A metáfora dos três macacos e o bem viver

· fevereiro 21, 2019
A metáfora dos três macacos tem a ver com uma máxima de Confúcio que pode ser traduzida como: não fale, não ouça e não veja a maldade. Essa seria uma das condições para viver bem consigo mesmo e com os demais.

Quase todo mundo já viu a representação da metáfora dos três macacos sábios. Ela contém as figuras de um macaco que cobre a boca, outro que cobre as orelhas e outro que cobre os olhos. É uma escultura de madeira que data do século XVIII e se refere basicamente a como “viver bem’, no sentido amplo do termo.

A metáfora dos três macacos tem a ver com uma máxima de Confúcio que pode ser traduzida como não fale, não ouça e não veja a maldade. Essa seria uma das condições para viver bem consigo mesmo e com os demais.

A escultura está localizada na entrada do estábulo sagrado do Santuário de Toshogu, no Japão. Mais exatamente em uma cidade que fica em uma colina, ao norte de Tóquio. Cada um dos macacos tem um nome: Mizaru, Kikazaru e Iwazaru. Em ordem, esses nomes significam: não ver, não ouvir, não dizer. Mas o que isso tem a ver com viver bem?

Tudo parece indicar que a escultura foi inspirada por uma máxima de Confúcio. Esta máxima afirma: “Não veja o mal, não ouça o mal, não fale com maldade”. Portanto, o sentido básico não é se fechar completamente ao mundo, mas recusar-se a entrar em contato com a maldade. Isso faz parte da arte de viver bem.

“Se você pode evitar um mal, é tolice aceitá-lo”.
-Terencio-

O ensinamento de Confúcio e a metáfora dos três macacos

A máxima de Confúcio o convida a se recusar a entrar em contato com a maldade. Mas, isso faz sentido? A primeira coisa que vem à mente é que podemos nos recusar a ver, ouvir ou falar do mal. No entanto, isso o fará desaparecer do mundo? Poderíamos nos fazer uma outra pergunta: como saber ou falar sobre a maldade vai melhorar as nossas vidas?

Há uma área paranoica dentro de nós mesmos que sente prazer nesse contato com a maldade. Podemos dizer que estarmos ciente da maldade do mundo nos protege dessa ameaça que é o mal. Por exemplo, se você sabe que em uma certa rua há muitos assaltos, isso permitiria evitá-la, diminuindo o risco de ser assaltado.

Parece lógico, mas no fundo não é tanto. Primeiro, porque o mal é a exceção e não a norma no mundo. É verdade que todos nós temos uma faceta destrutiva, mas o comum é que isso não chegue a ser classificado como maldade. É muito maior o número de pessoas que vivem de forma honesta e construtiva.

Segundo, está provado que ficar nervoso e tenso é um dos fatores que os assaltantes avaliam antes de atacar alguém. O mesmo poderia ser dito para outros exemplos semelhantes. Em outras palavras, os vitimizadores e as vítimas compartilham códigos comuns.

Estátua de Confúcio

A atração pela maldade e o viver bem

Se podemos viver sem saber quais são os últimos avanços da física quântica, por que não podemos viver sem saber dos atos perversos do mundo? Podemos dizer que existem razões para pensar que testemunhar atos cruéis, pessoalmente ou na televisão, aumenta a nossa destrutividade ou a nossa potencial vitimização.

Isso tem a ver com os neurônios-espelho. O cérebro nem sempre consegue distinguir a realidade da fantasia. É por isso que nos assustamos com filmes de terror. Sabemos perfeitamente que eles são uma ficção e, mesmo assim, desencadeiam emoções concretas em nós.

Portanto, ver, ouvir ou falar sobre a maldade poderá ter um efeito muito tóxico em nossas vidas. É possível que isso alimente o monstro do medo ou o monstro da maldade dentro de nós. Eles estão lá e podem crescer se os alimentarmos. Então, talvez Confúcio estivesse certo.

Homem fugindo de pássaros

Higiene mental

A escultura dos três macacos é um guia para o bem viver e um princípio básico de higiene mental. Ver, ouvir ou falar sobre o mal é algo que pode levar a um estado de angústia. De repente esquecemos que, estatística e matematicamente, há mais pessoas boas do que pessoas más no mundo. Em vez disso, acreditamos no contrário: sentimos que estamos em uma realidade em que algo muito ruim poderá nos acontecer a qualquer momento.

Muitos se perguntarão: e se realmente formos vítimas da maldade real? Nesse caso, a abordagem de Confúcio continua válida. O melhor a fazer nessa experiência é trabalhar para diluí-la e separá-la de nós. Evitar que ela se torne um eixo ao redor do qual nossas vidas gravitam.

Pássaros se libertando

O escandaloso, o perverso e o cruel são temas que vendem e chamam a atenção. Tudo isso faz parte de uma espécie de pornografia da dor, que aterroriza e fascina ao mesmo tempo todo ser humano. Esse terror e essa fascinação são sentimentos neuróticos.

A arte de viver bem tem a ver com trabalhar a perspectiva a partir da qual entendemos o mundo. Nesse sentido, a decisão de se recusar a ser testemunha ou difusor dos atos de maldade tem uma grande validade.