Você não quer me matar, uma história sobre a empatia

09 Maio, 2020
Olhe nos meus olhos e diga se eu realmente deveria morrer. Qual é a sensação de saber que você vai me matar? Eu sei que você não quer fazer isso. Transforme tudo isso em uma história sobre a empatia. Está nas suas mãos reescrever esse final.
 

Olhe nos meus olhos e diga se eu realmente deveria morrer. Você sabe que não quer me matar. Você poderia usar seu trabalho como carrasco para escrever uma história sobre a empatia que sente nesses momentos. Quando a ler dentro de alguns anos, certamente vai se surpreender. Imagino que você sabe o que é a empatia. Sim, com certeza você sabe.  Tente se colocar no meu lugar e tente imaginar o que alguém que está prestes a morrer pode sentir. 

Vamos, olhe para dentro de si, pense que eu posso ser seu irmão, que você poderia ser eu. Responda: o que justifica a minha morte? Você aponta o cano de uma arma que nem é sua na minha direção. Disseram para você me matar e você não pensa duas vezes. Ou é isso que parece. Mas eu sei que você pensa. Você não quer me matar, não quer acabar com a minha vida.

Podemos ser diferentes, mas você sabe que isso não é motivo suficiente para me executar. Meu corpo vai acabar no chão expelindo um rastro de sangue, enquanto você vai jantar com sua família. Você vai saber que matou um homem inocente e, mesmo assim, conseguirá comer. Mas eu sei que por dentro você está sofrendo.

Na sua história sobre a empatia, você pode falar sobre Robert Vischer. Sabe quem ele é? Ele foi um filósofo alemão do século XIX que utilizou pela primeira vez o conceito de empatia, embora a palavra alemã que ele usou fosse traduzida como ‘sentir-se dentro de’. Interessante, não é?

Uma história sobre a empatia

Eu não tenho escolha, mas você tem. Você pode me deixar fugir e ninguém vai ficar sabendo. Eu irei para longe com a minha família, para além dessas fronteiras. Diga para mim, o que você ganha com a minha morte? O que você ganha ao me dar um tiro na cabeça? Nada, você não ganha nada. Talvez você pense que é um bom soldado, mas quem vai me matar, no fim das contas, é você.

 

Eu gostaria de pensar que se a ordem fosse para que você se jogasse no inferno, você não a obedeceria. Eu tento pensar que seu julgamento pode direcionar suas ações. Que existe uma possibilidade, mais ou menos remota, de que você siga esse pensamento ao qual chegou refletindo sozinho.

Sombra de homem andando sozinho

Quem é o seu superior? O que ele te contou sobre mim? O que você sabe da minha vida? Eu vou dar algumas informações para quando você for escrever sua história sobre a empatia. Você sabe que eu tenho uma filha de cinco anos e um filho de três? Eles são lindos. Minha filha, Luisa, sempre sobe na minha cama de manhã e me acorda mexendo no meu cabelo. Ela me diz que o papai dorme muito. Meu filho, Marco, ri muito com a irmã. E agora você vai deixá-los sem pai. Eu nunca mais vou ver os meus filhos.

Diga para mim, por favor, você acha que eles merecem isso? Um pai que você não conhece. Disseram para você tirar esse pai do caminho, porque ele tem seus próprios ideais, sua própria ideologia política. Você é um dos meus. Talvez não em relação à política, mas sim humanamente. Eu posso ver no seu olhar. Seus olhos não conseguem evitar a comunicação: não te deixaram completamente cego. Seu rosto tenso evidencia que você só obedece para sobreviver.

 

“Minha alma pequena, terna e errante, hóspede e companheira do meu corpo, vai descer àqueles lugares pálidos, rígidos e nus, onde terá que renunciar aos jogos do passado”.
-Imperador Adriano-

Atrás da árvore

Por que nos escondemos? Por que você me coloca atrás de uma árvore? Por acaso você tem vergonha do que está prestes a fazer? Não esconda minha morte. Não esconda seu assassinato. Disseram para você me matar, é assim que o país funciona agora. Faça isso onde nos possam ver, quero que vejam como você acaba com a minha vida. Deixe que vejam seu rosto ao atirar. Deixe-me vê-lo quando meu coração não estiver mais batendo. Não esconda o que você vai fazer. Não, não faça isso. Não esconda as ordens.

Sei que você está me ouvindo. Claro que você está me ouvindo. Na sua futura história sobre a empatia, eu sei que você vai deixar escrito que ouvia todos nós. É inevitável. Você se mostra corajoso diante dos seus superiores, mas está morrendo de medo. A única coisa que te consola é que a ideia não partiu de você.

Você pensa que está apenas obedecendo a uma ordem, que sua responsabilidade nessa ação é mínima. Eu gostaria que você me respondesse e me dissesse se realmente está tão anulado, se realmente acredita que, por não ser uma ideia sua, a responsabilidade que te corresponde desaparece. Se te mandassem matar seu filho, você mataria? É você quem o mataria, não aqueles que te mandaram fazer isso.

Quando você escrever sua história sobre a empatia, deixe bem claro que quem puxa o gatilho é você. E que você poderia não puxar, porque ninguém estaria vendo. Só você e eu. Você tem opções. Você faz parte de um sistema que fez você acreditar que pessoas como eu devem morrer. Mas você não acredita nisso, não é? Eu sei que não. Com certeza você é um bom pai de família. Hoje à noite, beije seus filhos quando chegar em casa. Faça o que eu não poderei fazer.

 
Homem caminhando em direção à luz

Sem rancor

A noite está prestes a cair e você me mantém apoiado na árvore. O sol se põe, buscando o horizonte. Eu poderia fugir, mas sei que isso acabaria com as minhas chances de sobreviver. No final, acabamos aceitando nosso destino. A questão é se esse era realmente o meu destino. Quantos você matou antes de mim? Eram todos poetas?

Sabe, eu não te culpo, não guardo rancor. Talvez eu fizesse o mesmo no seu lugar, ou talvez não. Não pense que eu estou bravo com você. Agora não estou bravo com mais nada. Só desejo paz. Meus filhos, minha esposa, meus pais… espero que eles estejam bem. Vou sentir saudades deles. Você poderia, pelo menos, dizer a eles que eu me lembrei deles antes de, digamos, partir. Espero que um dia você escreva sua história sobre a empatia, mostrando o que você pode ter sentido, mas que não está autorizado a expressar.

Acho que chegou a hora. Você está carregando a arma e apontando para mim. Ainda há tempo. Eu ainda estou vivo. Você não quer me matar e sabe disso. Você vai realmente conseguir dormir à noite sabendo que matou um homem inocente? Você vai conseguir olhar para os seus filhos sentindo orgulho do que fez? Você sabe que não quer me matar. Você já poderia ter feito isso, mas, ainda não…

 

“Quando as formas puras se afundaram sob o cri cri das margaridas, compreendi que tinha sido assassinado”.
-Federico García Lorca-