A teoria do etiquetamento social

Ao rotular uma pessoa, estabelece-se uma diferença entre ela e o meio social ao qual pertence, o que na maioria das vezes implica em atitudes de exclusão social e rejeição.
A teoria do etiquetamento social

Última atualização: 17 junho, 2022

A teoria do etiquetamento social explica como os outros percebem o comportamento de uma pessoa e, de acordo com as suas características, a rotulam em relação às convenções sociais e culturais. O conceito central dessa teoria é o de que aquele que se “desviar” das normas sociais, que fazem parte do senso comum da sociedade, será rotulado negativamente.

A sociologia estuda as convenções e normas sociais e, para a teoria do etiquetamento social, usa o conceito de desvio: se a aparência ou o comportamento de uma pessoa se conformar apenas a uma minoria social, ela será rotulada negativamente por não atender aos padrões das normas e da cultura da sociedade dominante.

Mas em que consiste rotular alguém que não se enquadra em uma coletividade majoritária?

Breve história da teoria do etiquetamento social

Howard Saul Becker, sociólogo norte-americano, herdeiro da Escola de Chicago e do interacionismo simbólico, construiu as suas teorias em torno do desvio. De acordo com a sua pesquisa sobre os grupos sociais e suas interações, o desvio da norma social não é uma condição inerente a uma pessoa, mas sim a identificação desta por uma coletividade que professa determinadas normas de acordo com a “convivência social”.

Portanto, essa coletividade ou maioria social tenderá a impor sanções a uma pessoa ou minoria por transgredir a sua normatividade e se desviar dos seus costumes sociais. De acordo com a situação descrita anteriormente, o etiquetamento, com um forte caráter discriminatório, seria inevitável.

O papel dos estereótipos

É comum estereotipar uma pessoa por causa dos seus traços, de acordo com o grupo minoritário ao qual pertence. Nesse caso, a maioria social aponta e generaliza, a partir dos parâmetros perceptivos que possui sobre as suas normas e costumes.

O objetivo principal é classificá-la como transgressora da norma, uma vez que ela não cumpre com o que a maioria dita, ainda que isso signifique estigmatizá-la de forma discriminatória.

Mulher sofrendo discriminação
Os rótulos estabelecem uma diferenciação de uma pessoa em relação ao grupo social e cultural a que pertence.

Desvio primário e secundário

Podemos classificar o desvio em dois tipos: primário e secundário. Edwin Lemert (1912-1996), que foi professor de sociologia na Universidade da Califórnia, assim os definiu:

  • Desvio primário: não há sensação plena de desvio para aquele que não cumpre as regras, e os outros (a maioria social) também não o percebem dessa forma.
  • Desvio secundário: ao contrário do primário, a pessoa que quebra a norma é rotulada como desviante pela maioria social; portanto, ela se perceberá de acordo com a forma como os outros a percebem.

Em algum momento, todos nós já cometemos ações que são classificadas como desviantes. Por exemplo, usar drogas, fazer pichações não autorizadas, ignorar as leis de trânsito, etc. No entanto, há aqueles que, com traços muito característicos, são rotulados como desviantes absolutos, descumpridores de regras.

O estigma que se origina a partir dos rótulos

O estigma, intimamente relacionado ao desvio secundário, é o papel atribuído ao desviante, que serve para distorcer a sua biografia. Qualquer ato realizado em sociedade será classificado negativamente como um ato desviante da norma.

Assim, o papel dominante no indivíduo, bem como todos os seus atos passados, passam a ser reinterpretados a partir dessa perspectiva do estigma. Este é um processo de distorção biográfica conhecido como etiquetamento retrospectivo.

De acordo com o sociólogo Erving Goffman (1922-1982), estigmatizar alguém ativa alguns efeitos sociais, tais como o isolamento social, impulsionado por um grupo que se identifica com a rejeição do desviante (estigmatizado). A consequência seria que o indivíduo, ao receber as indicações limitantes, acabaria acreditando nelas, assumindo assim o papel atribuído pelos estigmatizadores. É como se eles fossem profetas do papel final a ser desempenhado pelo “desviante”, de acordo com a aplicação do Teorema de Thomas por Robert K. Merton.

Teoria do etiquetamento social na criminologia

Por causa do infeliz papel profético dos estigmatizadores contra o “desviante” (profecia autorrealizável), a pessoa rotulada agiria de acordo com as ações criminosas impingidas pelo grupo estigmatizador. Por exemplo, se tiver usado drogas apenas uma vez, mas for repetidamente apontada e assediada pela maioria por esses eventos, é muito provável que ela acabe se tornando uma usuária regular. Assim, de forma inconsciente, ela cumpriria a demanda estigmatizante.

Em parte por causa da teoria do etiquetamento social, a criminologia pode prever os padrões de algumas pessoas que cumprem a profecia estigmatizante. Esse processo faz com que o acusado, por assim dizer, busque a aprovação de outros que são como ele, ou seja, acusados por aqueles que se autodenominam “a maioria”. Essa situação faz com que esses padrões de comportamento se repitam diversas vezes, como se fosse um círculo vicioso.

Como a teoria do etiquetamento social opera na psicologia

A teoria do etiquetamento social, por desvio secundário, também pode atacar a saúde mental. Lembremos que a função da maioria social é rejeitar e isolar aquele designado como desviante, situação que pode levar a um transtorno mental para quem assume e sofre com esse papel.

No entanto, esse mesmo mecanismo de isolamento pode ser aplicado àqueles que não têm regulação emocional ou são considerados doentes mentais pela maioria social. Por exemplo, apontar uma pessoa como obsessivo-compulsiva simplesmente porque ela tem algumas características desse transtorno pode, em alguns casos, levá-la a realmente apresentá-lo. Ou seja, uma vez que ela já é tratada como se estivesse realmente doente, então ela assumirá esse papel inconscientemente. Mais uma vez, apresenta-se uma profecia autorrealizável.

Dois colegas de escritório falando mal de outro colega
Quando uma pessoa é rotulada, geralmente há uma tendência a rejeitá-la e excluí-la.

O que podemos fazer diante da teoria do etiquetamento social

Em primeiro lugar, nem sempre a maioria tem razão, ainda mais quando cada membro dela não tem critérios próprios ou senso crítico sobre o que se presume ser “desviante”. Além disso, devemos lembrar que o ser humano, sujeito político e social por natureza, tenderá a buscar a aprovação ou reconhecimento de alguma forma. Portanto, não é correto rotular ninguém para que fique fora da norma, aprovada por uma maioria.

Assumir uma postura crítica diante da estigmatização coletiva de um indivíduo ou minoria implica refletir sobre como as pessoas podem acabar aprendendo hábitos perversos ou contraproducentes para a sua saúde física e mental, apenas porque foram rotulados para atender à punição, conforme o cumprimento da norma da maioria social.

O diagnóstico e a prevenção dos comportamentos individuais e coletivos são as principais ferramentas para romper o círculo vicioso da estigmatização, para acabar de uma vez por todas com os comportamentos coletivos que julgam indiscriminadamente aqueles que sentem, pensam e agem de forma diferente das convenções e normas da maioria social.

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