A maldade sobrevive graças às pessoas que veem e não fazem nada

A maldade sobrevive graças às pessoas que veem e não fazem nada

junho 16, 2017 em Psicologia 2156 Compartilhados
A maldade sobrevive graças às pessoas que veem e não fazem nada

Algumas pessoas empunham a bandeira da bondade e se orgulham vestindo a medalha do altruísmo. No entanto, suas palavras são vazias, poeira e ar, quando são testemunhas da maldade cotidiana e não reagem. Mostram-se incompetentes quando escolhem virar o rosto, se calar e permanecer em silêncio diante da injustiça e da humilhação alheia.

Um dos exemplos clássicos de maldade corresponde ao comportamento de um genocida que extermina povos inteiros, pessoas que arrebatam a vida dos outros com violência. Imagine um torturador e terrorista que arrebata vidas em nome de um deus. No entanto, o que precisamos entender é que os atos de maldade também acontecem a todo momento nos nossos ambientes mais próximos, nos ambientes mais familiares, aos quais temos acesso diretamente com os nossos sentidos.

“O mundo não está ameaçado por pessoas más, mas por aquelas que permitem a maldade”.
 – Albert Einstein –

Por outro lado, a maioria de nós não tem a possibilidade de mudar algo em todos esses contextos que vemos todos os dias na televisão ou nas redes sociais. No entanto, basta levantar o rosto das telas para testemunhar eventos que acontecem ao nosso redor que violam completamente o nosso senso de humanidade, dos quais muitas vezes somos cúmplices silenciosos. Somos cúmplices por ver e ficar em silêncio, virar o rosto, engolir “em seco” e voltar a nossa atenção para outro objetivo.

Falamos, por exemplo, do bullying, falamos dos gritos que ouvimos em casa através das paredes, onde as crianças choram e um dos cônjuges sofre abusos em silêncio. Também nos referimos ao vizinho que maltrata seus animais de estimação, àquela mulher que maltrata o seu filho quando o leva para a escola ou a aquele empregador que explora e humilha verbalmente um funcionário…

A maldade tem muitas faces, muitas formas e infinitos canais através dos quais estende o seu poder e suas artes do mal. No entanto, se ela sobrevive é por uma razão muito concreta: porque pessoas “supostamente boas” não fazem nada para impedir a sua ação.

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A origem da maldade e sua tolerância

Arthur Conan Doyle usou um termo muito curioso quando Sherlock Holmes precisou enfrentar o Professor James Moriarty. Ele disse que o professor sofria de “insanidade moral”. É certamente uma expressão que involuntariamente transmite uma ideia que a maioria tem em mente: apenas pessoas doentes ou com algum tipo de transtorno psicológico são capazes de cometer uma maldade.

Talvez sob o rótulo de “patológico” nós nos tranquilizemos e encontremos um certo sentido nesses atos que carecem de lógica e explicação. No entanto, por mais sombrio que pareça, por trás da maioria destas reações adversas, prejudiciais e até mesmo destrutivas, nem sempre há um transtorno de personalidade antissocial, nem sempre há uma doença.

Em algumas ocasiões, o ato de maldade vem de uma pessoa normal, próxima e conhecida. Se manifesta através de comportamentos aprendidos resultantes de uma educação disfuncional ou carente. Às vezes falamos de uma pessoa com pouco controle emocional que se deixa levar pelos impulsos ou pela influência dos outros. Outras vezes, o próprio ambiente e as circunstâncias criam condições para os atos de maldade.

Albert Ellis diz que o mal como essência ou como componente genético não existe ou não é algo comum. Na verdade, todos nós somos capazes de ser cúmplices do mal em um determinado momento e sob certas condições.

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O porquê da imobilidade diante das injustiças

Como já dissemos, uma das razões pelas quais o mal sempre triunfará é porque supostamente as pessoas boas não fazem nada, mas… por que não agimos? O que explica essa imobilidade, esses olhos fechados ou o olhar desviado para o outro lado? Vamos refletir sobre algumas explicações básicas.

  • A primeira razão é simples e clara: dizemos a nós mesmos que não temos nada a ver com o que estamos vendo. Nós não somos os responsáveis, não provocamos essa situação e não conhecemos a pessoa que está sofrendo. A falta de envolvimento emocional é, sem dúvida, uma das principais causas da imobilidade.
  • O segundo aspecto tem a ver com a necessidade de manter a harmonia ou as características de um ambiente. Por exemplo, o adolescente que testemunha um bullying pode escolher se calar ao invés de denunciar. Esta passividade pode ser causada por medo de romper esse equilíbrio ou medo de perder a posição social que desfruta no seu ambiente. Se defender a vítima, corre o risco de perder seu suposto “status” e se transformar no foco de possíveis ataques.

Sabemos que não é fácil. Muitas vezes pode ser muito arriscado defender outras pessoas. No entanto, devemos ser capazes de nos envolvermos na medida do possível, de buscar novos mecanismos, ações e canais para defender a pessoa que precisa de ajuda. Como disse o filósofo Edmund Burke, a justiça só existe porque as pessoas se esforçam para combater a injustiça.

A necessidade de abrir os olhos diante da maldade diária

A maldade tem muitas formas. Pode ser enigmática, às vezes está encoberta e fala várias línguas: o desprezo, o vazio, a agressão verbal, a discriminação, a rejeição, a injustiça…

“A tolerância é um crime quando o que se tolera é a maldade”.
 – Thomas Mann –

Não se trata de colocar a capa de super-herói e sair em busca de pessoas que sofrem. É algo mais simples, mais básico e útil: abrir os olhos e ser sensível ao que acontece todos os dias diante de nós, no nosso próprio ambiente. Todos nós temos a responsabilidade de evitar a perpetuação da injustiça; nada melhor do que começar com o que temos mais perto.

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A integridade moral é um ato de responsabilidade diária, onde decidimos dar o primeiro passo para denunciar um crime, um abuso, uma agressão e injustiça. Façamos com que a bondade tenha um sentido real, que a nobreza tenha voz e seja útil.

Imagem principal cortesia de Benjamin Lacombe.

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