Wilhelm Stekel e sua perspectiva da psicanálise

· março 18, 2019
Wilhelm Stekel tinha uma estranha relação com Sigmund Freud e a psicanálise. Ele participou da gênese de muitos dos conceitos psicanalíticos, mas também foi expulso da escola tradicional pela porta dos fundos.

O nome de Wilhelm Stekel não é um dos mais conhecidos da psicanálise. Embora tenha sido muito presente em suas origens e contribuído com conceitos essenciais, ele não conseguiu se destacar tanto quanto outros de seus contemporâneos. De fato, o nome de Stekel é mais citado para falar sobre os conflitos dentro da psicanálise do que sobre suas contribuições para a teoria.

Wilhelm Stekel nasceu em 1868, em uma cidade na Romênia chamada Bojan. Sua família era judia ortodoxa e se dedicava ao comércio com grande sucesso. Stekel estudou medicina em Viena (Áustria) e depois abriu um consultório como clínico geral. No entanto, ele tinha um interesse especial pelos fenômenos da mente, especialmente aqueles relacionados à sexualidade.

Seu interesse pelos fenômenos psicopatológicos o levou a publicar o livro On Coitus in Childhood (Sobre o coito na infância, em tradução livre), em 1895. Essa obra chamou a atenção de Sigmund Freud, que viu em Stekel uma intuição inata e uma inteligência muito alerta. Também foi um escritor prolífico e vivaz.

 “A marca do homem imaturo é que ele quer morrer nobremente por uma causa, enquanto a marca do homem maduro é que ele quer viver humildemente por uma”.
-Wilhelm Stekel-

Wilhelm Stekel e Freud

Wilhelm Stekel foi ao consultório de Freud para fazer sessões de psicanálise. Ele tinha um problema de impotência e seu processo com Freud durou apenas 8 semanas, o que equivalia a cerca de 48 sessões. Aparentemente, ele não superou seus sintomas, mas a análise conseguiu mantê-lo estável e aliviar sua angústia.

Stekel também tinha uma compulsão patológica pela masturbação. De fato, ele escreveu uma obra intitulada Auto-erotism: A Psychiatric Study of Onanism and Neurosis (Autoerotismo: um estudo psiquiátrico sobre onanismo e neurose, em tradução livre), que só foi publicada após sua morte. Tudo relacionado à sexualidade despertava sua curiosidade. Naturalmente, a psicanálise chamou sua atenção desde o início. De um paciente de Freud, ele se tornou seu discípulo.

Wilhelm Stekel adotou as teses freudianas com extremo sectarismo. Em sua autobiografia, pode-se ler sobre Freud que “Ele era meu Cristo, eu, seu apóstolo”. Quando o pai da psicanálise publicou A Interpretação dos Sonhos, Stekel fez uma crítica fervorosa sobre a obra. Ele foi um dos poucos que alertou sobre a importância desse trabalho, um ato pelo qual Freud também demonstrou apreço.

Sigmund Freud

Uma relação tensa

A partir de 1902, Wilhelm Stekel esteve presente em todos os grandes eventos da psicanálise da época. Em 1908, ele publicou uma nova obra intitulada Estados de Angústia Nervosa e seu Tratamento, com um prefácio escrito pelo próprio Sigmund Freud, que sempre o chamou de “colega”.

Stekel, no entanto, tinha um jeito de ser e agir que começou a colocar à prova a paciência de Freud, que se irritava com sua falta de tato e sua “indecência”. Stekel falava sobre seus próprios sintomas e sobre masturbação sem o menor grau de autocensura. Nesse sentido, Freud não concordava com boa parte de seu modo de pensar.

Nas reuniões da Sociedade Psicanalítica, ele narrava episódios de sua vida que nunca tinham acontecido. Freud sabia que não eram verdadeiros, pois o tinha analisado em sessões de psicanálise.

O conflito chegou a um ponto sem volta quando Wilhelm Stekel elaborou um trabalho sobre a relação entre os nomes e o destino. Nele, falou sobre como o nome tinha influenciado a escolha profissional e outros aspectos na vida de vários pacientes. Freud o recriminou por ter publicado o nome de tais pacientes. Stekel respondeu que isso não importava, porque todos os casos tinham sido inventados.

Distanciamento de Stekel

Depois desse episódio, Freud decidiu excluir Wilhelm Stekel de seu círculo, tanto profissional quanto pessoal. Em uma carta a Carl Jung, chegou a dizer que Stekel era “um porco absoluto”. Freud pediu que Stekel renunciasse à direção da revista da Sociedade Psicanalítica, mas ele não aceitou. Então, o pai da psicanálise fez com que a maioria de seus colaboradores fosse demitida, e foi assim que a relação entre os dois terminou para sempre.

Em sua autobiografia, Wilhelm Stekel afirma que Sigmund Freud havia roubado vários de seus conceitos. Em outras palavras, que ele tinha sido plagiado. Afirmava que o conceito de instinto de morte e de angústia eram criações suas e que Freud os copiou sem reconhecer seu papel.

Ao contrário de outros dissidentes da psicanálise, Wilhelm Stekel não tentou fundar uma nova escola ou corrente. Ele permaneceu fiel aos postulados básicos da psicanálise freudiana, mas ao mesmo tempo marginalizado dela. No entanto, suas obras foram traduzidas para vários idiomas e alcançaram algum impacto. Ele se casou duas vezes, teve dois filhos e se suicidou em 1940.

  • Stekel, W. (1961). La voluntad de vivir (No. 04; BF613, S8 1961.).