Viver sem alegria: quando normalizamos o desânimo

Viver sem alegria não é viver, é sobreviver. Quando normalizamos uma vida sem aqueles sonhos que fazem cócegas na alma e no coração, nos limitamos a navegar no desânimo, nessa superfície onde os sonhos e as segundas chances já não cabem.
Viver sem alegria: quando normalizamos o desânimo

Última atualização: 18 Julho, 2021

Viver sem alegria é como existir sem sentir as batidas do próprio coração, o impulso das expectativas, a força da esperança diária. Muito além do que podemos acreditar, há muitas pessoas que normalizam essa deficiência, limitando-se ao desânimo crônico. Elas sabem que algo está faltando, mas, no final, muitos se acostumam com esse vazio, talvez supondo que haja trens que não tornarão a passar ou para os quais não terão o bilhete de embarque.

A alegria é um sentimento que nem sempre é bem compreendido. Nós a associamos com a efusividade emocional, o riso, o movimento e a conexão com a nossa família e amigos por meio de momentos agradáveis. Agora, é importante ressaltar que essa dimensão tão humana vai muito além disso.

Johnmarshall Reeve, professor de psicologia positiva da Universidade de Melbourne, explica em seu livro – Motivação e Emoção – que alegria é sinônimo de bem-estar psicológico. Podemos vivê-la diariamente de forma simples, basta desfrutar do que fazemos, do que somos e do que temos. Graças a esse sentimento, a nossa memória melhora, cuidamos da nossa flexibilidade cognitiva e até incentivamos a criatividade e moldamos soluções mais inovadoras para os problemas.

O que acontece, então, quando essa dimensão está em falta? O que acontece quando não sentimos mais alegria? Basicamente, abandonamos uma parte essencial de nós mesmos, onde estão reunidas a autoestima, a identidade e a nossa capacidade de sermos felizes.

“Os melhores médicos do mundo são: Dr. Alegria e Dr. Tranquilidade”.
– Jonathan Swift –

Rapaz triste olhando pela janela

Viver sem alegria, uma doença silenciosa

Há um velho ditado que diz que a alegria é o ingrediente principal do composto da saúde. Não é um erro. Há pouco tempo foi publicada a pesquisa Gallup sobre o estado emocional da população mundial, onde países como Estados Unidos e Grécia, por exemplo, revelaram que mais de 50% de sua população se sente estressada, ansiosa e com a sensação clara de ter perdido a alegria.

Além disso, um terço da população nessas regiões relata sentir raiva e irritação constantes. Tudo isso prejudica a saúde. Esse nível de estresse e essa insatisfação emocional muitas vezes se traduzem em problemas cardiovasculares, um sistema imunológico enfraquecido, doenças psicossomáticas, etc.

Viver sem alegria não é um bom cenário para o bem-estar humano e, no entanto, parece que a cada dia essa falta se torna mais evidente. Agora, qual é a razão por trás desta realidade psicológica tão impactante? A pesquisa Gallup sugere que existem vários elementos que contribuem para esse fato.

Dimensões ‘macro’ que fazem uma sociedade viver sem alegria

O termo “macro” se refere à entidade mais ampla que abrange a esfera social, política e econômica. Essas macroestruturas, gostemos ou não, têm um impacto direto sobre nós. E fazem isso de diferentes maneiras:

  • Limitando nosso senso de liberdade.
  • Vetando o nosso progresso pessoal, dificultando o acesso a empregos de qualidade, moradia e a nossa realização.
  • Gerando desconfiança. Hoje, a população não confia mais nos políticos ou na economia. A incerteza parece permear tudo.

Dimensões ‘micro’, quando você é responsável pelo seu próprio bem-estar

Viver sem alegria responde, na maior parte, a esses processos ‘micro’ em que nós próprios somos os únicos responsáveis.

  • Perdemos o impulso dos sonhos e a efusividade pela vida quando não temos ferramentas para administrar o desânimo, quando permitimos que o estresse assuma o controle total.
  • Você abandona a sua alegria quando opta por se posicionar na imobilidade. Quando não reage ao que não gosta. Quando não se atreve a promover mudanças no momento em que surgem a infelicidade, a frustração e a decepção.
  • A alegria se apaga quando convivemos com pessoas que limitam o nosso crescimento pessoal, onde o carinho não é sincero, onde não há respeito ou não se cria uma sensação de bem-estar ao compartilhar a vida, espaços ou projetos comuns.
  • Fatores como solidão, falta de propósitos, de esperança, além da baixa autoestima, também influenciam esse sentimento.
Casal em relação tóxica

O que podemos fazer para recuperar a alegria?

Viver sem alegria é nos limitarmos a sobreviver com muita dificuldade, sem entusiasmo, motivação, energia… Esses estados, sem dúvida, podem nos levar à frustração, aquele sentimento intermediário entre a raiva e a tristeza que tanto custa administrar. Ninguém merece esse tipo de realidade.

  • Para enfrentá-lo, um primeiro detalhe. Vamos assumir que, de certa forma, não podemos fazer nada sobre as condições “macro”. A economia, a política, os assuntos sociais nem sempre estão sob o nosso controle. No entanto, a dimensão ‘micro’ nos pertence, somos os donos e senhores dos microuniversos pessoais onde podemos fazer pequenas mudanças que se revertam para o nosso bem-estar.
  • A alegria pode ser recuperada assumindo novos objetivos, mudando cenários e até mesmo pessoas. O ser humano pode recomeçar quantas vezes julgar necessário, e a cada mudança deve se aproximar da sua melhor versão, para se sintonizar com as suas verdadeiras necessidades e objetivos vitais.
  • A alegria não chega com um prêmio de loteria nem depende de bens materiais. A alegria é, antes de tudo, a satisfação pessoal, o bem-estar que surge quando fazemos o que gostamos, quando a autoestima é forte e continuamos a manter a curiosidade e a capacidade de assombro de uma criança.

Por último, mas não menos importante, devemos lembrar que esse sentimento cresce e se expande quando nos sentimos apoiados e amados, quando encontramos pessoas agradáveis que facilitam a convivência. Não hesitemos, portanto, em promover as mudanças que julgarmos necessárias para tentar fazer com que este sentimento essencial encontre morada dentro de nós.

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