Adolescentite, um “mal” que afeta milhões de adolescentes no mundo

· março 27, 2018

Há alguns meses a história de uma adolescente que pedia a sua mãe uma justificativa por ter chegado tarde à aula viralizou. A mãe, a princípio provavelmente surpresa pela cara de pau da filha, fez uso de sua originalidade justificando o atraso por um mal denominado adolescentite.

A mãe, Nicole Poppic, publicou em suas redes sociais que escreveu para sua filha justificando seu atraso dessa maneira: “Isso é o que acontece quando alguém chega tarde por culpa de suas próprias más decisões e me pede para escrever um bilhete para justificar seu atraso”.

A mensagem que a mãe escreveu para a escola dizia o seguinte: “Cara chegou tarde essa manhã por causa de uma doença conhecida como adolescentite. Afeta milhões de adolescentes do país e não se conhece a cura. Os sintomas são múltiplos, mas essa manhã especificamente era a incapacidade de levantar-se da cama e, além disso, sentia a necessidade de ser respondona com a sua mãe. (…) Por favor, me chamem caso identifiquem outros sintomas”.

“A adolescência é um novo nascimento, já que com ela nascem traços humanos mais completos.”
-Stanley Hall-

Adolescente rebelde

A adolescentite é o início da metamorfose

O psicólogo Stanley Hall é considerado um pioneiro no estudo da adolescência como etapa evolutiva. Ele descreveu a adolescência como um segundo nascimento no qual ocorre uma espécie de recapitulação das experiências infantis, acrescentando-se a elas uma série de crises e aprendizagens.

A adolescência é uma etapa que flui entre os 12-20 anos e na qual se inicia uma grande quantidade de mudanças que não são apenas físicas, mas também cognitivas, emocionais e existenciais. Devido a isso, nesse momento a tendência é questionar como o mundo funciona e que papel temos nele.

Isso supõe uma verdadeira revolução em todos os aspectos, pois nesse período os meninos e meninas estão imersos em uma montanha-russa emocional e cognitiva que os leva a comportar-se de uma maneira “revolucionária”.

A rebelião dos hormônios e a mudança de posição sócio-emocional é a razão pela qual o mundo chama essa etapa de adolescentite.

Uma das perguntas mais comuns entre os pais é por que, se o adolescente parece ter desenvolvido a capacidade de pensar como um adulto, não age como tal. Essa questão tem uma resposta clara: a maturidade cognitiva e a maturidade emocional não costumam andar juntas.

Mulher dentro de pote de vidro

Por isso costuma-se considerar que, em muitos aspectos, o adolescente ainda é emocionalmente imaturo, podendo ser definido como flutuante, explosivo e temperamental (características que normalmente estão relacionadas à adolescentite). No entanto, devemos saber que é graças a essa maturidade cognitiva ou de pensamento que se consegue iniciar a busca de uma identidade ou essência pessoal.

Em geral, o adolescente tem suas capacidades emocionais desenvolvidas a ponto de serem equivalentes às do adulto. No entanto, embora conte com elas, não conta com a experiência do adulto, por isso se concentra principalmente na análise desse mundo emocional que deverá absorver ao máximo.

É comum que, em meio ao seu turbilhão emocional, o adolescente manifeste com assiduidade estados emocionais negativos e emoções de grande intensidade que confundem justamente por se manifestarem juntos.

Essa ativação emocional impõe uma sobrecarga e faz com que o adolescente não consiga dar sentido a muitas de suas emoções de forma acertada em um primeiro momento. No entanto, precisamos levar em consideração que todas essas experiências ajudarão a compreender o complexo conjunto composto por suas emoções, seus pensamentos, suas ações e a situação psicossocial.

Mãe consolando sua filha adolescente

Três fatores que explicam as complexas relações familiares na adolescência

Milhões de pais de todo o planeta, sem dúvida, vão se identificar com a situação que mencionamos no início do artigo e que denominamos como adolescentite. O filho ou filha adolescente, no seu desejo de manter uma atitude rebelde e desafiadora, dá início a uma rebelião contra as normas estabelecidas pelos progenitores ou por toda a sociedade em si.

É preciso saber que para o adolescente esta também é uma etapa muito confusa, já que ele não consegue se encontrar apesar de estar continuamente buscando-se, reinventando-se e mudando. A estabilidade brilha por sua ausência e, a princípio, não se vê uma luz no fim do túnel.

A complexidade das relações familiares na adolescência pode ser explicada com os seguintes fatores delimitados (salvo, é claro, as diferenças individuais):

1. Conflitos com os pais e com sua posição na sociedade

Em um determinado momento dessa etapa muitas vezes os adolescentes são tratados como crianças quando pedimos que se comportem como adultos, arruinando de alguma forma a visão de maturidade e certeza que têm de si mesmos e perpetuando um estado de conflito entre si mesmos e a sociedade.

Isso, na realidade, é um fenômeno que requer atenção e pode ser definido como dessincronização. Basicamente trata-se da precocidade com a qual o desenvolvimento pessoal ocorre enquanto a integração da pessoa no mundo adulto e profissional acontece de forma tardia. Isso prolonga a adolescentite e agrava, muitas vezes, os conflitos familiares.

Ilustração de mulher com cabelos verdes

2. Alterações do estado de ânimo

O adolescente é, por definição, emocionalmente flutuante. Suas mudanças de humor são mais bruscas e os estados de ânimo são mais extremos e negativos com mais frequência. Se questionados ao logo do dia, costumam informar uma maior quantidade de sentimentos negativos do que os adultos e os pré-adolescentes.

O adolescente é ainda mais flutuante, intenso e negativo se não for popular dentro dos grupos, tiver um baixo rendimento escolar ou estiver envolvido em conflitos familiares como o divórcio. A adolescência, ainda considerando as diferenças individuais, é uma etapa com grandes possibilidades de ser “emocionalmente complicada”.

3. Comportamentos de risco

Os adolescentes, no seu desejo de ir contra as normas, se envolvem mais facilmente em comportamentos ilegais, antissociais, imprudentes ou que impliquem algum risco. No entanto, diferentemente dos conflitos familiares e das alterações anímicas, as condutas de risco são mais prováveis na adolescência tardia e no começo da juventude, algo que se explica pela impulsividade e pela tendência a buscar novas sensações.

Esses dois fatores, juntamente com os comentados antes, nos ajudam a compreender que estamos diante de um período crítico que necessita da supervisão e da orientação (a uma distância prudente e variável em função das circunstâncias) dos responsáveis pelo menor.

É preciso esclarecer que a adolescência é uma etapa na qual a pessoa se impregna do que tem no entorno, por isso devemos cuidar muito desse entorno. Não existem varinhas mágicas que nos ajudem a lidar com essa etapa, mas é certo que, por mais estranho que pareça, a adolescência exige uma preparação a nível familiar igual a que ocorre quando um bebê vai chegar a um lar.