A teoria das cicatrizes da depressão

Lidar com a depressão ao longo de vários meses tem um impacto sobre o cérebro. A teoria das cicatrizes da depressão afirma que, em alguns casos, a personalidade pode mudar depois de passar por esse distúrbio psicológico.
A teoria das cicatrizes da depressão

Última atualização: 05 abril, 2022

A teoria das cicatrizes da depressão nos diz que, em alguns casos, ter sofrido desse distúrbio psicológico pode afetar a nossa personalidade. Dois dos seus efeitos seriam a vulnerabilidade e a baixa autoestima.

O cérebro sofreria algumas pequenas alterações em sua estrutura que afetariam certos aspectos da nossa resistência psicológica. Os dados são, ao mesmo tempo, alarmantes e controversos. Isso porque, em muitos casos, a própria baixa autoestima já é um fator de risco para o desenvolvimento e o aparecimento dessa condição. Ou seja, em outras palavras, sempre existem alguns fatores de risco que aumentam a probabilidade de sofrer de um transtorno do humor.

No entanto, essa abordagem sugere que lidar com a depressão deixa sequelas em nível orgânico que aumentariam, por exemplo, o risco de recaídas. Por enquanto, os neurocientistas nos dizem que essa teoria explicaria por que algumas pessoas são mais vulneráveis a certos problemas de saúde mental, enquanto outras são mais “ resilientes ”.

Neurônios no cérebro representando a teoria das cicatrizes da depressão
Quando os episódios repetidos de depressão não são tratados, isso pode ter um sério impacto na função cerebral.

Em que consiste a teoria das cicatrizes da depressão?

A teoria das cicatrizes da depressão sugere que há um efeito causal da própria psicopatologia em certas mudanças de personalidade. Essa relação de causa-efeito aparece quando há uma depressão maior e, de forma geral, não se recebe tratamento. Assim, a longa duração, juntamente com a falta de abordagem terapêutica, leva a uma alteração na funcionalidade cerebral.

Foram os cientistas Mathias Aleman, Andrea E. Grünenfelder-Steiger e Christoph Flückiger que falaram sobre este modelo interessante em um estudo de 2018. Neste trabalho, é proposto que sofrer repetidamente de um transtorno do humor terá (em algumas ocasiões) consequências biológicas, psicológicas e cognitivas.

Para entender essa realidade neurológica, é aconselhável ter em mente um detalhe. A neuroplasticidade é o mecanismo fundamental de defesa neural diante do estresse. Graças a ela, a função sináptica, bem como os mecanismos moleculares e celulares podem reagir a essas alterações neurológicas que geram a depressão. No entanto, quando um transtorno depressivo não recebe tratamento, a neuroplasticidade é reduzida.

Devemos ver a depressão como um fenômeno clínico multifatorial no qual intervêm fatores genéticos, de personalidade e também contextuais ou sociais.

Como a depressão maior afeta o cérebro

A teoria das cicatrizes da depressão insiste no fato de que o cérebro muda como resultado desse transtorno psicológico. Há um estudo que destaca essa relação. Sofrer de depressão maior (a mais grave) pode retardar a recuperação e até mesmo deixar sequelas.

As mudanças que podem surgir afetam tanto a sua estrutura quanto a sua funcionalidade. São as seguintes:

  • Existem regiões do cérebro que podem apresentar um encolhimento da sua estrutura, como é o caso do hipocampo. Essa área relacionada à memória, às emoções e também à aprendizagem pode fazer aumentar a desesperança e dificultar o armazenamento de novas informações.
  • O tálamo, que regula o sono, o estado de alerta e a vigília, é outra estrutura que também pode ter o seu tamanho reduzido.
  • O córtex pré-frontal, essencial para a realização das funções executivas (tais como planejar, controlar impulsos e regular emoções), também sofre alterações na depressão maior.
  • A Universidade de Yamaguchi publicou um estudo mostrando como os transtornos depressivos reduzem o suprimento de oxigênio para o cérebro. Isso causa desde falhas de memória até problemas de atenção.
  • Os altos níveis de cortisol liberados durante um episódio depressivo também alteram a amígdala cerebral, hiperativando-a. Isso aumenta a sensação de ameaça, alerta e medo.
Cérebro iluminado representando a teoria das cicatrizes da depressão
A depressão maior também cursa com o aumento da inflamação cerebral. Isso afeta a neuroplasticidade, impedindo assim que os neurônios e as células cerebrais se adaptem diante das mudanças ou do estresse.

A teoria das cicatrizes da depressão: existe algum tratamento?

Durante os últimos anos, foram observados progressos notáveis no tratamento da depressão maior. A estimulação cerebral profunda é uma abordagem terapêutica promissora para este tipo de condição psicológica. De fato, esse paradigma teve grande evolução e está mudando a qualidade de vida de muitas pessoas desde 1995.

  • A estimulação magnética transcraniana (EMT) é um procedimento não invasivo no qual há a aplicação de uma série de campos magnéticos para estimular certas áreas do cérebro.
  • A estimulação dessas células nervosas no cérebro reduz os sintomas do transtorno depressivo, melhorando assim o estado de humor.
  • A pessoa não sente nenhuma dor ou desconforto. Afinal, consiste em simplesmente colocar uma bobina eletromagnética perto da testa.
  • Em média, o tratamento consiste em 20 sessões diárias de estimulação magnética transcraniana com duração de 30 minutos.

Cabe destacar que esta abordagem clínica geralmente é utilizada quando a terapia psicológica e o tratamento farmacológico não têm efeito sobre o paciente. Além disso, também quando há várias recaídas. Até o momento, o sucesso alcançado com esta técnica é muito positivo, assim esta é sempre uma opção interessante que vale a pena considerar.

De qualquer forma, há um aspecto evidente. As mudanças na personalidade e essa maior vulnerabilidade mental associada à depressão aparecem apenas quando não se ativa nenhum mecanismo de enfrentamento. Portanto, essa é a chave: procurar ajuda especializada ao nos depararmos com essa forma de desesperança contínua, com esse desconforto emocional que não dá descanso nem trégua.

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  • Allemand M., Grünenfelder-Steiger A.E., Flückiger C. (2018) Scar Model. In: Zeigler-Hill V., Shackelford T. (eds) Encyclopedia of Personality and Individual Differences. Springer, Cham. https://doi.org/10.1007/978-3-319-28099-8_855-1
  • Rizvi, S., & Khan, A. M. (2019). Use of Transcranial Magnetic Stimulation for Depression. Cureus11(5), e4736. https://doi.org/10.7759/cureus.4736
  • Trifu, S. C., Trifu, A. C., Aluaş, E., Tătaru, M. A., & Costea, R. V. (2020). Brain changes in depression. Romanian journal of morphology and embryology = Revue roumaine de morphologie et embryologie61(2), 361–370. https://doi.org/10.47162/RJME.61.2.06