Rainer Maria Rilke, o poeta que nos ensinou a ver a luz na escuridão

junho 25, 2020
Rainer Maria Rilke foi o poeta que usou a tristeza como poder criativo. Em seus versos, ele nos ensinou a superar as perdas, a ser curiosos, e a encontrar a luz na complexa floresta do nosso ser interior.

Rainer Maria Rilke foi o poeta que usou a tristeza como um mecanismo criativo, como uma musa para seus versos. Sua arte, e sobretudo suas cartas, contêm a magia da transformação. Ele nos ensinou a encontrar a luz na escuridão, nos encorajou a superar as perdas, a ser pacientes e curiosos em nossos valores internos e a aceitar a natureza solitária do homem.

Os biógrafos dizem que Rilke foi um artesão do amor e um especialista no campo da solidão escolhida. Ele tinha o hábito de se apaixonar por muitas das princesas, condessas e duquesas do Império Austro-Húngaro. Era um poeta errante, um viajante incansável, que se hospedava em mansões e palácios e arrebatava a todos com sua arte, para depois ir embora deixando vazios.

Ele se tornou o clássico transumano que buscava benfeitores para tirá-lo de sua pobreza e também da doença eterna que sempre o afligia: a solidão. No entanto, apesar da itinerância existencial e do descontentamento emocional que deixava para trás, Rainer Maria Rilke explorou o sentimento de perda como ninguém.

Diz-se que ele encontrou sua maior inspiração e estabilidade com Lou Andreas-Salomé. Essa escritora, filósofa e psicanalista russa compartilhou com ele um espírito liberal. Tanto para Rilke quanto para ela, o mais importante era a arte, juntamente com a cultura e o conhecimento. O amor era inspiração e uma maneira de alimentar a escrita e a poesia, mas, a longo prazo, era algo que dominava em excesso.

“Tenha paciência com tudo não resolvido em teu coração e tente amar as perguntas em ti”.
-Rainer Maria Rilke-

Biografia de Rainer Maria Rilke, o poeta transumano

Biografia de Rainer Maria Rilke, o poeta transumano

René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke nasceu em 4 de dezembro de 1875 em Praga. Seu pai era ferroviário, e sua mãe, Sophie Entz, era filha de um funcionário de banco bem posicionado. Foi ela quem incutiu nele um gosto pela escrita e pela poesia. Assim, desde jovem, ele demonstrava um notável talento artístico, incentivado por uma mãe culta e refinada.

Esse mundo delicado e culto, no entanto, se desfez quando o casamento terminou. Foi então que seu pai tomou as rédeas da sua educação e o enviou para uma academia militar. Felizmente, devido a seus problemas de saúde, ele conseguiu sair desse mundo e se matricular na universidade em 1895. Rainer estudou literatura, história da arte e filosofia em Praga e Munique.

Foi durante sua estadia em Munique que ele conheceu quem seria a mulher de sua vida: Lou Andreas-Salomé. Essa escritora russa era quinze anos mais velha do que Rilke. Ela havia sido amante dos mais eminentes intelectuais da época e isso inspirou o jovem Rainer ainda mais. Ela foi sua conselheira e confidente, lhe ensinou idiomas e foi sua musa durante toda a vida.

Rainer Maria Rilke foi o poeta que usou a tristeza como um mecanismo criativo

Essa aliança permitiu que Rainer Maria Rilke conhecesse escritores notáveis ​​como Liev Tolstói. Posteriormente, com o início do novo século, ele conheceu a escultora Clara Westhoff em uma colônia de artistas em Worpswede. Ele se casou com ela e, no ano seguinte, após ter sua primeira filha, decidiu deixá-las e ir para Paris.

A consolidação da obra do poeta Rainer Maria Rilke

Em Paris, Rainer Maria Rilke conheceu Auguste Rodin e trabalhou como seu secretário. O famoso escultor lhe ensinou a técnica da observação objetiva como forma de criação. Ele também fez amizade com o pintor espanhol Ignacio Zuloaga. Ambos os artistas impulsionam seu motor criativo e a força com a qual a subjetividade já delineava grande parte de seus versos.

Nesse período parisiense, ele escreveu Neue Gedichte (Novos Poemas, 1907),  Requiém (1909) e o romance Os Cadernos de Malte Laurids Brigge – uma obra semi-autobiográfica na qual ele descreve confissões muito íntimas e espirituais sobre suas experiências.

Em 1912, Rilke se hospedou no Castelo Duino, perto de Trieste. Ele passou alguns meses com a condessa Marie de Thurn und Taxis, que inspirou Elegias de DuinoFoi um período de calma e prazer que terminou precipitadamente com o início da Primeira Guerra Mundial.

Rainer Maria Rilke passou a maior parte da guerra sozinho em Munique até que, finalmente, teve que se juntar ao exército. Isso o marcou. Seu caráter aberto, romântico e rebelde tornou-se taciturno. A partir desse momento ele viveu uma jornada de viagens em que encontrou inspiração e calma para sua mente após o caos da guerra.

A sombra de um fim e um trabalho frenético

O protetor de Reiner Maria Rilke lhe deu um apartamento na Suíça para que ele tivesse alguma estabilidade pessoal. Assim, entre 1922 e 1926, abriu-se diante dele um período de intensa e quase frenética criatividade. Sua saúde não era boa, ele sofria de leucemia e sabia que sua vida estava definhando.

No entanto, a segurança de um final próximo deu um maior impulso à sua mente e ao seu desejo de roubar mais tempo da vida. E ele se aproveitou disso: escreveu uma imensa série de poemas e também de cartas. Seu legado lírico é tão delicado quanto profundo, tão simbólico quanto íntimo e inspirador.

“Veja; sinto como me distancio,
como perco o velho, folha após folha.
Só o seu sorriso permanece como muitas estrelas
sobre você, e logo sobre mim também”.
-Rainer Maria Rilke-

A tristeza como um mecanismo criativo para Rilke

Nos quatro anos que lhe restavam de vida ele chegou a ter um relacionamento de dois anos com a artista Elisabeth Dorothea Spiro, cujo filho mais tarde se tornaria o conhecido pintor Balthus.

Reiner Maria Rilke faleceu em 29 de dezembro de 1926 no hospital suíço de Val-Mont, aos 51 anos de idade.

A tristeza como mecanismo criativo para Rilke

“Acredito que quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão que nos preparam para algo. Nos encontramos sozinhos, frente a frente com aquilo tão estranho que a vida nos perpetrou”.

É verdade que a vida de Rilke foi definida por uma transumância existencial que o levou a ir de cidade em cidade, de mulher em mulher. No entanto, havia um desejo avassalador de fugir de algo, e esse algo talvez fosse ele próprio. A tristeza foi sua verdadeira e mais fiel amante. Por isso, ele definiu a impregnação dessa emoção na vida como ninguém.

Rilke comparava as emoções à arquitetura de uma casa. Ele dizia que quando a melancolia e a tristeza entram em nós, ficamos imóveis. Nos tornamos edifícios, muros e paredes. Construções rígidas. No entanto, de acordo com ele, também temos o poder de nos transformar.

Tornou-se famosa uma carta que ele escreveu para Sidonie Nádherná von Borutín, esposa do escritor Karl Kraus, após saber do suicídio de seu irmão. “A vida dele deve agora continuar dentro da sua”, escreve ele, “a perda não é uma separação. Busque harmonia, busque significado e crie algo novo com a memória dela e com o seu carinho”.

Homem em campo no pôr do sol

Rilke nunca indicou em seus textos que o tempo cura ou apaga a dor de uma morte. Em sua poesia, ele nos ensina que enfrentar dificuldades na vida é algo essencial, e que não devemos evitá-las, porque as adversidades nos levam a conquistas e transformações.

Rainer Maria Rilke era um poeta que escrevia como um Davi diante de Golias. Suas palavras parecem, a princípio, leves e insignificantes. No entanto, elas têm um enorme impacto. Ele nos ensina que perdas, tristezas e arrependimentos são a outra metade da vida, são a sombra. E nós, a luz.

  • Pau, Antonio (2012). Vida de Rainer María Rilke. La belleza y el espanto. Tercera edición. Madrid: Editorial Trotta. 
  • Wiesenthal, Mauricio (2015). Rainer Maria Rilke (El vidente y lo oculto). Barcelona: Editorial Acantilado.