Reescrever a história para curar o passado: Walt nos Bastidores de Mary Poppins

março 24, 2020
Quando o livro 'Saving Mr. Banks' caiu nas mãos dos roteiristas da Disney, os personagens foram reinventados e salvos, favorecendo a cura do trauma infantil da sua autora.

Por que reescrever uma história pode curar o passado? Hoje abordaremos a análise de um filme com uma formação psicológica muito profunda: ‘Walt nos Bastidores de Mary Poppins’. Ele conta uma história trágica com um final feliz; a história de uma menina que arrasta um evento traumático para a sua vida adulta.

Pamela Travers escreveu uma série de livros baseados na história da sua infância e a personagem principal se tornou um ícone no mundo todo: Mary Poppins. Embora isso só tenha acontecido quando as obras caíram nas mãos dos roteiristas da Disney muitos anos depois, os personagens se reinventaram e se salvaram, permitindo a cura do trauma de infância de Travers.

Uma bela história baseada em alguns fatos reais e outros adicionados, que conta como reescrever uma história pode curar o passado. Afinal, a nossa história de vida tem muito a ver com quem somos no presente. Quando há feridas emocionais que não se fecharam e continuam conosco, não conseguimos deixar o sofrimento para trás.

Reescrever o passado oferece a possibilidade de vivê-lo e senti-lo de maneira diferente; e de fixá-lo de uma nova forma na memória.

O argumento central de ‘Walt nos Bastidores de Mary Poppins’

Pamela Travers é o nome verdadeiro da autora das histórias de Mary Poppins. A sua infância foi marcada por um pai alcoólatra e uma mãe que não sabia lidar com essa situação familiar.

Quando as coisas ficaram realmente sérias, uma de suas tias apareceu para ajudá-las. Ela apareceu de repente, com o seu guarda-chuva e a maleta cheia de remédios mágicos para todos, determinada a ajudá-los em suas vidas caóticas.

Cena do filme 'Walt nos Bastidores de Mary Poppins'

Muitos anos depois, na idade adulta e se tornando escritora, Pamela Travers (magistralmente interpretada por Emma Thomson), escreveu oito histórias sobre uma personagem baseada em sua tia e a história de sua infância: Mary Poppins. Os livros foram um sucesso editorial. Por vinte anos, Walter Disney, o magnata americano do império da Disney (Tom Hanks no filme), perseguiu Travers tentando convencê-la a lhe ceder os direitos autorais para levar Mary Poppins para o cinema.

‘Walt nos Bastidores de Mary Poppins’ conta como a reinterpretação dos personagens do livro e as mudanças que os roteiristas da Disney conseguiram fazer sobre a obra original começaram horrorizando a autora, mas acabaram curando a ferida aberta, o trauma de infância que esteve com ela a vida toda.

Curar o passado: quando as feridas não fecham

Às vezes, a vida prepara eventos dolorosos, duros golpes, que são um teste para a nossa inteligência emocional. Os eventos traumáticos que ocorrem na infância são complicados, porque nessa idade ainda não foram desenvolvidas as ferramentas necessárias para regular altos níveis de dor emocional.

Essa dor o acompanhará para sempre e entrará na sua vida cotidiana sem que o tempo a alivie. Determinadas situações da sua vida adulta podem estar ligadas, de alguma forma, a esse trauma, e reabrir as feridas repetidas vezes.

Cena de 'Walt nos Bastidores de Mary Poppins'

Reescrevendo a história para curar o passado

As pessoas que trabalham com a linguagem sabem que o seu principal poder não está apenas na comunicação. A linguagem e a palavra também são ferramentas que podem curar.

A linguagem intervêm em diferentes níveis de cognição e pensamento. Os terapeutas usam a fala como uma maneira de trabalhar com o paciente. A terapia oferece a possibilidade de contar uma história novamente.

Ao reescrever e moldar uma situação com a palavra, abre-se um mundo de possibilidades: encontros emocionais com o passado e a perspectiva de um novo futuro narrados no presente. Uma  revisão de valores, pontos fortes, pontos fracos… Os profissionais trabalham na terapia para gerar as mudanças necessárias na narração da vida do paciente. A linguagem é uma forma de colocar ordem no caos mental.

As emoções mudam e, assim, a memória dos eventos também muda. Olhar para a nossa vida como se ela fosse uma história nos ajuda a encontrar soluções imaginárias que nos permitem sobreviver além dos obstáculos.

“O caminho percorrido pelas histórias permite que cada um encontre em si mesmo os desejos que podem fazê-lo feliz. Esta é, sem dúvida, a função das histórias. Quem não aprendeu a sonhar é incapaz de transcender o cotidiano; isso, a longo prazo, se integra ao presente e diminui em seu futuro”.
– Bruno Humbeek –