Violência Gratuita: cúmplices passivos da violência?

25 Agosto, 2020
'Violência Gratuita' é um filme de Michael Haneke que nos confronta com um novo tipo de violência. É um thriller psicológico que envolve o espectador na agressão a um casal e seu filho em uma casa de férias.
 

Violência Gratuita é um filme norte-americano de Michael Haneke e uma réplica totalmente fiel da versão austríaca lançada em alemão com o mesmo título e diretor em 1997. O filme fala sobre a agressão perpetrada por dois jovens a uma família de férias.

Poderia ser um thriller violento como qualquer outro, mas não é a trama que torna Violência Gratuita especial. É a lição que se quer mostrar aos espectadores, criticando o massivo entretenimento violento e insípido de muitas produções cinematográficas que invadem nossas casas.

Violência Gratuita critica o entretenimento vulgar e violento, uma espécie de tratamento para um público obcecado pelo consumo casual de imagens de sofrimento.

Violência Gratuita (tanto na versão austríaca quanto no remake americano) visa fazer o espectador entender até que ponto ele é cúmplice habitual da violência da qual é testemunha, no seu ambiente ou como espectador de cinema.

Violência Gratuita: uma história de violência pouco convencional

O filme começa com Ann e George (Naomi Watts e Tim Roth) dirigindo pelo país rumo a uma casa de veraneio com Georgie (Devon Gearhart), filho do casal. Durante a viagem no Land Rover da família, eles ouvem um CD de ópera. Ao chegar, rebocam um encantador veleiro de madeira.

Enquanto eles se acomodam na casa de férias, dois jovens que falam bem, mas são estranhos, aparecem à porta. Como ambos têm modos impecáveis ​​e aparentemente são membros do clube de brancos ricos, conseguem ter fácil acesso à casa. E aqui começa o pesadelo.

 

A família é confrontada por dois jovens sociopatas com uma boa oratória que, na noite seguinte, os atormentam com uma faca, uma arma, um taco de golfe e bons modos impecáveis.

Os dois se dirigem um ao outro de maneiras diferentes. Às vezes como Peter e Paul, outras como Tom e Jerry ou Beavis e Butt-Head. Eles são interpretados por Michael Pitt e Brady Corbet.

Quem são esses sociopatas?

Peter e Paul funcionam sem um motivo ou afeto identificável. Quando George, o pai, pergunta a um deles por que ele está sendo tão cruel, o personagem dá respostas que parodiam o tipo de história fácil que o espectador espera.

Faz alusão à sua infância infeliz, a uma instabilidade sexual, ao ressentimento de classe ou à falta de educação. Tudo é típico, esperado e não explica nada. Nessas situações, Haneke ri dos argumentos simples para explicar a psicologia dos personagens usados pela mass media.

Peter e Paul usam luvas brancas imaculadas enquanto executam seus terríveis atos. Em algumas ocasiões, o Sr. Pitt se dirige ao público diretamente, zombando de nós por apoiarmos a sobrevivência de Anne e George.

No filme, pequenas alusões são feitas à cumplicidade que o espectador vai adquirindo com a trama violenta que se desenrola.

Há piscadelas explícitas dos atores para a câmera enquanto manipulam as vítimas em um macabro jogo na tela. A recriação de uma cena comum na cozinha imitando o que muitos de nós fazemos ao consumir cinema violento o transforma em algo leve.

 

“Por que você não mata a gente e acaba logo com isso?” expressa o personagem maltratado de George. Resposta do torturador é: “Mas aí o que seria do entretenimento?”. Enquanto isso, nós estamos envolvidos neste horrível espetáculo.

O que Violência Gratuita procura?

Michael Haneke é um diretor de cinema de nacionalidade austríaca que nos deixou acostumados com histórias pouco convencionais, com um entretenimento ligado a todo momento à reflexão de suas sequências.

A violência de Haneke não é divertida, nem elegante, nem sexy, nem mesmo particularmente dramática, é simples e implacavelmente desagradável. Não há nem mesmo desenvolvimentos reais da trama para dispersar ou desviar a agonia.

O objetivo de Violência Gratuita é nos confrontar com nosso gosto hipócrita pela violência da Hollywood moderna em seus diversos gêneros. Vemos a violência na tela como algo distante, passageiro, alheio ao nosso cotidiano.

O filme mostra que não existe perfeição familiar, residencial ou profissional que nos afaste suficientemente de uma situação de perigo. Não estamos preparados para reagir diante do que seríamos tremendamente vulneráveis, humanos. Nada a ver com a perfeição hollywoodiana.

Cena do filme 'Violência Gratuita'
 

Nossa ingenuidade e cumplicidade com a absurda violência sensacionalista do cinema

Haneke quer colocar a nós, os espectadores, em evidência, e tenta realizar seu desejo ao se antecipar às conclusões das nossas reflexões. Comprovar como todas as nossas deduções parecem ser mais um produto de “árduos” anos passados assistindo a um cinema de natureza violenta com recorte comercial.

É por isso que o filme nos engana, principalmente com as pistas que acreditamos que serão relevantes para que a família se “liberte” do drama que está vivendo. Pistas ou indícios que costumam estar associados a outros filmes de violência. Nada poderia estar mais distante da realidade, pois essas pistas não adquirem relevância ao longo do filme.

O fim dos mitos

As agressões não são lógicas ou esperadas. Os papéis de gênero se invertem, a fuga do local dos acontecimentos não é heroica e o fim dos personagens também não é carregado de mistério. A fuga, algo que sempre proporciona muitos acontecimentos ao longo da trama, é absolutamente impedida e atacada desde o início.

É violência seca, sem adornos, sem encenações desnecessárias na tela. É uma violência recriada em nossa psicologia justamente porque a desafia com base no que a mídia nos mostra.

Violência Gratuita é imperdível se você quer desafiar seus padrões cinéfilos habituais e dispensável se o que você deseja é consumir cinema com uma dose de violência em seu papel de espectador comum.