Com a venda dos olhos fiz um laço no cabelo

· fevereiro 4, 2017

De uma forma ou de outra, em algum momento da vida, todos nós acabamos tirando a venda dos olhos e fazendo um laço no cabelo. Porque afinal de contas, dessa forma o nosso rosto parece mais bonito, o olhar mais livre, bem iluminado e desperto para descobrir a realidade como merece, sem véus.

Como disse Ortega y Gasset: “O amor é uma espécie de imbecilidade transitória, um ‘branco’ mental e uma angina psíquica”. É possível que o famoso filósofo, ansioso para encontrar uma explicação para os afetos humanos, não conseguisse ver alguma lógica na paixão e nessa “cegueira” que muitas vezes nos aprisiona como um doce sonho. No entanto, muito além do que podemos pensar, os afetos têm uma lógica e muito sentido.

“O amor e o ódio não são cegos: são dominados pelo fogo que carregam dentro de si”.
 – Friedrich Nietzsche –

O Dr. Robert Einstein, da Universidade de Harvard, nos diz que viver por um tempo com uma venda nos olhos, seja em nossos relacionamentos ou outras dinâmicas pessoais, faz parte do nosso crescimento psicológico e emocional. Portanto, não devemos nos arrepender deste período, de todas as energias investidas, dos sonhos ou das emoções experimentadas. Isto significaria renegar uma parte de nós mesmos.

Na verdade, o amor não é cego, o que acontece é que, às vezes, vê mais do que deveria: são miragens e imagens distorcidas que não correspondem à realidade. Nós sabemos que ver a vida através do coração, muitas vezes, tem seu preço. Mas isto é uma outra parte de nosso aprendizado de vida. Algo que nunca iríamos aprender se nos recusássemos a amar, provar, experimentar e dar esses saltos no vazio sem paraquedas, onde às vezes acertamos, e outras vezes nos machucamos.

Vamos refletir sobre isso?

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A venda dos seus olhos, essa que você já deixou cair mais de uma vez

Nós já removemos essa venda dos olhos mais de uma vez. Ao invés de fazer um laço definitivo com ela para avançar com o rosto livre e os olhos abertos, voltamos a cometer os mesmos erros do passado; ou seja, amamos cegamente, confiamos às escuras, tateando e deixando nossos corações “nas mãos” dos outros. Por quê? Por que em algumas ocasiões nos tornamos reincidentes do amor cativo e doloroso?

“O amor, por ser tão cego, impede que os amantes vejam as bobagens que cometem”.
 – William Shakespeare –

Os reféns do amor doloroso, aqueles que estão sempre sofrendo por amor, padecem de uma doença bastante comum: a falta de autoestima. O mundo não está estrategicamente organizado para que nos encontremos constantemente com “pessoas más”, com traficantes do egoísmo e agressores do equilíbrio emocional. Somente quando tivermos muito claro o que realmente precisamos ou não, seremos mais seletivos, mais cautelosos e receptivos. Porque quando você sabe o que quer, encontra o que merece.

De acordo com um estudo publicado pelo Instituto Nacional de Estatísticas do Reino Unido, as pessoas declaram encontrar o que sempre esperavam após os trinta anos e, especialmente, após os quarenta anos. É quando você se sente mais confiante e capaz de integrar a experiência de relacionamentos passados, com a serenidade de um presente onde nada falta e nada é supérfluo.

Nessa fase, olhamos para algo mais do que o encantamento ou a paixão; procuramos o amor, a autorrealização com um companheiro com o qual tenhamos um projeto em comum para investir com maturidade e honestidade.

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Ame com os olhos abertos e o coração protegido

A maioria dos biólogos evolucionistas acredita que esse caos emocional que nos coloca uma venda nos olhos, que nos aprisiona, que acelera o nosso coração e nos leva a labirintos tão escuros quanto apaixonantes, tem um propósito: a procriação. De acordo com esta abordagem, os nossos genes nos predispõem a isso quando nos apaixonamos: os neurônios-espelho nos conectam e explodem instantaneamente em nossos cérebros genuínos fogos de artificio coloridos que são a dopamina, a testosterona, a vasopressina, a oxitocina e a serotonina … Tudo isso acelera mais ainda a atração.

O amor é cego e a loucura o acompanha. 

Além disso, outro aspecto que destacamos é que a paixão coloca em “stand by” alguns processos tão importantes como o senso de discriminação, a análise lógica, ou até mesmo, em certo sentido, o senso de julgamento. Nossa mente adquire uma forma de “túnel” onde se concentra o que é importante, o nosso parceiro afetivo.

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Amor sem vendas, paixão com véus

Erich Fromm disse acertadamente que existem pessoas “viciadas em se apaixonar”. Elas se encantam com esse amor cego, borbulhante e quase anestésico. No entanto, quando chega a fase de maturidade, na qual trabalhar as diferenças, aceitar as defeitos e estabelecer um projeto em comum são prioridades, esse relacionamento termina.

  • Este autor estabelece no livro “A arte de amar” que a verdadeira sabedoria, a verdadeira plenitude afetiva, não está na paixão, está no amor. Porque quando nos apaixonamos, gostamos dessa conexão profunda, dessa intimidade onde se entrelaçam a loucura e a paixão mais intensa.
  • Sem dúvida, tudo isto é muito positivo, mas a verdadeira felicidade vem mais tarde, com esse amor atencioso, que ouve, que está consciente dos defeitos da outra pessoa, das suas imperfeições. A pessoa madura é alguém com os olhos abertos e o coração protegido: vê as coisas como elas são e decide lutar por elas para ser um farol de luz intensa nesse amor.

Se até hoje você não encontrou uma pessoa assim, não tenha pressa. Basta tecer as suas tristezas, fazer um laço no cabelo e olhar para o mundo com a certeza de que, no momento certo, encontrará o que você realmente merece.