Mito do navio dos loucos: 3 lições que podemos aprender

3 lições do mito do navio dos loucos

março 25, 2018 em Psicologia 76 Compartilhados

O mito do navio dos loucos começou a ser mencionado no ano de 1486, no alvorecer do Renascimento. Um homem chamado Sebastian Brandt escreveu um longo poema chamado Arrenschiff ou Stultifera navis. O poema fala sobre uma viagem marítima feita por 111 loucos a um lugar chamado “Narragania” ou “Locagonia”.

Jerónimo de Bosh, El Bosco, foi mais direto. Ele desenvolveu uma pintura chamada “O navio dos loucos”. Lá ele captura a peregrinação de um grupo de homens e mulheres que não estão em seus sentidos e que viajam de barco para um destino desconhecido. Essa é a essência do mito do navio dos loucos. Aqueles que não coincidem com o esquema da razão coletiva devem ser jogados na imensidão do mar. Eles estão destinados a uma vida errante, sem um país, sem uma terra firme. Apenas uma viagem infinita.

“A loucura não pode ser encontrada na natureza. A loucura não existe, exceto em uma sociedade, ela não existe fora das formas de sensibilidade que a isolam e das formas de repulsão que a excluem ou a capturam “.
Michel Foucault

Michell Foucault em sua “História da loucura nos tempos clássicos”, alude ao mito do navio dos loucos. Indica que ele pode ter bases reais. Existem documentos da antiguidade e da Idade Média nos quais são mencionados navios cuja carga era um monte de “tolos”. De acordo com esses contos, eles não podiam atracar em nenhum porto. Eles deveriam estar longe de todos.

O mito do navio dos loucos é a própria essência da construção do conceito de loucura. Também da resposta da sociedade a esta e do tratamento que automaticamente devia ser aplicado. Existem vários ensinamentos nesta história, e a seguir destacamos três deles.

1. A insanidade é intolerável à sociedade

Na Grécia clássica, foram feitos os primeiros estudos sobre o que se passava na mente. Havia diversas opiniões sobre a insanidade. Ela foi considerada uma condição demoníaca e, em seguida, com Hipócrates, um desequilíbrio de fluidos corporais que devem ser tratados com uma dieta adequada. Algo parecido aconteceu em Roma.

O mito do navio dos loucos

Com a Idade Média, a loucura definitivamente entrou no reino do sobrenatural. Não se falou de loucura como tal, mas de possessão. Neste momento, como nos anteriores, o ostracismo e a segregação eram um tratamento normal para aqueles que sofriam de transtornos mentais.

Aparentemente, desde sempre a presença de alguém que expressa um discurso fora do padrão predominante tem sido intolerável às sociedades. É considerada uma ameaça. Foucault indica que é uma ameaça para a ordem estabelecida e é por isso que causa medo e induz à segregação. Há aqueles que sustentam que o mito do navio dos loucos tem suas primeiras expressões na Grécia. Era uma forma de exclusão para “salvaguardar” o “bem comum”.

2. O mito do navio dos loucos e a brutalidade

Ao contrário de outros pacientes, não sentimos compaixão pelos loucos. Basicamente, os tememos. Embora os distúrbios mentais, a princípio, não sejam “contagiosos”, como seria o caso da hanseníase ou tuberculose, eles desencadeiam uma rejeição profunda nos outros. Essa rejeição muitas vezes resultou em brutalidade.

O mito do navio dos loucos não deixa de representar uma maneira intolerante e cruel de se abordar as doenças mentais. No entanto, a segregação é apenas uma das formas “menos radicais” de lidar com a insanidade. Existiram e existem outras práticas muito mais brutais. Por exemplo, em muitas ocasiões pessoas com transtornos mentais foram torturadas.

O mito do navio dos loucos

Na Idade Média, os “loucos” foram queimados, espancados e frequentemente tratados como animais. Acreditava-se que havia “a pedra da loucura” e que estava no cérebro. Muitos foram mutilados para extrair esse elemento do mal. A Era Moderna surgiu e espalhou-se a idéia de que os loucos tinham que ser confinados, em vez de enviados para uma viagem errante, como aconteceu no mito do navio dos loucos.

3. O conceito de loucura é difuso e impreciso

Nem mesmo em pleno século 21 existe um conceito definitivo do que é loucura. Muito menos existiu em outros tempos. Durante a Idade Média e a Idade Moderna, qualquer pessoa que se desviou da norma foi chamada de louca. Cabiam nesse conceito as deficiências cognitivas, as pessoas rebeldes, as prostitutas e quase todas as pessoas que não cumpriam os parâmetros predominantes.

Certamente muitos ficarão surpresos ao ler isso. Talvez eles pensem que nós, felizmente, estamos em outros tempos. No entanto, atualmente a mudança não é tão visível. Vivemos em uma sociedade que só aceita delírios coletivos. Por exemplo, a crença de que uma marca o torna superior. Existem países no mundo onde certas pessoas acreditam que são mais do que as outras usando roupas de uma certa marca. Isso não é considerado insanidade. Por outro lado, um discurso sustentado por um único indivíduo parece doentio, e é tratado de acordo como tal.

Cadeira em sala vazia

A crueldade continua a assombrar as doenças mentais. Às vezes, essa insensibilidade está na própria família daqueles que possuem discursos delirantes ou são vítima de alucinações. A exclusão continua a ser uma maneira de abordar essa situação. Como no mito do navio dos loucos, muitas pessoas com transtornos mentais são abandonadas e deixadas à própria sorte. Às vezes são vistos nas ruas de muitas cidades ao redor do mundo. Ou em um ir e vir pelos corredores de instituições psiquiátricas, que raramente procuram apoiá-los e potencializá-los. O que continua a prevalecer é a segregação, secretismo e dissimulação, como se fosse uma realidade que desaparecesse quando a cobrimos com o tapete.

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