O trem "ser feliz" não passa pela estação "ser o melhor"

O trem “ser feliz” não passa pela estação “ser o melhor”

abril 23, 2017 em Psicologia 761 Compartilhados
O trem 'ser feliz' não passa pela estação 'ser o melhor'

Ser o melhor se transformou, nesta sociedade em que vivemos, em um dos objetivos mais importantes de praticamente qualquer pessoa. Desde crianças começam a avaliar com notas numéricas nosso desempenho em diferentes áreas, sem considerar se gostamos ou não do que estamos fazendo.

Aquele que consegue tirar dez ou nove em quase tudo se transforma no “melhor” e isso o leva a ganhar, merecidamente, a aceitação e o aplauso dos que estão ao seu redor.
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O normal é que essa aprovação dos outros o faça se sentir muito bem consigo mesmo. Quem não gosta de ter seus méritos reconhecidos e de ser valorizado por aquilo que alcançou?

Muito pelo contrário, aquele que não se sai bem naquilo em que todo mundo deveria ser bom ou muito bom acabará atraindo o desprezo dos seus colegas, dos professores, e inclusive dos próprios pais. Progenitores que reprimem ou impõem castigos a seus filhos: não tendo conseguido ser o melhor, nunca poderá se transformar em um “homem proveitoso”.

Ser o melhor para ganhar autoestima

Quando conseguimos ser os melhores, normalmente somos inundados por um sentimento de plenitude. Ser o número um nos faz ganhar autoestima, pois como comentamos anteriormente, estar no mais alto patamar provoca a admiração dos outros, assim como outras consequências positivas externas que apreciamos muito. Às vezes, inclusive, exageradamente.

Quando mencionamos essas consequências positivas externas nos referimos à fama, ao sucesso, ao dinheiro… coisas às quais a nossa sociedade dá um valor desmedido e pelas quais teremos que lutar vorazmente, custe o que custar.

Todo mundo quer conseguir ser o melhor naquilo que faz, porque senão, que sentido tem? – nos perguntamos com frequência.
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Neste sentido, surge a armadilha da autoestima. Quando falamos de autoestima nos referimos à própria autoestima, isto é, ao amor que temos para com a nossa própria pessoa, nosso ser. Muitas vezes associamos esse amor a nós mesmos com certas características externas, de modo que criamos uma autoestima dependente.

Gostamos de nós e nos admiramos se formos belos, altos, magros, cultos, com trabalho, com relacionamento amoroso… ou sendo os melhores em tudo o que fazemos. Portanto, nos odiamos, censuramos e machucamos se não temos tudo o que acabamos de enumerar.

Por isso não faz sentido querer ganhar autoestima fazendo a típica lista terapêutica das “minhas virtudes e conquistas” já que isso não tem por que fazer com que você se ame mais.
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Ser o melhor, o mais trabalhador, o mais belo, o mais simpático, o número um da turma, etc., é apenas fumaça. Não tem valor em si mesmo e serve muito menos do que pensamos. O que acontece é que nos levaram a acreditar que ser o melhor é a melhor coisa que existe, e infelizmente quase todos nós acreditamos nisso.

Não se ganha mais autoestima por ser melhor do que outra pessoa, nem se é mais feliz por isso. Se assim fosse, não conheceríamos tantos casos de pessoas de sucesso, com sua fama, com dinheiro, atraentes… que confessaram ser muito infelizes e cujas vidas acabaram com um final precipitado pela tragédia.

Quantos atletas famosos acabaram no mundo das drogas porque não podiam suportar as exigências – próprias e de seus treinadores – às quais se sentiam submetidos? Quantos atores, cantores ou artistas não acabaram com suas próprias vidas ou acabaram sendo vítimas dos seus próprios maus-tratos?

Ser o pior e, ainda assim, se aceitar

Querer ser o melhor, como vimos, só serve para administrar uma boa dose de ansiedade a si mesmo. A cultura do esforço, de ganhar a vida com suor e lágrimas, criou uma multidão de pessoas infelizes. Espíritos que querem alcançar essa suposta meta que criaram e que não precisariam alcançar, já que não somos obrigados a isso, e ela não irá adicionar fichas na nossa carteira de felicidade.

Além de ansiedade, querer ser o melhor também pode nos fazer mergulhar na mais profunda depressão, se não conseguirmos chegar a ser tudo que almejamos.
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No fim das contas, a única coisa que conseguimos é que a nossa felicidade e o nosso amor próprio estejam em função do exterior, e não surjam do nosso próprio interior. Portanto, se quisermos parar de ser participantes dessa ideia irracional, podemos começar a praticar a aceitação incondicional. Aceitação e autoestima podem até ser parecidas, mas são conceitos diferentes.

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A aceitação sadia não depende de ser melhor ou pior, mais belo ou mais feio, mais inteligente ou menos. A aceitação consiste em se amar, se cuidar, se paparicar, independentemente do que você é ou alcançou. Simplesmente gostamos de nós mesmos porque somos pessoas valiosas desde que nascemos.

Nada exterior pode dar mais ou menos valor a um ser humano, porque as pessoas não se medem de forma quantitativa. Não temos uma regra para medir o valor de ninguém, de modo que todas as opiniões que fazemos de nós mesmos e dos outros são fruto da cultura: uma coisa social, mas não é real.

Convido você a fazer a seguinte reflexão: imagine ser o pior em alguma coisa – no seu trabalho, na sua turma, o que menos ganha no seu grupo de amigos – e se sentindo apesar disso, muito feliz, muito satisfeito consigo mesmo. Isto é possível, não é mesmo? Pois se com a sua imaginação você é capaz de se colocar nesse lugar, agora você pode começar a se mexer em direção a ele. Já antecipo que será um caminho de maravilhosas descobertas!

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