William James e o conceito da verdade

· novembro 21, 2018

O conceito da verdade é difícil de definir, ainda que o usemos com muita frequência e que seja considerado algo muito importante. Parece que confiamos na “verdade” em todos os momentos, e que todos os dias ela está muito perto de nós.

Então, por que ela é tão difícil de definir? A questão é que ao mesmo tempo em que parece um conceito tão claro para nós, surgem casos ou argumentos que imediatamente mostram deficiências em sua definição.

Nesse artigo veremos a definição do conceito da verdade segundo a teoria de William James (1842-1910), um filósofo americano e professor de psicologia na Universidade de Harvard, além de fundador da psicologia funcional.

William James defendeu uma concepção de verdade humanista e prática, baseada na experiência humana a partir de evidências disponíveis. O conceito da verdade de James segue sendo uma das definições mais importantes sobre a mesma, tanto para a filosofia quanto para outras disciplinas, já que uma definição humanista do conceito da verdade é aplicável a quase todos os campos.

Conceito da verdade e conhecimento

James diferenciava duas formas de conhecer as coisas. Por um lado, o indivíduo poderia saber algo de forma intuitiva, a partir da experiência indireta. Um exemplo desse caso seria uma pessoa que vê um papel ou uma caneta que está diante de seus olhos – o que James descreveu como um “abraço completo” do objeto pelo pensamento.

Por outro lado, porém, alguém poderia saber a mesma coisa através de estímulos diferentes, por meio de intermediários físicos ou mentais que conectam pensamento e objeto.

Desse modo, James afirma que a forma intuitiva de conhecimento é a apreensão direta de algo e não é mediada por nada, de forma que a verdade, para o conhecimento intuitivo, é uma questão de consciência direta em relação ao fluxo da experiência.

Ao contrário, temos o conhecimento conceitual ou representativo, como saber que uma crença é verdadeira ao conhecê-la através de um contexto por meio do qual o mundo funciona, como prova de sua existência.

Névoa mental

Conceito da verdade e verificabilidade: utilidade

Para James, a verdade não é uma propriedade inerente e imutável da ideia, mas sim um acontecer dentro da ideia segundo sua verificabilidade. Nesse sentido, a verificabilidade, para James, consiste em um sentimento agradável de harmonia e progresso na sucessão de ideias e fatos. Ou seja, ao ter ideias, elas se seguem umas às outras e se adequam nessa sucessão de realidade que experimentamos.

Essas ideias verdadeiras cumprem uma função fundamental: a de serem ferramentas úteis para os indivíduos, de modo que essa pessoa possa utilizá-las para se guiar na realidade que se apresenta. Dessa forma, ao possuir essas ideias o que se tem é um bem prático que permite satisfazer outras necessidades vitais. Desse modo, para James o verdadeiro é o útil, ou seja, que introduz um benefício para a vida vivida e que merece ser conservado.

Teoria pragmática da verdade

A concepção da verdade de William James é baseada nas teorias pragmáticas da verdade. São teorias que nasceram dentro da filosofia do pragmatismo. Essas teorias pragmáticas do conceito da verdade foram propostas pela primeira vez por pensadores como Charles Sanders Peirce, John Dewey e logo William James.

As características comuns dessas teorias desses três pensadores são a confiança na máxima pragmática como meio para esclarecer os significados de conceitos difíceis, como a verdade. Além disso, colocam ênfase no fato de que a crença, a certeza, o conhecimento e a verdade são resultado de uma investigação.

A versão de William James da teoria pragmática frequentemente é resumida na sua afirmação de que “o verdadeiro é somente o recurso da nossa forma de pensar, assim como o direito é somente o recurso de nossa forma de se comportar”. Com isso, James quer dizer que a verdade é uma qualidade cujo valor se confirma por sua efetividade ao aplicar conceitos na prática da vida real.

O conceito da verdade

A teoria pragmática de James é uma síntese da teoria da correspondência da verdade e a teoria da coerência da verdade com uma dimensão adicional. Dessa forma, a verdade é verificável à medida que os pensamentos e as afirmações de fato correspondem a coisas reais, assim como podemos juntar ou encaixar as peças de um quebra-cabeças de forma que elas coincidam. Nesse ato, elas são verificadas pelos resultados observados de uma aplicação de uma ideia na prática real.

Nesse sentido, James diz que todos os processos verdadeiros devem conduzir à oportunidade de verificação direta das experiências sensíveis de algum modo. Também estendeu sua teoria pragmática muito além do alcance da verificabilidade científica, e inclusive além do âmbito do místico.

Segundo James: “A partir dos princípios pragmáticos, se a hipótese de Deus funciona satisfatoriamente no sentido mais amplo da palavra, então pronto, ela é certa”.

“A verdade, como qualquer dicionário poderá definir, é uma propriedade de algumas das nossas ideias. Isso significa um acordo, já que a falsidade significará, então, um desacordo em relação à realidade. Tantos os pensadores pragmáticos quanto os intelectuais aceitam essa definição como uma questão rotineira. Começam a brigar apenas depois que mais duas questões se colocam: o que pode significar exatamente o termo ‘acordo’ e o que este pode significar em relação ao conceito de realidade, quando a realidade se torna algo com o que nossas ideias estão de acordo.”
-William James-