Por que temos dificuldade de viver o aqui e o agora?

fevereiro 5, 2020
Por que temos tanta dificuldade de manter nossa mente no tempo e no lugar em que estamos? Mesmo quando sabemos como pode ser benéfico se conectar ao presente, surge uma resistência que dificulta essa conexão.

Carpe Diem, do grande poeta romano Quinto Horácio Flaco, significa algo como “aproveite o momento”, no sentido de não desperdiçá-lo. A frase completa no idioma original é “Carpe diem, quam minimum credula póstero” e sua tradução mais fidedigna seria algo como “Aproveite o dia, não acredite no amanhã”. No entanto, nós temos dificuldade de viver o aqui e o agora.

A priori, deixar o dia passar e esperar o amanhã é mais fácil do que “aproveitar o momento”. Mas o que realmente é isso? Algumas pessoas são incapazes de viver o momento, de se concentrar no agora. São viciadas no passado, perturbadas e mal-humoradas por causa dos seus pensamentos.

O pior de tudo isso é que não sabemos se, com a “civilização”, essa capacidade nos foi roubada. Se o selvagem é exatamente deixar de sentir para pensar. Por que temos dificuldade de viver o aqui e o agora? Isso tem a ver com a evolução humana?

Mulher vivendo o presente

Temos dificuldade de viver o aqui e o agora porque julgamos e somos julgados

Eckhart Tolle, em uma palestra magistral realizada em Barcelona, colocou em evidência essa desgraça do ser humano: estar preso às formas mentais, materiais e emocionais. Deixar de contemplá-las como algo passageiro para passar a se identificar com elas. Deixar de estar presente… para estar mentalmente satisfeito.

Isso não tem nada a ver com conformismo ou paralisia. É exatamente o oposto. Ninguém questiona que, nessa vida, é preciso “fazer coisas”.

O ponto crucial da questão é fazer coisas e estar presente com o que se sente, sem julgar ou se sentir constantemente julgado. Essa é a forma mais madura de compromisso e caráter.

 “A ação sempre ocorre no presente porque é a expressão do corpo, que existe somente no aqui e no agora. A mente espiritual é como um fantasma que sempre vive no passado ou no futuro. O único poder que tem sobre você é atrair sua atenção ao presente”.
-Sócrates-

Conectar-se com o presente: ausência de ego e culpa

Às vezes, deixar de estar preso às formas mentais é algo muito parecido com o contato agradável com um bebê, com a natureza ou com um animal. É apaixonante ver como uma pessoa emprega seu tempo com alguém que não a julga, mas também não a vangloria.

Algumas pessoas se desarmam, outras se armam. Há pessoas que relaxam e se conectam com o presente quando não se sentem julgadas.

Outras sentem que têm que continuar demonstrando algo, continuamente. Nesse último caso, além de um problema de contato com o presente, há um excesso de narcisismo e ego.

Ao primeiro tipo de pessoas, talvez falte uma boa companhia ou, simplesmente, evitar outras. O mais difícil é fazer com que a sua seja suportável sem um julgamento contínuo. Sem um sentimento de culpa por tudo o que fizeram ou vão fazer. Olhar a vida como espectador da sua mente e protagonista das situações.

Nós nos conectamos com o presente quando há uma aceitação radical dos estados mentais sem submissão moral nem intelectual a eles. Quando contemplamos as formas do mundo sem sentir que elas nos definem. Essa é a diferença entre o excesso de intelectualização e a verdadeira sabedoria.

Renunciar ao aqui e agora pelo desapego e a cultura ocidental

No Ocidente, é difícil entender o desapego. Nós nos negamos a deixar ir e nos apegamos.

Quando temos uma família, amigos e um(a) parceiro(a), achamos que vão durar para sempre. Sofremos, aconteça o que acontecer. E esse sofrimento nasce da nossa incapacidade de nos desapegar. De nos sentirmos livres e conectados com a dimensão presente.

Quando acreditamos que algo depende de nós continuamente ou que dependemos dos outros, conectar-se com o aqui e o agora é muito mais difícil.

 “Se você não obtém o que quer, você sofre.
Se obtém o que não quer, também sofre.
Mesmo se você obtiver o que quer, ainda vai sofrer porque não poderá ficar com o que obteve para sempre”.
-Sócrates-

Diante de uma morte, podemos levar meses ou anos para aceitar a partida de um ente querido, mesmo que esse seja o processo normal da vida. Tudo vai em direção à morte. Não é a morte que é triste e dolorosa, e sim a negação a aceitá-la como um processo normal da vida.

Saber ficar no aqui e no agora pela nossa saúde mental

Para nós, ocidentais que vivemos na era do consumismo e da produtividade a qualquer preço, essa busca pelo momento presente é praticamente um luxo. Quem tem tempo de diminuir a velocidade para apreciar a brisa da manhã ou o cheiro de grama molhada?

Todos nós temos a impressão de estar constantemente correndo. Para a maioria de nós, essa corrida se torna uma rotina que pesa.

Nossa vida diária está sem fôlego e sonhamos com o final de semana, com as próximas férias ou, até mesmo, com a aposentadoria. Vamos trabalhar pensando no jantar. O domingo está recheado de ansiedades que pertencem à segunda-feira.

Nosso presente parece tão chato e vazio que acabamos fugindo.

Será mais fácil viver o aqui e o agora se levarmos os nossos valores em consideração

Em uma sociedade que valoriza o rendimento, o conceito de “aqui e agora” pode surpreender. Pode, até mesmo, ser sinônimo de preguiça e descuido. Mas não se trata de uma filosofia barata.

O presente adquire sentido por meio do passado e do futuro. Não é uma foto estática, e sim parte de um filme. Devemos saber de onde viemos para tomar atitudes que vão construir o futuro. Podemos pensar nos problemas ambientais: agimos agora sabendo que nossas ações terão impactos no futuro.

Lutando contra a exaustão que nos obriga a parar, acabamos nos perguntando o que tudo significa. E, frequentemente, é isso o que falta em nossas vidas: um significado. É importante saber o que motiva nossas ações e escolhas.

Isso não significa que tenham que existir objetivos espetaculares. Dar sentido à vida é encontrar o que mais nos importa e, em seguida, trabalhar e agir de acordo com essa prioridade. Pode ser a família, o amor, nossos filhos.

Somente com um propósito claro, que faz sentido para nós, realmente poderemos tomar nosso tempo para saborear o caminho que leva a ele.

Jovem se conectando com o presente

Viva o agora para construir lembranças ligadas aos seus valores

Parando para aproveitar o momento, construímos lembranças felizes dos nossos sentidos. Alguns xamãs as chamam de “lembranças quentes”. Diferentemente das “lembranças frias”, construídas com o nosso intelecto, essas lembranças são indeléveis e se transformam em uma fonte de consolo.

Se nosso poço estiver vazio, se não tivermos tomado nosso tempo para aproveitar os pequenos momentos de felicidade em nossas vidas porque estávamos muito ocupados, teremos a impressão de que nossas vidas carecem de conteúdo. As “crises dos quarenta” são, muitas vezes, o resultado dessa observação.

Por que às vezes desistimos de viver no aqui e no agora?

Sentir-se vivo e saudável, aqui e agora, pode ser uma fonte de alegria. Mesmo assim, é necessário parar para apreciá-la. O conselho da autora Sarah Ban Breathnach é manter um diário e escrever, todas as noites, cinco coisas pelas quais você se sente grato. Nós percebemos que somos muito mais ricos do que pensamos.

Fomos massacrados com frases como “seu presente depende do seu passado”, “construir um bom futuro só depende de você”, que relacionam o valor do presente com a inutilidade, a invisibilidade ou, até mesmo, a inatividade.

Uma pessoa que não pensa em ter uma boa história passada e um futuro promissor está perdida. Em algumas pessoas mais vulneráveis, essas mensagens se cristalizam em forma de ansiedade, hiperatividade ou depressão.

A culpa causa muito mais inquietação do que o pecado, e o futuro que você tanto temia já chegou e tudo continua sem nenhuma catástrofe. Então, viva o presente. Comprometa-se de verdade com alguma coisa, abandone as formas mentais.

A única maneira de curar é dar espaço a tudo o que acontece em sua vida com uma atitude presencial, de alerta e interesse pelo momento presente, assumindo que nada realmente é tão terrível quando você entra em contato com a terra.

Em muitas situações, as coisas ruins só acontecem em nossa mente, presa no mundo das formas sociais e não no fundo do ser com seus sentidos abertos.