A privação sensorial e suas terríveis consequências

agosto 10, 2019
A privação sensorial, particularmente em um lapso superior a 48 horas, gera grandes efeitos na percepção, cognição e emoções. Está comprovado que a privação social tem efeitos muito semelhantes.

Os primeiros estudos sobre a privação sensorial datam da década de 1950, embora investigações secretas pudessem existir antes dessa data. Os primeiros experimentos com voluntários foram realizados na McGill University, em Montreal, Canadá.

Em seu conceito mais básico, a privação sensorial tem a ver com a restrição parcial ou total de estímulos, aplicada a um ou mais sentidos. Impedir a visão, a audição, o tato ou todos de uma vez. Esses tipos de práticas têm sido usados ​​para fins de pesquisa terapêutica e como método de tortura.

Infelizmente, foi esse último uso que despertou o interesse na privação sensorial.

Após a Segunda Guerra Mundial, começaram a dizer que os prisioneiros podiam confessar sem ser espancados. Bastava privar os seus sentidos dos estímulos do meio ambiente e a sua vontade mudava drasticamente.

“Existem cinco vias de entrada para o cérebro, apenas cinco. Tudo o que uma criança aprende em sua vida, ela aprende através dessas cinco vias. Você pode ver, ouvir, tocar, provar e cheirar. Tudo o que Leonardo da Vinci aprendeu, aprendeu através dessas cinco vias”.
– Glenn Doman –

Homem preocupado demais

Condições dos experimentos

Em princípio, três tipos de condições experimentais foram usados ​​para estudar a privação sensorial, pelo menos nos estudos conhecidos.

A primeira é a situação de Bexton, Heron e Scott, datada de 1954. A segunda, a de Wexler, Mendelson, Liederman e Solomon, de 1958. E a terceira é a situação de Shurley, 1960. Vejamos em que consiste cada uma delas:

  • Primeira situação: não há privação sensorial total. O voluntário fica deitado em uma cama, dentro de um quarto claro e isolado. Usa óculos escuros, luvas e cápsulas de papelão prendem as suas mãos. Permanece assim por dois a seis dias.
  • Segunda situação: o voluntário se deita em um colchão que está dentro de uma cápsula que limita os seus movimentos. Ele fica em um quarto com paredes nuas e luz mínima. Permanece assim por até 36 horas.
  • Terceira situação: o voluntário mergulha em um tanque de água completamente nu. Ele usa uma máscara que lhe permite respirar, mas não vê nem ouve nada. Não toca no fundo do tanque. Permanece assim enquanto resistir.

Privação sensorial e processos perceptivos

Os experimentos realizados avaliaram, primeiramente, se essas condições alteravam os processos perceptivos. Eles concluíram que sim, e de uma forma muito notória.

Existem, acima de tudo, muitos distúrbios visuais. O voluntário vê que objetos estáticos se movem e mudam de tamanho e forma.

Eles veem inclusive que as paredes se movem e que as mesas andam. Há também uma maior sensibilidade visual, mas depois de vários dias, os estímulos são percebidos mais lentamente. Uma linha reta chega a se parecer com um “S”. Outras alucinações também ocorrem.

Da mesma forma, há uma desorientação geral em relação ao toque e na percepção do tempo e do espaço. Um dos experimentos mostrou que os efeitos do isolamento social são semelhantes aos da privação sensorial.

Privação sensorial: efeitos cognitivos

Muitos dos voluntários indicaram que queriam aproveitar o experimento para pensar em problemas pessoais aos quais não tinham conseguido dedicar tempo.

No começo eles fizeram isso, mas com o passar das horas era cada vez mais difícil se concentrar em seus pensamentos. Depois de um certo tempo, eles nem sequer conseguiam contar até 30.

Os pesquisadores descobriram que a capacidade de memorizar e reter informações melhorou após os experimentos. Ao mesmo tempo, a capacidade de abstrair, generalizar e fazer cálculos matemáticos diminuiu.

Surpreendentemente, a capacidade de aprendizagem melhora naqueles que estão sujeitos à privação sensorial em comparação com aqueles que não sofrem desta condição.

No entanto, as habilidades motoras diminuem significativamente, especialmente após 48 horas sem receber estímulos.

Mulher sofrendo com privação sensorial

Algumas conclusões interessantes

Para dizer em termos simples, o que todas essas experiências provaram é que através da privação sensorial é possível induzir estados de pseudopsicose. Isto é, uma psicose temporária.

Diz-se “pseudo” porque uma vez que o experimento termina e a pessoa retorna à sua vida normal, ela também recupera todas as suas funções habituais.

Um dos resultados mais interessantes foi verificar que, enquanto em pessoas chamadas “normais” ocorrem alucinações durante a privação sensorial, naqueles que são diagnosticados com esquizofrenia essas alucinações tendem a desaparecer.

Também foi possível comprovar que a personalidade de cada indivíduo é decisiva no modo como ele experimenta a privação sensorial.

Todos os voluntários se esforçaram para se adaptar às condições, mas boa parte deles tende a lembrar do passado e entra em depressão. Quase todos se tornam muito mais sugestionáveis, e isso intensifica os efeitos mais profundos da tortura psicológica, assim como os da terapia psicológica.

  • Ardila, R. (1970). Privación sensorial. Revista Interamericano de Psicologia, 4, 253.