Virginia Woolf: a biografia de um trauma silenciado

abril 6, 2019
A vida de Virginia Woolf é um reflexo dos silêncios nocivos que tentaram esconder até hoje: o horror e as consequências devastadoras do abuso sexual em crianças. Uma mulher de grande talento, destruída pelo silêncio.

Hoje falaremos sobre a vida trágica e o trabalho brilhante de uma das mais importantes autoras do século XX e uma das grandes renovadoras do romance moderno. O nome desta magnífica escritora está no nível de outros grandes como James Joyce, Franz Kafka ou Thomas Mann. Ela inovou em seus trabalhos com o uso da profundidade do monólogo interior, um recurso literário que conseguiu aperfeiçoar e que nos mergulha nos pensamentos mais íntimos dos seus personagens. Falamos sobre a fascinante Virginia Woolf.

Sua vida foi um reflexo dos silêncios nocivos que tentaram esconder. Algo que acontece até os dias atuais: o horror e as consequências devastadoras do abuso sexual em crianças. Dessa forma, a sua história terrível ficou manchada por uma névoa absurda. Diziam que Virginia Woolf havia herdado uma doença mental.

Já foi dito também que ela era sensível demais aos choques normais da vida. Ainda hoje, permanece a ideia de que o abuso sexual incestuoso de que foi vítima desde criança não foi a origem das psicoses sofridas durante a sua vida, e que essa não foi a razão pela qual ela acabou cometendo suicídio. Felizmente, podemos dizer que tudo isso era falso. A origem da doença de Virginia Woolf foi o abuso sexual e psicológico sofrido desde muito pequena.

Junte-se a nós para descobrir a vida e o trabalho de uma mulher revolucionária; de uma mulher que conseguiu colocar um homem na pele de uma mulher com a obra “Orlando”, e que se atreveu a reivindicar o seu direito de ter um espaço próprio.

Infância

A pequena Virginia Woolf nasceu em Londres em 25 de janeiro de 1882, fruto de um casamento complicado, mas bem relacionado. No entanto, quando ela chegou ao mundo, seus pais já tinham vários filhos mais velhos de casamentos anteriores. O seu pai era um famoso editor, crítico e biógrafo.

Virginia não se lembrava de um único dia em que sua a mãe tivesse lhe dado atenção ou ficado junto com ela por um momento. O seu pai era uma figura intimidadora para ela. Dessa forma, a sua casa de infância, apesar de ser um ponto de encontro do melhor da literatura da época, era para Virginia uma prisão.

A morte prematura de sua mãe, de uma de suas irmãs e, mais tarde, de seu pai, marcaram Virgínia profundamente. A perda de entes queridos é sempre traumática, mas neste caso, o seu pai proibiu os membros da família de falarem sob qualquer circunstância daqueles que haviam morrido. Começou, assim, a se forjar uma terrível mordaça para a jovem Virginia, que foi forçada desde os seus primeiros anos a não expressar qualquer emoção.

Virginia woolf com o pai

Idade adulta

Após a morte de seu pai, ela foi morar com os seus irmãos e irmãs. Neste momento, ela começou a sofrer surtos psicóticos complexos que conseguia superar momentaneamente, mas que voltavam a se repetir.

A sua nova residência em Bloomsbury tornou-se o ponto de encontro de antigos colegas de universidade de seu irmão mais velho. Entre eles estavam intelectuais da estatura de Bertrand Russell. Todos eles formavam um grupo de romancistas, poetas e pintores, que seriam conhecidos como o círculo de Bloomsbury. Lá, ela conheceu aquele que, mais tarde, se tornaria o seu marido: Leonard Woolf.

Virginia Woolf se casou aos trinta anos de idade. Nessa época, já havia passado por várias crises nervosas que eram seguidas de estados depressivos profundos. O seu marido mantinha um diário dos seus estados emocionais. No entanto, Virginia encontrou na literatura um refúgio para dar vida às suas experiências horríveis e a suas emoções reprimidas.

A relação com o seu marido era muito sólida. Juntos criaram em 1917 a editora Horgarth Press, que publicaria com sucesso os trabalhos de Virginia Woolf e de outros grandes autores como Katherine Mansfield, T.S. Eliot, Sigmund Freud e Laurens van der Post.

Os abusos sexuais e o suicídio de Virginia Woolf

Virginia Woolf começou a ser vítima de abusos sexuais e incestuosos aos sete anos de idade, nas mãos de seus dois irmãos, ambos quase vinte anos mais velhos do que ela. Isso já acontecia quando seus pais ainda estavam vivos. Embora Virgínia nunca tenha contado o crime atroz que sofria, é possível que todos soubessem do seu sofrimento.

Ela falou e escreveu abertamente sobre isso desde que tinha dez anos de idade. Foi um tipo de abuso tremendamente traumático, com e sem penetração, que durou até ela completar vinte e quatro anos. Um segredo conhecido, mas que todos ao seu redor ignoraram.

Virginia Woolf desenvolveu uma doença mental conhecida hoje como transtorno bipolar. Depois de terminar o manuscrito de seu último romance, Woolf caiu em uma depressão semelhante àquela que ela havia sofrido no passado. Além disso, o início da Segunda Guerra Mundial e a destruição de sua casa em Londres pioraram a sua condição, e ela se sentiu incapaz de trabalhar.

Despedida

Em 28 de março de 1941, Woolf vestiu o seu casaco, encheu os bolsos de pedras e se jogou no rio Ouse, perto de sua casa. Dessa forma, acabava com o seu sofrimento silenciando-se para sempre. Ela escreveu uma última carta ao marido dizendo:

“Eu sinto que vou enlouquecer. Acho que não podemos passar por um daqueles terríveis momentos novamente. E eu não conseguirei me recuperar dessa vez. Eu começo a ouvir vozes e não consigo me concentrar. Então, faço o que acho que é o melhor que posso fazer. Eu não posso mais lutar. Você vê que eu não consigo nem escrever isso corretamente. Eu não consigo ler. Eu perdi tudo, exceto a certeza da sua bondade. Eu não posso continuar arruinando a sua vida por mais tempo. Eu não acredito que duas pessoas poderiam ser mais felizes do que você e eu temos sido”.
– Virginia Woolf –

Virginia woolf adulta

A doença mental de Virginia Woolf

Atualmente, psicólogos, psiquiatras e educadores conhecem e compreendem as graves consequências psicológicas sofridas pelas crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual. Felizmente, muitos estudos acadêmicos endossam e confirmam, finalmente, que a causa da instabilidade emocional de Virginia foi o abuso sofrido nas mãos de seus dois meio-irmãos.

No entanto, isso aconteceu com o consentimento tácito das pessoas que deveriam tê-la protegido. Os abusos foram a causa real dos distúrbios mentais de Virginia Woolf, e não a herança de uma doença mental ou sua personalidade “fraca”.

Hoje, finalmente, podemos falar claramente sobre o abuso sexual em crianças. É necessário acabar de uma vez por todas com as tentativas perigosas de minimizar comportamentos e situações totalmente intoleráveis e injustificáveis.

Dessa forma, não há nenhuma razão convincente para supor que Virginia Woolf tenha herdado uma doença mental. É muito mais plausível supor que a responsabilidade pelos seus problemas emocionais deve ser assumida por aqueles que abusaram dela sexualmente e incestuosamente, e também por aqueles que permitiram que isso acontecesse.

A história de vitimização sexual de Virginia Woolf foi revista em formato de estudo de caso sobre o impacto do abuso sexual infantil no desenvolvimento humano. Muitos dos sintomas de saúde mental vivenciados por Woolf são consistentes com a literatura clínica de abuso sexual infantil. Compreender o caso clínico de Virginia Woolf é importante para clínicos e pesquisadores interessados na dinâmica do abuso sexual infantil.

Virginia Woolf: conclusão

Apesar da natureza trágica da sua vida, Virginia Woolf deixou uma marca importante na literatura e na luta das mulheres para obter a igualdade com os homens. Com o seu famoso ensaio ‘Um teto todo seu”, Woolf deixou claro o problema das mulheres. Nessa época não havia a independência financeira feminina. As mulheres precisavam da sua independência para ter o seu próprio espaço e, no caso de Virgínia, o seu próprio lugar para escrever romances com tranquilidade.

Com o romance Orlando, ela ousou colocar um homem na pele de uma mulher. Dessa forma, mostrou ao mundo como uma mesma pessoa poderia ter um caminho mais fácil sendo homem do que sendo mulher. Ela se atreveu a falar de tabus como a homossexualidade e a sexualidade. Outras de suas obras notáveis são As Ondas e Mrs. Dalloway.

Definitivamente, Virginia foi uma mulher castigada pelo seu tempo, pelo seu ambiente e pelo silêncio; que isso hoje nos sirva de exemplo: não devemos culpar a vítima e sim dar voz às pessoas que sofrem abuso.