Amor vazio: quando os relacionamentos são baseados apenas no compromisso

O compromisso é necessário para que um relacionamento dure, mas raramente é suficiente para que um relacionamento permaneça no tempo e seja satisfatório. Descubra quais elementos são importantes nesses tipos de relacionamento.
Amor vazio: quando os relacionamentos são baseados apenas no compromisso

Última atualização: 04 Janeiro, 2022

O conceito de amor que cada pessoa tem é diferente e, claro, a dinâmica de cada casal pode variar muito. Há aqueles que priorizam o tempo compartilhado e aqueles que valorizam a liberdade, há aqueles para os quais a sexualidade é um pilar fundamental e outros para os quais nada mais é do que um complemento. Em qualquer caso, quando um relacionamento é baseado apenas no compromisso, estamos diante de um amor vazio.

Paradoxalmente, essa é uma situação enfrentada por muitas pessoas que estão juntas há anos. O passar do tempo aliena emocionalmente os membros do casal, a rotina esgota o vínculo, tornando apenas o dia-a-dia e o compromisso -que um dia foi adquirido- os fatores que fundamentam a relação.

É tão comum que isso aconteça que passamos a normalizá-lo. Resignamo-nos a viver um amor vazio, assumindo que é inevitável e que não podemos aspirar a mais. No entanto, ser um casal é muito mais do que morar junto e compartilhar obrigações; não importa quanto tempo passe, está em nosso poder cultivar um vínculo mais completo e enriquecedor.

Teoria triangular do amor de Sternberg

O conceito de amor vazio surge da famosa teoria triangular de Sternberg. A psicóloga americana deu contribuições relevantes para a compreensão das relações interpessoais e afetivas, desenvolvendo uma teoria que continua sendo uma referência.

Para Sternberg, o amor é como uma pirâmide com três vértices; em cada um deles existe um elemento essencial para moldar o amor:

Paixão

Refere-se à atração física, excitação e ao desejo ou necessidade de estar perto de outra pessoa. Abrange todo o âmbito da sexualidade, mas não se limita a ela, engloba também o desejo romântico de grande intensidade e a tendência de buscar a união física e emocional com o outro. Está muito presente no início do relacionamento e é comum que diminua com o tempo.

Casal se beijando na cama

Intimidade

Intimidade é a conexão, cumplicidade e confiança que existe entre os membros do casal. Designa os sentimentos de amizade, afeto e proximidade mútua. A intimidade permite que os membros do relacionamento se conheçam, nutrindo assim a confiança que têm um no outro.

Esse elemento predomina em estágios mais avançados do relacionamento, quando a paixão se estabiliza e as pessoas se redescobrem na mudança.

Compromisso

Este último aspecto refere-se à decisão de continuar no relacionamento de longo prazo. É a vontade de permanecer no vínculo apesar das dificuldades, a favor da história compartilhada e do projeto de vida em comum.

Amor vazio: consequência do descuido

Dependendo dos três elementos propostos por Sternberg, podem surgir várias combinações que dão origem a sete tipos de amor. Por exemplo, a atração surge quando há apenas paixão; amor sociável quando a intimidade e o compromisso são combinados. No caso do amor vazio, apenas a vontade de continuar está presente, mas não há cumplicidade ou desejo sexual ou romântico.

Este tipo de amor é típico das relações de interesse ou de conveniência, mas também, como já assinalamos, é frequente que surja em casais com uma longa história. Fica-se no vínculo pelos filhos, pelos amigos mútuos, pela casa que se compartilha, mas os membros da relação são praticamente dois estranhos.

É verdade que a própria passagem do tempo faz com que os relacionamentos se transformem. Substâncias como dopamina, serotonina, oxitocina ou endorfinas, muito presentes no início, diminuem a partir dos primeiros anos, fazendo com que as sensações vividas diminuam sua intensidade. No entanto, o amor não é determinado pela biologia, mas depende de quanto cultivamos e cuidamos do vínculo.

Diferentes investigações descobriram que há casais que, após 20 anos de relacionamento, apresentam a mesma ativação cerebral ao verem seus parceiros como pessoas de casais recém-iniciados. Ou seja, eles sentem a mesma paixão, intimidade e desejo de proximidade que nos primeiros anos. E isso se deve aos hábitos e comportamentos que têm mantido para cuidar do vínculo.

Casal olhando para longe

Do amor vazio ao amor consumado

Para Sternberg, o amor consumado é a aspiração máxima de um relacionamento afetivo, pois inclui os três componentes da pirâmide. É inegável que o compromisso é imprescindível para um casal perdurar, pois sem essa decisão não há amor que seja flexível e intenso o suficiente para sobreviver às mudanças impostas pela vida. No entanto, é possível trabalhar para restaurar a paixão perdida e a intimidade.

Para fazer isso, temos que abordar as áreas que tendem a levar ao amor vazio:

  • Negligência da imagem física que provoca redução na atração do parceiro.
  • Excesso de obrigações, rotinas e compromissos que os impedem os  de passarem bons momentos juntos.
  • Pouca autorevelação, não compartilhando com o casal preocupações, tribulações, sonhos e desejos.
  • Uma rotina monótona e repetitiva que leva à perda de incentivos para ambos.
  • Estresse mal administrado que nos leva a ficar irascíveis e a iniciar dinâmicas de interação negativa com o parceiro.
  • Negligenciar o relacionamento e tomá-lo como garantido, abandonando elementos essenciais como detalhes, gentileza, gratidão e demonstrações diárias de afeto.

Em última análise, está ao nosso alcance valorizar os aspectos que falham neste momento da relação, compreendendo as causas e trabalhando em equipe para revitalizar o vínculo. A terapia de casal pode ser muito útil neste momento, fornecendo ferramentas de comunicação e orientações para despertar esse amor adormecido.

Lembre-se de que paixão e intimidade podem flutuar em momentos diferentes no vínculo e isso não significa que você tenha que se contentar com um amor vazio.

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  • Sternberg, R. J. (1986). A triangular theory of love. Psychological review93(2), 119.
  • Acevedo, B. P., Aron, A., Fisher, H. E., & Brown, L. L. (2012). Neural correlates of long-term intense romantic love. Social cognitive and affective neuroscience7(2), 145-159.