Uma visão do tempo a partir da ciência

agosto 1, 2019
A ideia de um relógio neural localizado em algum lugar do cérebro é objeto de pesquisa há muito tempo. Recentemente, a Universidade de Ciência e Tecnologia da Noruega parece ter identificado esta estrutura.

Desde os tempos antigos, o ser humano tenta desenvolver uma visão do tempo e medi-lo, desde os primeiros calendários lunares até a invenção dos relógios. Sempre precisamos de mecanismos mais ou menos complexos para nos posicionarmos no mundo em relação a como o tempo passa.

Na realidade, a visão do tempo percebido é muito diferente do tempo real. Podemos medir o tempo, mas a percepção que temos dele é difícil de quantificar.

A ciência está descobrindo muitos dados sobre a visão subjetiva do tempo, aquela experimentada pelos seres vivos, incluindo o ser humano.

Uma equipe de pesquisa localizou um relógio neural no córtex lateral entorrinal do cérebro. Este relógio neural é o responsável pela percepção que temos da passagem do tempo, e o faz com base nas experiências que temos.

Talvez seja por isso que, às vezes, temos a sensação de que o tempo voa, e outras vezes, de o tempo não passa.

As primeiras pesquisas sobre a visão do tempo

Nos anos 30, o psicólogo Hudson Hoagland já havia percebido a existência de um tipo de relógio neural no cérebro humano. Isso aconteceu enquanto a sua esposa estava doente com febre.

Ela reclamou que, quando o marido saía do quarto, demorava muito para voltar. Assim, o Dr. Hoagland observou que quanto maior a febre da esposa, mais lenta era a sua percepção do tempo.

Estudos posteriores mostraram que a percepção do tempo podia ser acelerada quando a temperatura do corpo humano caía. Desde aqueles primeiros estudos, muitos outros pesquisadores têm trabalhado na percepção subjetiva do tempo.

Foram fornecidas informações muito valiosas para promover novas pesquisas. A ciência começa a esclarecer a visão do tempo percebido, que difere bastante do tempo real.

A nossa visão do tempo

O relógio neural

A ideia de um relógio neural localizado em algum lugar do cérebro é tema de pesquisas há vários anos. Recentemente, a Universidade de Ciência e Tecnologia da Noruega parece ter localizado o relógio neural em ratos de laboratório usados para o estudo.

Além disso, os pesquisadores desta Universidade, May-Britt Moser e Edvard Moser, descobriram uma rede de neurônios que criam um mapa espacial do ambiente. Este mapa tem várias escalas e está baseado em unidades hexagonais.

O Dr. Albert Tsao, da Universidade de Stanford, tomou como base os resultados desta pesquisa para determinar a função do córtex entorrinal. Ele descobriu que a atividade dessa área do cérebro muda constantemente e sem nenhum padrão definido.

As mudanças ocorrem ao longo do tempo. Foi analisada a estrutura formada por centenas de neurônios ao se conectarem, dando origem a esse mecanismo de experimentação de tempo.

“O tempo é um processo em desequilíbrio. É sempre único e está em constante mudança”.
– Edvard Moser –

A nova visão do tempo a partir da ciência

Tudo parece indicar que essa rede de neurônios localizada no córtex entorrinal cria “selos temporários”. Esses selos temporários marcam os eventos que estabelecem sequências de acontecimentos.

Dessa forma, as diferentes experiências seriam responsáveis por moldar, de alguma forma, o tipo de sinal temporário e a maneira como o tempo é percebido.

Ou seja, essa rede de neurônios não codifica explicitamente o tempo. Ela cria um tempo subjetivo nascido do fluxo contínuo de eventos vivenciados.

“O nosso estudo revelou como o cérebro constrói o tempo como um evento que é experimentado”.
– Albert Tsao –

Ser rico é ter tempo entre os dedos

A maneira como experimentamos o tempo

Estudos anteriores a este já começavam a relacionar a dopamina com este relógio neural. Foi detectado que, em circunstâncias que o cérebro percebe como ‘agradáveis’, a dopamina produzida na substância negra é liberada nos neurônios que parecem formar o relógio neural.

É nesse momento que eles começam a integrar sinais temporais. Dessa forma, eles deduziram que essa é a maneira por meio da qual o cérebro se adianta segundos, ou até minutos, a um acontecimento. Quanto maior o nível de dopamina, mais acelerado o relógio neural, e vice-versa.

Os resultados obtidos a partir dessas pesquisas começam a nos dar um conhecimento mais profundo sobre a percepção do tempo.

Além disso, poderia ser uma explicação para explicar por que eventos que são experimentados em poucos segundos podem ser relatados posteriormente como ocorrendo em um intervalo de tempo mais longo.

É o que acontece nos acidentes de trânsito, por exemplo. Também explicaria por que o tempo passa muito mais rápido quando estamos fazendo algo que produz emoções positivas. Ou então, por que durante as atividades que nos aborrecem o tempo não passa.

Parece que as emoções têm muito a ver com essa visão do tempo. Isso é algo que já intuíamos e que a ciência está começando a demonstrar.