Amor à primeira vista, em um encontro de olhares

· julho 2, 2018

O amor à primeira vista é como dois olhares que se cruzam. São dois olhos que se encontram e convergem no fundo da alma, fazendo o tempo parar desde o primeiro minuto. Também é o mistério de um encontro onde a química orquestra a atração, mas no qual surge com frequência a conexão, aquela que devolve a alegria de viver e permite que o coração volte a palpitar esperançoso uma vez mais.

A ideia cativa, mas a realidade, às vezes, é muito diferente. O amor à primeira vista vende, agrada e configura uma imagem muito repetida no âmbito do cinema, da literatura e da publicidade.

O livro ‘Love at first sight: The stories and science behind instant attraction’, do Dr. Earl Naumann da Universidade do Arizona, lembra que mais da metade de nós acredita neste fenômeno. Acreditamos que basta um olhar para que a chama do amor queime, nasça e nos conquiste plenamente deixando-nos sem respirar.

“O amor está no mundo para esquecermos o mundo”.
– Paul Éluard –

Essa faísca neuroquímica, carregada de incerteza, desejo, mistério e ilusão, tem a sua própria ciência. Assim, apesar da matéria afetiva nem sempre poder ser observada através de um microscópio, ou em uma sala de laboratório, cabe dizer que grande parte dos trabalhos realizados até o momento vêm nos dizer a mesma coisa. O amor à primeira vista existe, no entanto, há uma série de condicionantes que o acompanham que também é necessário considerar.

Casal se protegendo da chuva

Não chame isso de amor, chame de atração

Existem amores precipitados, desses que não sabem esperar, que surgem em um instante e nos momentos mais imprevisíveis. Os amores à primeira vista acontecem desde sempre e vão continuar acontecendo em cada momento. Mesmo assim, também temos os amores a fogo lento, aqueles que são cozidos lentamente e de forma suave, partindo de uma amizade sincera para se transformar, de repente, em uma paixão verdadeira.

O amor não entende de normas, critérios e ordens no que se refere à forma como aparece, já sabemos disso. No entanto, no caso de querer manter esse amor que surge de forma inesperada, vamos precisar de uma ordem, de acordos negociados, de uma democracia afetiva consensual definida de forma inteligente. Se mencionamos este último item, é por uma razão evidente. No amor à primeira vista, quem liga o maquinário é a atração, não a razão.

É o desejo e a ilusão, é o magnetismo, é o efeito de halo, e o naufrágio químico propiciado pela serotonina e a dopamina. É a porta de entrada que vai facilitar uma relação sentimental, que vai dar maiores possibilidades para que aconteça esse primeiro encontro. É um amor que chega sem avisar, mas que exigirá depois um amadurecimento mais minucioso, que terá que desnudar os mistérios com as realidades, deixando de lado as ilusões para poder contemplar os fatos.

Olho com feixe de luz

O amor à primeira vista: o que diz a ciência

A Universidade da Holanda realizou um estudo em 2017 sobre este mesmo assunto. O trabalho “What kind of love is love at first sight? An empirical investigation”, fez um monitoramento sobre cerca de 600 pessoas que haviam experimentado o que eles mesmos definiram como “amor à primeira vista”.

Dessa amostra, 92% iniciaram uma relação depois dessa reunião, desse encontro de olhares onde a maioria tinha a plena certeza de que havia encontrado alguém verdadeiramente especial. Os pesquisadores realizaram entrevistas com os casais para saber um pouco mais sobre certas dimensões psicológicas.

O amor à primeira vista está relacionado com o aspecto físico (e algo mais)

O amor à primeira vista concentra a atração física, não existe dúvida. No entanto, nem sempre é necessário que exista essa beleza externa e incontestável que capta a atenção imediatamente. Os pesquisadores explicam que existe algo mais, algo que se transmite através de olhares que brindam confiança, simpatia, que se conectam com conforto e sem medo.

O efeito de halo

Como mencionamos antes, quando duas pessoas experimentam uma atração depois dessa união de olhares, é mais provável que exista um primeiro encontro. No entanto, o que acontece, em muitas ocasiões é que depois do magnetismo nascido através do olhar, começamos a criar uma série de idealizações que nem sempre se ajustam à realidade.

Essa atração se origina, por sua vez, ao projetarmos em outra pessoa uma série de qualidades positivas muito específicas. Nós as vemos mais inteligentes, mais nobres, originais, confiáveis e comprometidas. Criamos um efeito de halo que, junto com a paixão, fará com que esse sentimento seja mais duradouro no tempo. No entanto, mais cedo ou mais tarde, revelam-se certas evidências mais ou menos toleráveis.

O amor à primeira vista favorece os românticos

O estudo da Universidade da Holanda verificou que uma parte significativa da amostra estudada manteve a relação no tempo com êxito. Ou seja, o amor que surgiu à primeira vista perdura em muitas ocasiões, amadurece e se estabelece em uma relação sentimental satisfatória.

Em grande parte dos casos, no entanto, a relação acaba quando a paixão enfraquece, quando a ilusão tropeça na realidade e o casal não é capaz de reconverter esse compromisso em um laço baseado na intimidade, na confiança, no carinho e na reciprocidade.

Igualmente, algo que também pode ser demonstrado neste estudo é que grande parte dos casais que haviam criado a sua relação a partir desse encontro de olhares tão significativo eram ferrenhos defensores do amor romântico. Para eles, aspectos como a predestinação ou a alma gêmea eram fatos evidentes que explicavam o seu sucesso na relação.

Casal com o rosto colado

Para concluir, a ciência não pode negar que, em certos casos, o amor à primeira vista existe e é um triunfo. No entanto, em grande parte dos casos, depois que esses olhares se encontram, se descobrem e se conectam, o que existe é uma mera atração.

Pois bem, a atração é sempre um canal de inexplicável poder que age como o primeiro passo, como o primeiro degrau para um vínculo que, dia após dia, deverá amadurecer e passar pelas suas próprias dificuldades para prosperar em uma relação sentimental bem-sucedida e feliz.