A arte de saber se perder para se reencontrar, segundo a filosofia

Você já se sentiu perdido em sua vida? É um momento assustador. No entanto, em meio a essa incerteza, você pode encontrar caminhos extraordinários que lhe tragam felicidade.
A arte de saber se perder para se reencontrar, segundo a filosofia
Valeria Sabater

Escrito e verificado por a psicóloga Valeria Sabater.

Última atualização: 22 dezembro, 2022

A arte de saber perder-se exige estar aberto à incerteza, ao desconhecido, ao que está fora do previsível e nos oferece segurança. Assim, neste mundo tão dominado pela tecnologia, pelo Google, GPS e tutoriais de todo tipo, nos tornamos criaturas superinformadas (e superprotegidas) que só querem ter tudo sob controle.

E qual é o problema? muitos dirão. Na verdade, mais de um. Escrevemos nossas vidas em papel pautado, nos certificamos de que cada evento, decisão ou mudança seja preparado com antecedência. Perguntamos a Siri ou Alexa, programamos nossas viagens com aplicativos sofisticados e até criamos listas de tarefas que nos notificam com alarmes para nos lembrar o que fazer a todo momento.

Não gostamos do inesperado, o desconhecido nos assusta e tudo que sai dos nossos roteiros e previsões nos desequilibra. Nós nos tornamos autômatos da previsibilidade, e isso nem sempre é uma coisa boa. Como disse Rainer Maria Rilke, a incerteza não é um obstáculo, pode ser uma fonte de vida. O melhor caminho para a inspiração e a autodescoberta.

Às vezes, para nos reencontrarmos, vale a pena nos perdermos, abrindo uma porta para o inesperado.

Quando nos sentimos perdidos, estamos mais apegados do que nunca ao presente, ao aqui e agora. É então que somos capazes de abraçar o mistério e a incerteza para descobrir o que nos rodeia, e então tomar novas decisões e novos caminhos.

homem pensando na arte de saber se perder
Somente quando estamos perdidos começamos a olhar o mundo com outros olhos.

A arte de saber perder-se para encontrar nosso caminho autêntico

Todos nós já chegamos naqueles momentos em que de repente paramos para nos fazer uma pergunta muito específica: “o que estou fazendo da minha vida?”.  Sentir-se perdido é uma das experiências mais estressantes que podemos lembrar. Não sabemos se continuamos no mesmo caminho ou largamos tudo e começamos de novo. Se esquecer e começar tudo de novo.

Esse sentimento avassalador de ignorância e incerteza é uma realidade que tem sido explorada por várias pessoas. Rebecca Solnit, por exemplo, é uma conhecida escritora americana que publicou em 2005 o interessante livro A Guide to the Art of Getting Lost. Nele, ela explora o que para ela e muitos filósofos é a experiência emocionante de vagar, se perder e abraçar o desconhecido.

Basta lembrar o que o escritor, poeta e filósofo Henry David Thoreau nos disse: só nos encontramos quando temos a coragem de nos perder. É preciso olhar a vida com a admiração e a curiosidade da criança que anseia desafiar os limites que lhe são impostos e também saber o que se esconde atrás das portas fechadas…

A vida além das margens cotidianas

A arte de saber se perder envolve ousar ir além das margens que nos delimitam todos os dias e explorar o desconhecido. Abraçar o estranho. Fugir por um dia do caminho seguro para entrar no imprevisto. É nesses momentos em que nos sentimos verdadeiramente perdidos que o autêntico senso de sobrevivência é ativado em nós.

Nesse momento perturbador nos sentimos mais apegados ao presente do que nunca. Então, olhamos ao nosso redor com maior perspectiva e interesse para nos fazer uma pergunta decisiva: para onde vou a partir daqui? O filósofo Walter Benjamin disse que somente quando nos perdemos é que estamos suficientemente imersos em nós mesmos para fazer escolhas conscientes.

“Deixe a porta aberta para o desconhecido, a porta para a escuridão. É daí que vêm as coisas mais importantes, de onde você veio e para onde irá.”

-Rebecca Solnit-

A arte de saber perder-se para aceitar a incerteza

O filósofo e professor Joan-Carles Mélich nos explica algo interessante em seu livro A Sabedoria do Incerto. Inquietação, incerteza e provisoriedade são realidades que sempre fizeram parte da condição humana. No entanto, nada disso nos agrada. Somos criaturas alérgicas ao incerto, ao diferente e até ao que é estrangeiro.

Ele também nos convida a permanecer nas margens da incerteza, porque é aí que a vida autêntica acontece e muitas vezes encontramos o sentido da vida refletindo, descobrindo a nós mesmos e expandindo nossas mentes. Porque enquanto os outros preferem se posicionar no centro (e no previsível), só quem pratica a arte de saber perder-se aprende a pensar por si mesmo.

Às vezes, momentos de incerteza nos revelam grandes verdades.

menina na frente da estrada pensando na arte de saber se perder
Às vezes, vale a pena ir além do conhecido e do comum para relativizar ideias, objetivos, pensamentos…

A necessidade de ir além dos nossos espaços seguros

Perder-se não é se aventurar em uma floresta sem bússola. Não é escalar uma montanha sozinho. Nem  se aventurar no oceano em um ataque de loucura. A arte de saber perder-se é contornar nossos limites para saber o que está além do nosso cotidiano. É deixar de ficar obcecado em querer ter tudo sob controle para saber o que está do outro lado do previsível.

Implica ser capaz de nos abrir ao incerto, ao novo, que estimula nossa imaginação e nos permite ter novas perspectivas. Às vezes, naqueles momentos em que não sabemos realmente o que fazer com nossas vidas e nos sentimos perdidos, é quando as coisas mais importantes acontecem.

Nossa existência não está escrita em uma rota planejada, nem o Google sempre terá as respostas para todas as nossas perguntas. Vale a pena confiar em nossos instintos e se aventurar, nos tornar exploradores do incerto. Porque, como a própria Rebecca Solnit aponta, “quem nunca se perdeu, ainda não começou a viver”.


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  • Mélich, Joan-Carles (2019) La sabiduría de lo incierto. Planeta
  • Solnit, Rebecca (2019)  Una guía sobre el arte de saber perderse. Capitán Swin
  • Solnit, Rebecca (2015) Wanderlust, el arte de saber caminar. Capitán Swin
  • Solnit, Rebecca (2018) Esperanza en la oscuridad. Capitán Swin

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