Amar e ser amado, marcas emocionais

· maio 27, 2016

Na sociedade atual, está muito difundida a ideia de que apenas o traumático marca a nossa vida. Sem pensar demais, nós ignoramos a importância do que fazemos, como o ato de amar e ser amado, voltando à ideia de que somente o negativo deixa feridas, marcas, cicatrizes ou traumas, deixando o amar e as possíveis marcas emocionais afastados um do outro, sem possibilidade de reconciliação.

A verdade é que isso é uma autêntica pena, já que a realidade das marcas emocionais podem ser muito diferentes dessa concepção que parece ter sido tirada de um filme de terror. Falemos sobre isso. Do que estaríamos falando quando falamos sobre a ideia que a sociedade tem sobre esse assunto?

De forma geral e partindo do que a televisão, o cinema e os livros não se cansam de repetir, podemos nos atrever a dizer que a sociedade pensa que uma marca emocional é aquela mudança que acontece em uma pessoa depois que ela passou por uma situação traumática. Mudança essa normalmente radical e sem conexão alguma com a personalidade que conhecíamos do protagonista.

Portanto, como já vimos no começo do artigo, aparentemente tudo aquilo relacionado com as marcas emocionais é ruim ou doloroso. Entretanto, ainda não entrou em cena a segunda opção da qual falávamos ao começo; O que acontece com os eventos positivos? E com o amar e ser amado?

Em busca do amor

A pergunta está lançada: o que acontece com os eventos positivos? Eles têm alguma coisa a ver com o amar e ser amado? Bom, há muitas formas de responder a essa pergunta, mas todas, absolutamente todas, passam pelo caminho do SIM.

Antes de mais nada, vamos procurar as perguntas adequadas. Os acontecimentos positivos podem influenciar nosso comportamento, nossas emoções e nossos pensamentos? Se acontecer algo bom conosco, por exemplo, se nos derem uma boa notícia ou conseguirmos uma vaga de trabalho, notaremos mudanças nesses aspectos?

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Se tomamos a personalidade como um conceito de comportamentos, emoções e pensamentos de uma forma estável no tempo, poderíamos dizer que, se fôssemos capazes de viver acontecimentos positivos durante o tempo suficiente, eles não estariam nos marcando?

E, por último, poderíamos dizer que amar e ser amado é um dos acontecimentos mais bonitos, puros e positivos que podem acontecer em nossas vidas? Definitivamente, talvez esse seja um dos motores mais potentes que o humano tem. É estranho pensar que, com a quantidade de neurônios, hormônios, comportamentos, pensamentos e sentimentos unidos ao amor, nossa personalidade seja absolutamente impermeável a ele.

Portanto, poderíamos dizer que se amamos quem nos ama pelo tempo suficiente (algo extremamente pessoal e variável) nossa personalidade poderá mudar?  O amor é uma marca emocional se for expressado da forma correta?

Um exemplo de amar e ser amado

A psicologia falou muito sobre o amor e sobre o vínculo criado entre as pessoas, catalogando vários tipos e usando muitos termos diferentes. Mas, possivelmente sejamos capazes de entender melhor como o fato de amar e ser amado nos influencia através de um exemplo cotidiano.

Estamos num relacionamento há pouco tempo. Já faz algum tempo que não tínhamos relações, até que aparece essa pessoa que mexe com o nosso mundo. Ou pelo menos, tenta fazê-lo, porque, é claro, nós também temos cicatrizes e é difícil acreditar que estamos nos apaixonando mais uma vez. Com tudo o que já sofremos! Além disso, não somos mais adolescentes. 

Conforme avança o relacionamento, quase sem querer, vamos nos esquecendo de frear nosso impulso de aproveitar, de pularmos de cabeça. Assim, enquanto essa pessoa se encarrega de inflar cada vem mais o relacionamento, em segredo, vamos ficando cada vez com mais vontade de pular… e acabamos fazendo isso, vez ou outra, cada vez com mais vontade. 

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Finalmente, procuramos um cantinho para ela em nossa vida, a base de sonhos. Essa pessoa vai começando a fazer parte do nosso esquema mental, nosso máximo de felicidade e nossa expectativa de vida. Voltamos a ser nós mesmos, sem máscaras nem segredos. Se há convivência, aparecem manias, bobagens, besteiras e costumes que, sendo mais ou menos incômodos, acabamos relativizando e aceitando.

Mas também, como num passe de mágica, descobrimos aspectos de nós mesmos que considerávamos como mentiras, esquecidos e terminados. A empatia pela pessoa amada. A preocupação pelo seu bem-estar. Esse gaguejar impossível em nós, sendo que antes tínhamos nervos de aço. Essa vontade de compartilhar e aproveitar. E, acima de tudo, essa bondade em nós mesmos, que considerávamos impossível e muito “cara de filme” para ser verdade. 

Descobrimos que vamos mudando, definitivamente. Mudamos, não pela pessoa, para quem possivelmente tudo está lindo, mas pelo sentimento presente em nossa mente e em nosso coração. De fato, mudamos, e abraçamos a mudança com alegria e gratidão, esquecendo medos e superando cicatrizes e traumas. Criamos uma marca muito mais profunda que as anteriores, mais visível e, então, muito mais bonita.

Por que tanto empenho?

Durante todo o texto nos esforçamos para nos convencer de que o amor pode ter uma força muito maior em nossa psique e em nossa personalidade do que os acontecimentos negativos. Obviamente, isso pode ou não ser verdade; é necessário que prestemos atenção a todos os fatores de ambos os tipos de acontecimentos. Então, por que tanto empenho?

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Sinceramente? Por justiça. Justiça por essa emoção, pelos relacionamentos saudáveis e pelos sentimentos positivos. Diariamente vemos situações nas quais são geradas emoções negativas, clichês e estereótipos em torno do amar e ser amado, argumentos que nos tiram a vontade de mergulhar de cabeça em um relacionamento, medos latentes, limites para a nossa capacidade de sermos felizes em casal.

Por isso, para quem está em dúvidas se vai mergulhar ou não num relacionamento, para aquele que tende a se concentrar em cicatrizes e não pode ver como voltará a deixar aquela marca, ou para aquele que não sabe se quer se lançar e não se atreve, esta é uma mensagem de ânimo. Afinal de contas, para quê mais um par de marcas emocionais? Mas dessa vez, que sejam das boas.

Não só podemos nos sentir gratos e orgulhosos de nossos sentimentos e marcas emocionais, mas também do que vivemos, sendo conscientes de tais marcas e compreendendo-as; orgulhosos de quem nos tornamos. Aquilo resultante de termos como base o amar e ser amado.