O que é a anomia?

A questão da anomia se refere à tensão que ocorre entre grupos e indivíduos no cumprimento das normas. Elas são importantes para manter a coesão social, mas, ao mesmo tempo, se não estiverem alinhadas com as aspirações individuais, surgem conflitos e, em muitos casos, estas deixam de ser úteis.
O que é a anomia?

Última atualização: 27 Novembro, 2020

Anomia é um conceito muito antigo que já era mencionado na Idade Média para descrever as pessoas “sem Deus nem lei”. No entanto, foi o sociólogo Emilio Durkheim quem começou a trabalhar essa ideia de forma sistemática, e a partir de então o termo apareceu de forma recorrente na sociologia.

A palavra anomia se refere à ausência de regras e tendência a transgredir as normas. Pode ocorrer a nível coletivo ou individual, e também equivale à falta de diretrizes ou valores morais para orientar o comportamento.

Embora o conceito de anomia tenha nascido na sociologia, também foi trabalhado pela ciência política, antropologia e psicologia. Em todos esses campos, ela tem sido associada a condutas criminosas ou “desviantes”, como resultado de circunstâncias históricas ou como parte de um processo de evolução moral.

Toda a atividade humana ocorre dentro da sociedade, sem que ninguém seja capaz de escapar da sua influência.”
-George Simmel-

Toda a atividade humana ocorre dentro da sociedade

A anomia e a inconformidade

Quando falamos de anomia, falamos também de uma tensão entre o coletivo e o individual. Não há adesão às normas e isso, a princípio, ocorre devido ao fato de que as normas não condizem com a possibilidade real de uma pessoa cumpri-las, ou de o indivíduo não cumpri-las, mesmo que sejam razoáveis

Para Durkheim, a anomia era o resultado de um colapso ou deterioração dos laços sociais; uma separação que, por sua vez, levou ao enfraquecimento da solidariedade. Portanto, se não existirem laços fortes numa família, num determinado grupo ou na sociedade como um todo, os indivíduos não sentem que devem cumprir as normas que dão coesão a esse grupo.

Durkheim assinalou que a própria divisão do trabalho e a divisão das classes eram uma forma de deterioração dos laços sociais. Eles introduzem formas de injustiça e exclusão, que são posteriormente expressas nas normas. Essas acabam sendo preceitos que legitimam situações que vão contra os indivíduos. Como resultado, cria-se uma grande tensão e resistência em cumprir as normas.

Anomia e frustração

O conceito de anomia foi assimilado pela abordagem estrutural-funcionalista, de origem americana. Nesse caso, a ideia inicialmente trabalhada por Durkheim foi variada, e a ênfase passou a ser colocada apenas no indivíduo. Partia da ideia de que o coletivo, por ser coletivo, funcionava bem e de que se uma pessoa não conseguia se adaptar a isso, o problema era com ela e não com o social.

Diante disso, muitos autores apontam que, se um contexto propõe normas e modelos de atuação, mas ao mesmo tempo restringe os meios ou formas de alcançá-los, gera uma profunda frustração. Por exemplo, quando você aposta em ter sucesso e dinheiro, mas ao mesmo tempo esse ato é dificultado ou impedido pelas normas vigentes.

Nessas condições, não há apenas um enfraquecimento dos laços sociais, mas também é incubada uma forte resistência, passiva ou ativa. Isso acaba se refletindo em vários comportamentos que incluem depressão, violência urbana, crime e até suicídio, entre outros.

Anomia e frustração

O que ou quem deve mudar?

A questão da anomia e da adesão às normas é complexa. Na verdade, pode-se dizer que em nenhuma sociedade as regras são sempre e plenamente observadas. Se falarmos do ideal, o que deveria existir é um grupo em que o escopo de cumprimento seja muito amplo, promovendo a autonomia com base na responsabilidade ética individual.

Essa sociedade não é fácil de construir, principalmente por causa da desigualdade econômica e social, que também implica desigualdade de oportunidades. Nesse ponto, surge a questão de saber se, em condições reais, o que deve ser promovido é uma mudança nas normas ou nos indivíduos, para reduzir as tensões que levam à transgressão ou à frustração.

Não é fácil responder a essa pergunta. Uma perspectiva realista teria a ver com a consciência de que é importante se adaptar à realidade, por mais arbitrária que seja. Ao mesmo tempo, essa adaptação não precisa ser passiva, mas muito pelo contrário: crítica e ativa. Esse paradoxo teria que ser enfrentado, a faixa de tolerância à frustração expandida, bem como a força e a disposição para mudar.

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  • Girola, L. (2005). Anomia e individualismo: del diagnóstico de la modernidad de Durkheim al pensamiento contemporáneo (Vol. 46). Anthropos Editorial.