sofrem episódios de despersonalização diferentes graus de ansiedade ou depressão. Algo curioso que se observou é que essas pessoas tendem a reagir fisiologicamente de forma mais intensa aos estímulos emocionais. Essas mudanças fisiológicas ocorrem pela ativação do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal, o lóbulo parietal inferior e os circuitos do córtex pré-frontal límbico.

Imagens borradas difíceis de enxergar

Como se realiza o diagnóstico do transtorno de despersonalização/desrealização?

Segundo o manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-V), a pessoa diagnosticada com transtorno de despersonalização/desrealização tem que obedecer os seguintes critérios de diagnóstico:

A. Presença de experiências persistentes ou recorrentes de despersonalização, desrealização ou ambas:

  • Despersonalizacão: Experiências de irrealidade, distanciamentos ou ser um observador externo em relação aos pensamentos, aos sentimentos, às sensações, ao corpo ou às ações da própria pessoa.
  • Desrealização: Experiências de irrealidade ou distanciamento em relação ao meio (por exemplo, as pessoas ou os objetos são sentidos como irreais, como em um sonho, nebulosos, sem vida ou visualmente distorcidos).

B. Durante as experiências de despersonalização ou desrealização, as provas de realidade se mantêm intactas.

C. Os sintomas provocam desconfortos clinicamente significativos ou comprometimento social, profissional ou em outras áreas importantes.

D. A alteração não pode ser atribuída aos efeitos fisiológicos de uma substância (por exemplo, drogas, remédios) ou outra doença (por exemplo, a epilepsia).

E. A alteração não pode ser melhor explicada por outro transtorno mental, como a esquizofrenia, o transtorno de pânico, o transtorno depressivo maior, o transtorno do estresse agudo, o transtorno do estresse pós-traumático ou outro transtorno dissociativo.

Como se desenvolve e qual é o andamento do transtorno de despersonalização/desrealização?

Em média, o transtorno de despersonalização/desrealização começa a se manifestar aos 16 anos, embora possa começar no início ou no meio da infância. Na verdade, a maioria das pessoas diagnosticadas se lembra de ter sentido sintomas já nessa fase.

Mais de 20% dos casos aparece depois dos 20 anos e apenas 5% depois dos 25 anos. O aparecimento na quarta década da vida ou mais tarde é bastante incomum. O início pode ser extremamente repentino ou gradual. A duração dos episódios de despersonalização/desrealização pode variar amplamente, desde breves (horas ou dias) até prolongados (semanas, meses ou anos).

Dada à raridade do início do transtorno após os 40 anos de idade, nesses casos podem existir condições médicas subjacentes. Essas condições podem ser lesões no cérebro, transtornos convulsivos ou apneia do sono.

O andamento da doença é muitas vezes crônico. Enquanto em algumas pessoas a intensidade dos sintomas pode aumentar e diminuir consideravelmente, outras fazem referência a um nível constante na intensidade que, nos casos extremos, pode ser recorrente por anos ou décadas. Por outro lado, o aumento da intensidade da sintomatologia pode ser causado pelo estresse, pela deterioração do humor ou dos sintomas de ansiedade, por novas circunstâncias estimulantes e por fatores físicos, como a iluminação ou a falta de sono.

Como sempre gosto de dizer, nem todas as pessoas que apresentam alguns desses sintomas vão desenvolver o transtorno. Contudo, se os sintomas citados estão presentes na maior parte do tempo e interferem gravemente na sua vida cotidiana, pode ser necessário procurar um psicólogo especialista com o objetivo de ter sua situação analisada.

Rosto de uma mulher

Referências bibliográficas:

  • American Psychiatry Association (2014). Manual diagnóstico y estadístico de los trastornos mentales (DSM-5), 5ª Ed. Madrid: Editorial Médica Panamericana.