Alcançar o bem-estar psicológico não depende apenas de nós mesmos

Estar bem psicologicamente nem sempre depende da nossa atitude ou de quão otimistas nós somos. Não somos super-heróis e existem muitas coisas que estão além do nosso controle.
Alcançar o bem-estar psicológico não depende apenas de nós mesmos

Última atualização: 20 Maio, 2021

O filósofo Albert Schweitzer disse que estar bem é mais do que ter uma boa saúde física, e depende também de uma boa atitude mental. Certamente, essa é uma ideia lógica e significativa. Na maior parte do tempo, entretanto, alcançar o bem-estar psicológico não depende apenas da nossa atitude em relação às coisas. Isso porque, logicamente, o que nos rodeia também nos afeta e nem sempre pode ser controlado.

Igor Grossmann, professor de psicologia científica da Universidade de Waterloo, no Canadá, destaca que somos uma sociedade cada vez mais individualista. Essa característica é um fato percebido desde o século passado e agora, em meio à era tecnológica, está no ápice. Isso faz com que, por exemplo, passemos a supor que a felicidade é algo que se deve construir por meio da força de vontade e da determinação.

Constantemente dizemos a nós mesmos que, com a motivação certa, qualquer objetivo pode ser alcançado e que, se nos esforçarmos, podemos fazer de tudo. Ou seja, para estar bem, basta termos pensamentos otimistas.

No entanto, colocar toda a responsabilidade pelo bem-estar sobre seus próprios ombros é perigoso. Isso porque, repentinamente, as coisas podem mudar. Nem tudo está sob o nosso controle, nem depende de nós mesmos.

Às vezes, o destino nos traz coisas tão inesperadas quanto dolorosas. As pessoas ao nosso redor podem ir embora, nos trair ou nos decepcionar. Diante dessas situações, só resta ser consciente de que ser feliz não está 100% nas nossas mãos e de que a adversidade, às vezes, é um fator caótico que ninguém consegue prever.

Homem triste pensando

O desafio diário de alcançar o bem-estar psicológico

Alcançar o bem-estar psicológico é uma tarefa diária e constante, não um objetivo que se alcança e se realiza uma única vez. Às vezes, mesmo sentindo que estamos em um bom momento, é importante continuarmos cuidando e lidando com os pequenos e grandes desafios que surgem no dia a dia. Por exemplo, podemos ser muito felizes numa relação amorosa ou num momento profissional de sucesso absoluto.

No entanto, sempre surgem pequenos fatores que não estão sob o nosso controle e que geram estresse, ansiedade e preocupação. O fato de isso acontecer não significa que tenhamos feito algo errado. O fato de reduzirem repentinamente o quadro de funcionários na minha empresa não significa que eu seja menos adequado para o meu trabalho. Às vezes, há crises econômicas capazes de alterar boa parte do substrato trabalhista e social.

Sendo assim, se em algum momento nós acabamos, por exemplo, com uma depressão relacionada ao desemprego, isso não significa que somos menos válidos, menos corajosos ou que sejamos fracos. Diante de todas as circunstâncias complicadas, reagimos como o que somos: seres humanos e não super-heróis. Somos pessoas interconectadas, imersas em um contexto de eventos (muitas vezes inesperados) que sempre nos afetam, em maior ou menor grau.

Do que depende, então, ser capaz de estar bem emocional e mentalmente?

Sabemos que, para alcançar o bem-estar psicológico, nem tudo depende de nós mesmos. Sendo assim, quais fatores determinam este bem-estar? Trabalhos de pesquisa, como os realizados na Universidade de Adelaide, na Austrália, nos mostram algo interessante. Muitas vezes, dizemos a nós mesmos que o bem-estar psicológico é sinônimo de felicidade e que seu oposto é o desconforto mental.

Porém, na psicologia, como em muitas coisas da vida, nem tudo é binário, em tons de preto e branco, bom e mau. Às vezes, o oposto de felicidade não é infelicidade, mas sim o medo. Dessa forma, quando falamos em bem-estar psicológico, é importante considerarmos que ele é composto por diversos fatores complexos.

O modelo de Ryff para alcançar o bem-estar mental

A psicóloga Carole Ryff enunciou, nos anos 90, uma teoria que ainda é interessante e útil a respeito de como alcançar o bem-estar psicológico. Essa abordagem é baseada na Ética a Nicômaco, de Aristóteles, e nos oferece 6 fatores:

  • Autonomia. Definida como a capacidade de nos percebermos como independentes, capazes de realizar nossas ações sem pressão social.
  • Controle ambiental. Refere-se à sensação que temos de ter controle sobre boa parte das coisas que nos rodeiam.
  • Crescimento pessoal. Definido pela sensação de estarmos evoluindo, amadurecendo para adquirir uma visão mais elevada do mundo e de nós mesmos.
  • Relações positivas com outras pessoas. Uma das chaves para alcançar o bem-estar psicológico é desfrutar de relacionamentos pessoais enriquecedores.
  • Propósito de vida. Como Viktor Frankl nos mostrou, ter um significado vital é a chave para encontrar equilíbrio e satisfação.
  • Auto-aceitação. Saber nos aceitar, amar-nos pelo que somos e validar nossas necessidades é uma forma de nos reafirmarmos como pessoas para nos sentirmos bem.

Se analisarmos cada uma dessas dimensões, perceberemos algo: alcançar o bem-estar psicológico depende de fatores que não estão 100% em nossas mãos. Às vezes, a sociedade não nos permite ter essa autonomia absoluta sobre nossas vidas e acabamos não tendo controle de tudo que nos rodeia. As relações com nossos entes queridos podem não ser tão positivas quanto gostaríamos, por exemplo.

Mulher soprando dente-de-leão

Nem sempre podemos estar bem, e isso é normal

Nem sempre estamos bem, e isso é normal. Não podemos ter a mesma energia, otimismo e motivação todos os dias porque somos pessoas, não robôs programados por algoritmos. O que nos rodeia nos afeta, e ser vulnerável a eventos imprevistos é perfeitamente aceitável e compreensível.

É preciso saber lidar e navegar com o que encontramos no dia a dia. Haverá dias em que seremos felizes e momentos em que nos sentiremos profundamente infelizes. Haverá momentos de dificuldade e anos de calma e satisfação.

A existência não é uma linha reta nem um mar calmo, por isso devemos aprender a navegar entre as incertezas da vida, tentando estar bem com nós mesmos.

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  • Ryff, Carol D. (1989), “Beyond Ponce de Leon and Life Satisfaction: New Directions in Quest of Successful Aging”, International Journal of Behavioral Development , 12 : 35–55, doi : 10.1177 / 016502548901200102
  • Winefield, H.R., Gill, T.K., Taylor, A.W. et al. Psychological well-being and psychological distress: is it necessary to measure both?. Psych Well-Being 2, 3 (2012). https://doi.org/10.1186/2211-1522-2-3